Ligue, desligue e ligue – Jornal A Gazeta

Ligue, desligue e ligue

Almoçava esses dias em uma padaria pertinho de casa, a tv estava ligada em um canal de notícias e eu tentava não olhar para ela, embora fosse enorme e estivesse posicionada na altura do meu olho. Há algo sobre a tv ligada sem volume que me intriga – quando, na verdade, eu queria dizer me irrita. Ainda assim, obrigada senhor pela tecla mute, pior seria se o volume me alcançasse. Em um desses momentos distraídos, olhei para a tela, justo quando ela estava toda escura e algumas poucas letrinhas brancas diziam logo abaixo do nome do canal: nunca desliga.
Coincidentemente, levava comigo um romance “História de quem foge e de quem fica” de Elena Ferrante. Estou ainda no comecinho do livro, e tinha lido, há pouquíssimos minutos, um diálogo entre Elena e Franco, namorados de juventude, que se reencontravam depois de anos distantes. Em um cenário de discussão política acalorado, a história se passa na Europa do pós-guerra, Elena pergunta a Franco sobre o livro que acabara de publicar com grande sucesso. Ele diz ter gostado do que leu sem grande entusiasmo, e depois de alguma insistência confessa: “Você fez o possível, não é? Mas este, objetivamente, não é o momento de escrever romances”. Que frase doída. Que fase doída.
Sobre Elena, é preciso que vocês leiam este e os outros volumes da série napolitana, para entender o tamanho impacto que a observação de Franco foi capaz de causar. Sobre mim, posso dizer que vinha pensando neste tema desde o dia anterior, por ocasião de uma discussão no grupo de whatsapp de meus colegas de faculdade. Sim, as discussões voltaram – quando, na verdade, eu queria dizer que nunca foram. E a discussão vocês já conhecem: um colega fala sobre X, um outro diz que apesar disto ou daquilo, X é melhor do que Y, e a ele se junta a turma do “Deixa disso”, “Somos todos amigos”, “Vamos deixar esse grupo leve”, até que o engraçadinho da sala posta uma piada e todos a repercutem com algum exagero.
Entre a piada ‘leve’ e a tv que nunca desliga, fico com Elena. É tempo não só de escrever romances, como é também de lê-los. Romances, poesias, jornais, história. É tempo de conversar, ouvir o outro, se ouvir, parar um pouco para comer em paz. Tempo de ligar e também de desligar e ligar de novo. Respiremos. Que fase.

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