Longe de casa – Jornal A Gazeta

Longe de casa

Quando vamos morar fora, recebemos todos os tipos de dicas. As pessoas o preparam para o pior. Dizem que vai ser solitário e que você quase entrará em depressão por morar longe dos pais. Havia tantos anos que eu já sonhava em continuar meus estudos longe de casa – não porque eu queria ficar longe da minha família, mas porque nunca senti que aqui fosse meu lugar – que eu esperava que fosse bem mais difícil do que realmente foi. Minha mãe e meu irmão mais novo presenciaram os meus primeiros dez dias na cidade nova, o que ajudou muito. Mas, depois fiquei completamente sozinha. Meu colega de quarto, que seria o meu primo, estava fazendo um intercâmbio na Austrália. Fiquei duas semanas sozinha no pequeno apartamento e, sim, é silencioso. Mas não, não é o bicho de sete cabeças que as pessoas tanto falaram para mim. Nenhum dos dias eu chorei que nem falaram que eu iria chorar. Claro que minha mãe ir embora me fez soltar algumas lágrimas, mas não entrei em depressão. Tudo o que eu pensava era em como eu estava finalmente no caminho de alcançar o que eu quero fazer no resto da minha vida. Mas eu já sabia que para isso a gente tem que fazer alguns sacrifícios.

Para mim, a parte mais dolorosa veio a longo prazo, não no começo. Meu aniversário. Sempre o dia do ano que eu mais esperava para comemorar. Pensar que eu iria passar esse dia sem minha família e nenhum dos meus amigos foi bem triste. Meia-noite do dia 30 de maio eu comecei a chorar. O que eu não esperava era que esse seria um dos dias mais divertidos desde a minha chegada. Meus amigos da faculdade me receberam com aplausos e comemoramos a noite em um restaurante. Eu esperava que, pelo menos, seis pessoas aparecessem. Mas, vi catorze pessoas comigo na mesa, rindo e conversando. O dia que achei que seria o mais triste e difícil foi, na verdade, o mais divertido.

Também há outros pensamentos que tornam morar longe de casa difícil. Por exemplo, seus amigos de casa são insubstituíveis. Você vai conhecer pessoas muito legais, mas não se comparam aos seus amigos daqui. Conversar com eles todos os dias por mensagens não mata nada a saudade, só aumenta. Também tem os churrascos da família, aniversário da sua priminha, dos seus avós, do seu pai. Você perde tudo isso. Você também não tinha ideia do quanto seus pais gastavam com você. De repente, você percebe como o mundo é caro e só quer voltar a comer de graça na casa dos seus pais.

Contudo, são nessas horas que você deve lembrar que o resultado desses sacrifícios vai valer a pena e que um dia você poderá devolver aos seus pais tudo o que eles fazem por você.

* Isabela Gadelha é estagiária de jornalismo do jornal A GAZETA
E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia