De onde vem tanta força? – Jornal A Gazeta

De onde vem tanta força?

Todo dia é a mesma rotina. Acorda cedo. Logo às 5h da manhã, toma banho, arruma cama, prepara café, acorda, monta e leva o filho para ir à escola. Antes mesmo das 7h, ela entra no trabalho, com a alegria de sempre, a discrição e honestidade de quem lutou para chegar onde está.
Com um filho com 15 anos, sem vícios, obediente e prestativo. Um teto, um punhado de amigos, um trabalho digno e que ela faz com amor e principalmente, uma fé inabalável. Tudo parecia bom. As coisas no seu devido lugar. E a engrenagem da vida movimentando a rotina naturalmente daquela família.
Aos poucos, mudanças importantes e significativas aconteceram. O filho tão amado e tão cuidado não se interessava em ir para a escola. Pouco tempo depois ele realmente abandonou os estudos.
Ficava mais tempo com uns “amigos” do que com a própria mãe. Ela esperta e vivida sabia que aquele era um caminho sem volta. Após ela descobrir que ele tinha se tornando um dependente químico o chão parece ter se aberto sob seus pés.
Um dia, o filho chegou em casa mais cedo. Ela estranhou, mas agradeceu a Deus. Cedo demais. A polícia bateu às 6h e levou o seu bem mais precioso sob a acusação de participação em um homicídio.
Parecia mais um pesadelo na vida daquela mulher batalhadora. Não era possível que o menino dela tenha tirado a vida de outra pessoa. Foi quando, já apreendido, ele confessou o crime ressaltando que tinha apenas levado o tal amigo para disparar contra outro sujeito.
Quando tudo e todos pareciam ter virado as costas para essa família, eis que a fé inabalável dessa mulher mostrou mais essa lição ao filho que está cumprindo pena há mais de dois anos.
Nesse período, a mãe dele não parou de trabalhar com amor, de respeitar os vizinhos, sempre com um sorriso no rosto. Assim, ela continuou seguindo no que acreditava. Um dia ela me confessou.
“Deito minha cabeça no travesseiro e tenho a consciência tranquila de que eu fiz tudo o que podia pelo meu filho. E continuo fazendo. Mas, ele precisa pagar pelo que fez. Se eu choro por ele, tem outra mãe que chora muito mais por não ter o filho com ela.”
A mulher seguiu o caminho dela. E eu o meu. Ela logo encontrou outra pessoa e começou a conversar. Eu, com lágrimas nos olhos, agradeci ao universo por mais essa lição.

“Um teto, um punhado de amigos, um trabalho digno e que ela faz com amor e, principalmente, uma fé inabalável. Tudo parecia bom”

 

Bruna Lopes é jornalista.
jornalistabrunalopes@gmail.com

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