O mundo mágico dos sabirilas

Esta é apenas mais uma sátira trágica que mistura fatos quadrados e personagens redondos. Há uns amigos bem intencionados que gostariam de uma análise mais cuidadosa a respeito do fenômeno que representam as academias de ginástica de um modo geral e as suas relações com a civilização judaico cristã. Há outros que me têm talvez como um médico e pensam na possibilidade de um comentário acerca das complicações posturais que podem surgir de exercícios malfeitos. Todavia, como cronista que escreve sobre o dia-a-dia desta terra, a partir de toques de uma ironia que alguns afirmam mais refinada, vejo tudo com olhos bem humorados que escondem por trás de si uma alma com lampejos eternos de uma crítica construtiva, mas um tanto caótica.

Asseguro-vos que cheguei, enfim, à firme convicção de que a vaidade é a base de tudo. Ou somos vaidosos, ou não somos ninguém, ou temos pouca ou nenhuma importância. O que interessa nestes tempos modernos é aparecer bem na foto. E há adereços, adornos e enfeites de todos os tipos. Vai-se de uma tatuagem na bunda gorda, ou de um piercing nos grandes lábios, a uma roupa da melhor grife, ou a um carrão importado direto da Bolívia, não sei lá por quais meios lícitos ou ilícitos.

– Cheguei à boate Diesel, fui friamente calculada dos pés à cabeça pelos olhos mais cobiçosos dos rapazes a desejarem o meu rabo de sereia, fui invejada pelas moças mais fúteis da Firb-Uninorte, abalei Bangu geral, tomei todas e sou feliz, apesar da ressaca moral que me come o espírito pelo fato de ter comprado toda a minha indumentária, fiado, na Boutique Dona Flor. – Foi este o depoimento colhido por mim de uma moça bem bonita que freqüenta a Academia do Zola, no bairro do Taquari.

Passo enfim a considerar que o que chamamos de consciência é apenas a vaidade interior. É preciso estar sempre ciente de que faço o que faço – e bem feito – porque sou deveras inteligente e atento, o que me torna um vaidoso porque tomo conta de mim e do meu futuro. Se com a alma (que ninguém vê) acontece esse intrincado jogo de interesses, com o corpo (que muitos admiram e sentem pelo tato) tudo é muito mais real, posto que visível e palpável. Além de auto-confiantes e empavonados, todos nós queremos e precisamos e nos esforçamos muito a fim de que nos tornemos bonitos, de cara e de corpo, muitas vezes, infelizmente, não para nós mesmos… E é aí que mora o perigo de se matar o cartão de crédito e se gastar o que não se tem, ou de se tornar impermeável feito estátuas infladas por incontáveis botox.

Existe uma onda por aí que afirma que as mulheres se enfeitam não para os homens, mas para as outras mulheres, talvez suas rivais, que se matam de inveja umas às outras simplesmente porque o seu tubinho é brilhoso e o da vítima não. É mole?!

Assim como corre também por aí que uma mulher, em trinta segundos, na entrada de um baile, por exemplo, já vê trinta vestidos diferentes nas cores e nos realces. Enquanto um homem, de chegada ao mesmo evento, passa dois minutos mirando apenas uma única bunda, até que a esposa o tira do transe com uma bolsada nos cornos, ou com uma boa dose de uísque que encharca a cara do salafrário. Bem feito!

Pois bem! Esta Academia Corpo Ativo é apenas como as demais congêneres. Há umas moças mui belas, outras nem tanto. Há umas atiradinhas, outras um pouco mais, outras mais-que-demais. Há aquelas que, por pura cortesia, cumprimentam a todos. Outras – as mais bonitas – empinam o nariz e sequer olham para algumas almas sequiosas. (Eu, cá por mim, nunca fui a favor de mulher bonita que anda falando com qualquer borra botas. Elas têm que ser metidas mesmo).

Há uns rapazes raquíticos enfim chegados aos dezesseis, mas com uma louca vontade de parecerem ter vinte e cinco anos. Essa é a classe dos sabiás, devido serem finos os membros inferiores. Alguns dessa categoria tomam uns tais remédios que os veterinários usam para fazer os cavalos brochar,  mesmo diante das melhores mulas. Há outros que têm pernas também atrofiadas  –  dizem ter sido resultado de queda de moto, quase sempre!  –  e tórax iguais ao do Schwarzenegger. Esses são os gorilas espadaúdos e com cara de poucos amigos, a respeito de quem é melhor não fazer comentários mais detalhados, por uma questão de respeito que eles impõem na força bruta que os faz esturrar debaixo de anilhas que vão a duzentos quilos ou algo mais.
Pior é ver que, dentre os gorilas, existe uma parte significativa da classe que, por mais que o professor diga que devem e precisam exercitar as pernas, eles nem ligam.

