As artimanhas do bonzinho – Jornal A Gazeta

As artimanhas do bonzinho

Todo mundo conhece. Personagem do cotidiano, aqui e ali a gente depara com ele: o bonzinho. E sua preocupação fundamental: fazer crer que é afável e generoso.
No que obtém sucesso junto aos mais distraídos. Esses que o confundem com o autenticamente bom, por não estarem atentos a uma diferença elementar entre os dois: a motivação.
Enquanto o bom coopera com naturalidade e tira sua paga da satisfação com a própria atitude, o bonzinho é um impostor. Apesar do discurso e até das ações aparentemente desprendidas, ele não é um altruísta, mas um comerciante. E o lucro que persegue é a sua imagem pública de benfazejo – expediente que nega com todas as forças, inclusive para si próprio, já que a inconsciência é sempre parte da doença.
Em sua história, o bonzinho traz confusões estruturais. É filho daqueles que não toleram o erro e não confiam no livre processo de aprendizado da criança, privando-a de entrar em contato com suas emoções, especialmente a tristeza e a raiva.
O que acarreta um drama psíquico para a personalidade em formação, além de um golpe indelével na autoestima do indivíduo: “Se eu for o que eu sou, se eu expressar o que de fato sinto, ninguém me aceitará. Então devo fingir”, reflete inconscientemente.

 

“O bonzinho não é um altruísta, mas um
comerciante”

 

Ocorre que, sem conhecer seus contrastes e paisagens interiores, ninguém identifica seu valor pessoal e nem consegue ter notícia dos seus legítimos anseios. Como, então, poderia defendê-los aberta e serenamente? Na verdade, quanto mais reprimido for, mais ardilosamente agirá em suas manobras ocultas.
E, enquanto confinado em seu cativeiro emocional, desprovido de referências comportamentais significativas, o bonzinho segue enganado, imaturo e frustrado, sem possibilidade de ver florescer em si a autenticidade, a responsabilidade pelo autodesenvolvimento e uma gratificação existencial mais profunda.
Mas esse sujeito não mora tão longe assim. É bem comum que os seres humanos carreguemos, ao menos eventualmente, essa máscara. Importa inspecionar tal manifestação, investigar sua origem e dinâmica, compreendendo que apenas o descontentamento com a própria vida pode mobilizar para um modo de ser mais espontâneo e estimulante.
De qualquer modo, o mundo precisa de benevolência. Quem não gosta de ser recebedor de uma gentileza? Quem não se sente acolhido pelo perdão? A quem não conforta a doçura?
Diante dessa necessidade real, o desafio que nos cabe é acolher a nossa escuridão humana e tornarmo-nos artífices da própria bondade, verdadeira e gratuita.

 

Onides Bonaccorsi Queiroz é jornalista, escritora e autora do blog verbodeligacao.wordpress.com
E-mail: [email protected]

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