Um rei no Acre (Segunda parte)

Postado em 14/03/2017 00:03:53 Alceu Ranzi e Evandro Ferreira

Na primeira parte desse artigo havíamos comentado brevemente sobre alguns aspectos importantes da vida do rei Leopoldo III da Bélgica, com ênfase nos fatos que levaram à sua abdicação e posterior dedicação à antropologia e fotografia. Foram esses interesses que o levaram a viajar o mundo, incluindo o Brasil, onde esteve em quatro ocasiões, duas delas visitando a Amazônia.

Infelizmente o diário de Leopoldo III não esclarece as razões da sua visita ao Acre e os personagens da época que tiveram contato com ele durante sua passagem por Rio Branco já faleceram (Jorge Kalume, Omar Sabino de Paula e Adauto Brito da Frota). Inexistem registros na imprensa local tendo em vista que o diário “O Rio Branco” só começou a circular em abril de 1969.

Leopoldo III chegou a Rio Branco na final da tarde de uma segunda-feira, 27 de novembro de 1967, por via aérea desde Guajará-Mirim. É possível que ele tenha viajado em um avião DC-3 da extinta empresa “Cruzeiro”, que por muitos anos cumpriu a extensa rota Rio de Janeiro-Cruzeiro do Sul, com escalas em incontáveis cidades ao longo do trajeto, dentre as quais Guajará-Mirim estava incluída.

Sem vagas em hotéis, ele pernoitou no Palácio Rio Branco, que nessa época servia para recepções oficiais e como moradia do Governador. À noite ele foi o convidado de honra de um jantar de gala oferecido pelo governo do estado no qual relatou a presença do então vice-governador Omar Sabino de Paula e do prefeito Adauto Brito da Frota, além do piloto e de outros três membros da tripulação do avião que o trouxe ao Acre. Esse detalhe parece confirmar que o rei chegou mesmo ao Acre em um voo comercial tendo em vista que os aviões DC-3 da “Cruzeiro” tinham a tripulação composta por piloto, co-piloto, radio-telegrafista e um aeromoço.

O texto apresentado a seguir é uma tradução do diário do rei originalmente publicada em francês (“Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983”) e traduzida para o português pelo primeiro autor do presente artigo. As notas explicativas [entre colchetes, em itálico] são apresentadas como uma forma de contextualizar para os leitores algumas das descrições feitas por Leopoldo III.

Terça-feira 28 (Novembro 1967)
Às 8 horas da manhã saímos de carro e pegamos a estrada para Xapuri, 80 quilômetros ao sul. [A viagem do rei em direção a Xapuri provavelmente alcançou a Vila Capixaba]. Grande floresta. Fizemos uma avaliação rápida das árvores comerciais com mais de 45 cm de diâmetro e 20 m tronco ao longo de 25 m de cada lado em 400 m da rodovia (2 hectares) [Nessa época ainda não tinha acontecido a ‘invasão dos paulistas’]. Paramos em uma casa e encontramos apenas um jovem e duas crianças. O jovem colocou seu equipamento seringueiro com a lamparina para me permitir tirar uma foto.

No caminho de volta, paramos em uma cabana de aparência modesta e almoçamos lá muito bem. A gentileza e a hospitalidade dos brasileiros sempre me comoveu. [Sua descrição da hospitalidade dos ‘brasileiros’ condiz com a gentileza típica de nossa população rural]. O Jantar à noite foi com o governador acompanhado do seu chefe de gabinete. O Palácio do Governo foi construído por um arquiteto alemão em 1928. O Governador Jorge Kalume é filho de pais libaneses e faz o tipo: sobrancelhas fortes, baixo e atarracado. [Ele foi muito precisa na descrição física do então governador Jorge Kalume].

Quarta-feira 29 (Novembro 1967)
Levantamos às 5 h 25 m e fomos para o aeroporto. Decolagem às 8 h 25 m e pousamos em Sena Madureira às 9 h. Depois de escalas em Feijó e Tarauacá, cruzamos o rio Juruá e pousamos em Cruzeiro do Sul [É possível que o rei tenha continuado viagem até Cruzeiro do Sul no DC-3 da “Cruzeiro”, que até o início dos anos 70 fazia essa rota].

Ao sobrevoar essa localidade imediatamente percebemos seu aspecto pitoresco e romântico. Cruzeiro do Sul ocupa agradáveis colinas verdejantes, com pequenos vales, com pequenas casas de madeira ou de tijolos revestidas de cimento pintadas em ocre, verde ou azul. A vista varia de velhas mangueiras e de magníficas palmeiras. [A impressão positiva do rei sobre Cruzeiro do Sul até hoje impactas os visitantes da cidade. É possível que ele tenha utilizado o antigo aeroporto da cidade, que ficava localizado no bairro conhecido na atualidade como ‘Aeroporto Velho’, logo após as instalações do atual 61º. Batalhão de Infantaria e Selva. Nessa época o trajeto entre o aeroporto e a cidade era pouco habitado e predominava a floresta].

No aeroporto varias personalidades nos aguardavam: o velho bispo alsaciano Dom José Hascher, já aposentado, o novo bispo Dom Henrique Rüth, alemão de Essen, o vice-prefeito Oswaldo Lima [avô do Dr. Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto, Procurador-geral do MPE-AC] e o juiz substituto Jurandyr Rodrigues da Silva [que posteriormente foi juiz em Rio Branco e Professor da Universidade Federal do Acre]. O velho bispo (77 anos) nos acompanha até o Hotel Novo Acre.
Após o almoço, uma caminhada fotográfica, muitas meninas bonitas e tímidas, que se deixam fotografar com prazer. Uma bela vista do Rio Juruá que de tão sinuoso é chamado de rio das minhocas. Subimos a colina onde se encontra a sede do bispado. Ali passamos uma hora com o bispo. Dom Henrique é um prelado muito culto e distinto. Serviu no exército alemão, na frente russa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Quinta-feira 30 (Novembro 1967)
Com o irmão Ansgar visitamos um igarapé de água preta, poucos peixes, mas interessante. [Segundo informou o Sr. Alberto, tocador oficial do sino da Catedral de Cruzeiro do Sul na época, o Rei coletava peixes e o igarapé que ele visitou foi o Igarapé Preto, balneário famoso em Cruzeiro do Sul. O Irmão Ansgar era um alemão, religioso da Odem dos Espiritanos, mecânico e andava pelas ruas enlameadas de Cruzeiro do Sul dirigindo um Unimog, um veículo 4×4 produzido na Alemanha pela Mecedez-Benz. Ele normalmente andava acompanhado do Irmão Shenk, carpinteiro da prelazia].

O almoço foi depois de ir de canoa, ver um furo (água branca) [Possivelmente a boca do rio Moa]. Após o jantar visita ao corajoso bispo Hasher, capelão das Irmãs Franciscanas. [Foi o Sr. Alberto, ainda na década de 1970, que comentou sobre a visita do Rei a Cruzeiro do Sul ao primeiro autor deste artigo. Segundo ele, o Rei teria prometido enviar recursos para asfaltar as ruas de Cruzeiro do Sul e essa “estória” ainda está viva na memória de alguns Cruzeirenses].

Artigo continua…

Para saber mais:
– Léopold III Carnets de Voyages 1919-1983. Editions Racine, 2004, Bruxelles.
– Rei Leopoldo III – Diários de Viagem 1962-1967. Fundação Álvares Penteado, 2010, São Paulo.

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