Um rei no Acre (Segunda parte) – Jornal A Gazeta

Um rei no Acre (Segunda parte)

Na primeira parte desse artigo havíamos comentado brevemente sobre alguns aspectos importantes da vida do rei Leopoldo III da Bélgica, com ênfase nos fatos que levaram à sua abdicação e posterior dedicação à antropologia e fotografia. Foram esses interesses que o levaram a viajar o mundo, incluindo o Brasil, onde esteve em quatro ocasiões, duas delas visitando a Amazônia.

Infelizmente o diário de Leopoldo III não esclarece as razões da sua visita ao Acre e os personagens da época que tiveram contato com ele durante sua passagem por Rio Branco já faleceram (Jorge Kalume, Omar Sabino de Paula e Adauto Brito da Frota). Inexistem registros na imprensa local tendo em vista que o diário “O Rio Branco” só começou a circular em abril de 1969.

Leopoldo III chegou a Rio Branco na final da tarde de uma segunda-feira, 27 de novembro de 1967, por via aérea desde Guajará-Mirim. É possível que ele tenha viajado em um avião DC-3 da extinta empresa “Cruzeiro”, que por muitos anos cumpriu a extensa rota Rio de Janeiro-Cruzeiro do Sul, com escalas em incontáveis cidades ao longo do trajeto, dentre as quais Guajará-Mirim estava incluída.

Sem vagas em hotéis, ele pernoitou no Palácio Rio Branco, que nessa época servia para recepções oficiais e como moradia do Governador. À noite ele foi o convidado de honra de um jantar de gala oferecido pelo governo do estado no qual relatou a presença do então vice-governador Omar Sabino de Paula e do prefeito Adauto Brito da Frota, além do piloto e de outros três membros da tripulação do avião que o trouxe ao Acre. Esse detalhe parece confirmar que o rei chegou mesmo ao Acre em um voo comercial tendo em vista que os aviões DC-3 da “Cruzeiro” tinham a tripulação composta por piloto, co-piloto, radio-telegrafista e um aeromoço.

O texto apresentado a seguir é uma tradução do diário do rei originalmente publicada em francês (“Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983”) e traduzida para o português pelo primeiro autor do presente artigo. As notas explicativas [entre colchetes, em itálico] são apresentadas como uma forma de contextualizar para os leitores algumas das descrições feitas por Leopoldo III.

Terça-feira 28 (Novembro 1967)
Às 8 horas da manhã saímos de carro e pegamos a estrada para Xapuri, 80 quilômetros ao sul. [A viagem do rei em direção a Xapuri provavelmente alcançou a Vila Capixaba]. Grande floresta. Fizemos uma avaliação rápida das árvores comerciais com mais de 45 cm de diâmetro e 20 m tronco ao longo de 25 m de cada lado em 400 m da rodovia (2 hectares) [Nessa época ainda não tinha acontecido a ‘invasão dos paulistas’]. Paramos em uma casa e encontramos apenas um jovem e duas crianças. O jovem colocou seu equipamento seringueiro com a lamparina para me permitir tirar uma foto.

No caminho de volta, paramos em uma cabana de aparência modesta e almoçamos lá muito bem. A gentileza e a hospitalidade dos brasileiros sempre me comoveu. [Sua descrição da hospitalidade dos ‘brasileiros’ condiz com a gentileza típica de nossa população rural]. O Jantar à noite foi com o governador acompanhado do seu chefe de gabinete. O Palácio do Governo foi construído por um arquiteto alemão em 1928. O Governador Jorge Kalume é filho de pais libaneses e faz o tipo: sobrancelhas fortes, baixo e atarracado. [Ele foi muito precisa na descrição física do então governador Jorge Kalume].

Quarta-feira 29 (Novembro 1967)
Levantamos às 5 h 25 m e fomos para o aeroporto. Decolagem às 8 h 25 m e pousamos em Sena Madureira às 9 h. Depois de escalas em Feijó e Tarauacá, cruzamos o rio Juruá e pousamos em Cruzeiro do Sul [É possível que o rei tenha continuado viagem até Cruzeiro do Sul no DC-3 da “Cruzeiro”, que até o início dos anos 70 fazia essa rota].

Ao sobrevoar essa localidade imediatamente percebemos seu aspecto pitoresco e romântico. Cruzeiro do Sul ocupa agradáveis colinas verdejantes, com pequenos vales, com pequenas casas de madeira ou de tijolos revestidas de cimento pintadas em ocre, verde ou azul. A vista varia de velhas mangueiras e de magníficas palmeiras. [A impressão positiva do rei sobre Cruzeiro do Sul até hoje impactas os visitantes da cidade. É possível que ele tenha utilizado o antigo aeroporto da cidade, que ficava localizado no bairro conhecido na atualidade como ‘Aeroporto Velho’, logo após as instalações do atual 61º. Batalhão de Infantaria e Selva. Nessa época o trajeto entre o aeroporto e a cidade era pouco habitado e predominava a floresta].

No aeroporto varias personalidades nos aguardavam: o velho bispo alsaciano Dom José Hascher, já aposentado, o novo bispo Dom Henrique Rüth, alemão de Essen, o vice-prefeito Oswaldo Lima [avô do Dr. Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto, Procurador-geral do MPE-AC] e o juiz substituto Jurandyr Rodrigues da Silva [que posteriormente foi juiz em Rio Branco e Professor da Universidade Federal do Acre]. O velho bispo (77 anos) nos acompanha até o Hotel Novo Acre.
Após o almoço, uma caminhada fotográfica, muitas meninas bonitas e tímidas, que se deixam fotografar com prazer. Uma bela vista do Rio Juruá que de tão sinuoso é chamado de rio das minhocas. Subimos a colina onde se encontra a sede do bispado. Ali passamos uma hora com o bispo. Dom Henrique é um prelado muito culto e distinto. Serviu no exército alemão, na frente russa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Quinta-feira 30 (Novembro 1967)
Com o irmão Ansgar visitamos um igarapé de água preta, poucos peixes, mas interessante. [Segundo informou o Sr. Alberto, tocador oficial do sino da Catedral de Cruzeiro do Sul na época, o Rei coletava peixes e o igarapé que ele visitou foi o Igarapé Preto, balneário famoso em Cruzeiro do Sul. O Irmão Ansgar era um alemão, religioso da Odem dos Espiritanos, mecânico e andava pelas ruas enlameadas de Cruzeiro do Sul dirigindo um Unimog, um veículo 4×4 produzido na Alemanha pela Mecedez-Benz. Ele normalmente andava acompanhado do Irmão Shenk, carpinteiro da prelazia].

O almoço foi depois de ir de canoa, ver um furo (água branca) [Possivelmente a boca do rio Moa]. Após o jantar visita ao corajoso bispo Hasher, capelão das Irmãs Franciscanas. [Foi o Sr. Alberto, ainda na década de 1970, que comentou sobre a visita do Rei a Cruzeiro do Sul ao primeiro autor deste artigo. Segundo ele, o Rei teria prometido enviar recursos para asfaltar as ruas de Cruzeiro do Sul e essa “estória” ainda está viva na memória de alguns Cruzeirenses].

Artigo continua…

Para saber mais:
– Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983. Editions Racine, 2004, Bruxelles.
– Rei Leopoldo III – Diários de Viagem 1962-1967. Fundação Álvares Penteado, 2010, São Paulo.

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