É de tirar o sono ver o Manezin Rodela, por exemplo, fedendo que nem um gambá, suan-do em bicas, deitar-se sobre um aparelho ou colchonete e daí levantar-se sem ao menos passar a toalhinha com álcool que lhe está a um metro ao alcance das mãos ensebadas. O homem tá caindo de pôdi e nem tchum!… Aí, o cara vai para o supino e, depois, deixa lá seis rodelas de ferro equivalentes a trezentos quilos  –  e não as tira  –  como se, em seguida, a genitora dele ali fosse relinchar de tanto fazer força… Ele é forte, certamente, mas a Terezinha Lescu-lescu é fraquinha e não levanta mais que o peso de um homem franzino… Mais de trinta quilos pode matar a moça!

– Rapazes! As mulheres não gostam de braços grossos nem de ombros imensos. Elas gostam mesmo é de pernas bem torneadas, instrumentos firmes e bumbuns arrebitados! – Foi o que falava ontem, em alto e bom som, a professora Fulaninha, psicóloga e maníaca sexual da Academia do Zola, no bairro do Taquari.

Então, dos cinqüenta e dois de idade que tenho, metade deles vivi, praticamente, dentro de uma academia. Foi esta moça, a minha Penélope Distraída, na época apenas uma acompanhante e dama de honra, quem me inseriu entre os ditos fisiculturistas. Achou-me as pernas finas, os bíceps tenros demais, a bunda não dava um pastel, os ombros se encolhiam, dentre outros tantos defeitos posturais apontados pela hoje tornada expert no assunto, em vista do acúmulo de anos entre malhações, dietas e chás miraculosos.

Pois bem! A partir daí, passei também a cultuar o corpo, essa minha segunda igreja pequenina em frente da qual me posto, espada em punho, vaidoso, como todos, querendo achar beleza nas tantas vezes em que olho nos espelhos incrivelmente grudados em todas as paredes desta alma orgulhosa. Sim! Sobre os espelhos é preciso também dizer que, nas academias, são como mares insondáveis a esconderem nas suas profundezas tanta vaidade e tanta beleza que os outros não vêem, mas a vítima sente.

Lembro Zé Rubim, um sábio destes mais velhos, de sessenta e lá vai pancada e brincalhão demais. Foi ele quem disse que os mais novos, como o Zola, vêm para a academia para ficarem mais bonitos; nós, cinqüentões ou sessentões, ao contrário, vimos nos exercitar para que, assim procedendo, possamos  morrer um pouco depois, ou mais tarde, quem sabe, com uns quinze anos de lambuja… Ele é um filósofo clássico desses que ilumina os aparelhos ergométricos com o seu sorriso de urso panda.

O arrojado e avantajado Dr. Luiz Lopra, cearense, é um outro analista de respeito. Foi ele o autor de uma das melhores tiradas por mim já ouvidas, enquanto descanso desse serviço pesado, que nós pagamos a bom preço para que o moço Zola nos deixe fazer força até nos esbaforirmos em suores e desejos recônditos de nos tornarmos mais moços a qualquer hora da noite dos nossos sonhos juvenis.

– Professor, preste atenção! – Disse ele. – As mulheres só vêm para a Academia depois que os maridos as deixam. Aí, a coisa já está quase na casa do sem-jeito. Às vezes nem a faca do cirurgião Pitangüi será a solução. E nós, homens, só vimos pra cá quando as nossas mulheres já dobraram o cabo da boa esperança. Mas aí tem jeito! Hoje, seu moço, um bom punhado de dólares resolve até problema de virilidade.
E eu respondi:

– Doutor! Os mesmos dólares, se gastos pelas mulheres, também podem comprar tanquinhos novinhos em folha, como foram os nossos abdomens antigamente. Ora pois!

O mundo, felizmente, carece de filosofia, mesmo que seja tão tosca quanto esses arrotos de sabedoria. Mas é preciso pontuar que a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam freqüentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho relaciona-se mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.

Infelizmente, textos como este são lidos por muitos, mas compreendidos por tão poucos. Afinal, estes tais que, como eu, freqüentam as academias de malhação, não o fazem com a finalidade de exercitar a inteligência parca, mas para definir o futuro das rugas que um dia substituirão bíceps e glúteos hoje tão volumosos e saudáveis.

* José Cláudio Mota Profiro é escritor: http://www.claudioxapuri.blog.uol.com.br

 

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