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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

ARTIGO – A difícil arte de ensinar respeito

A escola é um edifício de quatro paredes e o amanhã dentro dele.

(George Bernard Shaw, dramaturgo irlandês)

O homem, na concepção bíblica, criado à imagem e semelhança de Deus, está se distanciando, a cada dia, da divindade. Esse distanciamento não acontece pela semelhança física, mas ética e comportamental. E quando se observa este desalinho num homem de governo, ou dizendo de outra forma, no homem que representa governo, é possível estremecer com a interrogação de “como caminha a humanidade”.

O Brasil, vive um momento delicadíssimo, quando o governo fecha os olhos aos dissabores da política educacional e, ainda mais, quando o “homem do governo” leva a educação universitária ao caos. Não há política para manutenção das universidades públicas, no cumprimento das funções básicas: ensino, pesquisa, extensão.

Estão em greve as universidades públicas no Brasil. É fato de extrema gravidade, considerando o potencial de inteligência que se declara contrária à cruel política de sucateamento das instituições federais de ensino e o nível de miséria em que o governo submete os educadores e à educação no Brasil. Qual o significado desse estado de greve e quais leituras se podem fazer dessa situação? Há múltiplos caminhos a percorrer e qualquer um deles mostra uma faceta cruel: a falta de respeito do governo para com os profissionais das universidades. Por pequena que seja a leitura ela conduzirá a muitas chagas e uma delas é a difícil arte de ensinar respeito. Como tratar com um governo que não respeita os professores, os servidores públicos?

O ideal clássico de universidade estabelece que a sua função precípua diz respeito à produção e disseminação do conhecimento. Assim, cabe à universidade a transmissão da cultura, a investigação científica, a educação dos novos homens de ciência e de cultura, o ensino das profissões e, finalmente, a prestação de serviços à sociedade mediante o desenvolvimento de atividades denominadas de extensão.

A definição acima deixa evidente que o papel da universidade extrapola o âmbito restrito do ensino das profissões. Embora a formação se constitua numa das suas funções prioritárias, a sua missão fundamental diz respeito à produção do conhecimento, à capacidade de fazer questionamentos e ao exercício da crítica, mediante os quais pode ser possível o desenvolvimento da capacidade de resposta aos problemas e desafios vivenciados pela sociedade em diferentes campos do saber.

Ao longo dos anos, no Brasil, a universidade pública vem sendo tratada com descaso pelo governo e mesmo assim ela vem contribuindo, significativamente, para o avanço científico, técnico e cultural, bem como para a formação de profissionais. O atual Presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, é professor universitário aposentado, em que pese o lapso de memória desse tempo acadêmico, pois foi com um discurso acadêmico, democrata e moderno que ele galgou a presidência da República do Brasil.

Agora, estando no poder nos sete anos em que castiga os ex-colegas professores, o governo despreza a educação universitária, a construção do conhecimento e a consolidação de uma massa crítica capaz de reerguer o Brasil. Essa é outra leitura que salta aos olhos atentos e conduz à terceira leitura: deseja o governo matar a inteligência no Brasil? Ora, se isso não é verdade por que então esse governo sucateia as universidades brasileiras e trata os funcionários e professores como figuras que devam desaparecer da vida pública e, quiçá, de vida na terra ? Ou será que ele acredita, em sã consciência, ser possível a uma categoria viver sete anos com um mesmo salário, num país de economia instável, com a vida por um preço em cada minuto do dia?

Em outros países do mundo o professor, o educador, o doutor, o pesquisador, são personalidades respeitáveis, necessárias à libertação da nação às misérias do mundo, não somente daquelas materiais, senão também das morais, sociais, éticas e cívicas. Como, então, exigir respeito num país onde o professor, o educador, as instituições de ensino superior não são temas de atenção? O quê esperar de um governo que não ensina a difícil arte do respeito ao trabalhador?

Ensinar respeito à vida é o objetivo chave da educação em ciências da vida. Não interessa como alguém possa ler isso, mas uma coisa está clara, matar animais é antiético. E, agora, como dizer daquele que mata sonhos, esperanças e nega ao homem o direito de construir uma pátria mãe gentil para todos, ao tempo em que apregoa desenvolvimento aumentando o fosso cultural entre o saber e o fazer?


Dicas para o bom uso da Língua Portuguesa

Quatro anos é ou são pouco tempo para consertar uma universidade?

– Quatro anos é  pouco tempo para consertar uma universidade em frangalhos. O verbo ser fica no singular quando o predicativo é constituído por palavras como muito, pouco, bastante, suficiente, nada, etc.

É correto dizer “Não deu para chegar mais cedo”, professora?

Não. Prefira dizer: “Não foi possível chegar mais cedo.” Essa é a construção no padrão culto da língua. A primeira forma pertence à língua popular.

“Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?” É uma boa pergunta?

– É boa para tomar cerveja e falar da vida alheia. Para a língua, nem tanto, pois no presente, a primeira pessoa do plural é vimos, e não viemos, que é forma do passado. Assim, a pergunta rigorosamente correta deveria ser esta:  “Nós vimos aqui para beber ou para conversar?

Anos sessentas?! Anos setentas?! Anos oitentas?! Anos noventas?! Ah, mas isso é muito estranho professora, assim não dá!

– Pode até ser  estranho, mas dá. Dá porque está correto. Quem usa o singular, nesse caso, comete o mesmo erro de concordância daquele que diz “dois pão”, “três mês“. O segredo, para essa concordância, está em não confundir numeral (noventa anos,  sessenta anos) com o substantivo (um noventa, dois noventas; um sessenta, dois sessentas; um noventa, dois noventas). Os anos noventa são: 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99. Quantos noventas, não caro leitor ?! São muitos noventas reunidos!

Em ano eleitoral, a gente vê de tudo ou a gente vemos de tudo?

– Em ano eleitoral, a gente vê de tudo! Use sempre: a gente vê, a gente tem, a gente foi, a gente viu, a gente irá.

Mas também não é errado usar a gente?

– Não. Use a gente quando quiser, desde que em substituição a nós ( a gente foi votar) e a eu ( a gente se ilude muito na vida).

Nome próprio deve ter acento gráfico?

– Sim. Os nomes próprios estão sujeitos às mesmas regras dos nomes comuns. Portanto pode escrever sem medo: Maísa, Sônia, Luís, Luísa, Eusébio, Mônica, Cláudio, Jânio etc.

Deputados são eleitos para trabalhar ou para trabalharem?

– Deputados são eleitos para trabalhar ou para trabalharem, tanto faz; o essencial é que o façam …  O infinitivo, quando regido de preposição (exceto a, que normalmente exige o singular), pode variar ou não: “Lemos Letras & Letras para aprender ou para aprendermos um pouco mais sobre a nossa língua portuguesa”.


Luísa Galvão Lessa – É Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Professora e Pesquisadora na Universidade Federal do Acre – UFAC.