Em artigo, historiador fala sobre comentários em reportagem da “década perdida”

O historiador, Marcus Vinicius, especialista em história política do Acre, escreve no artigo abaixo sobre os comentários emitidos por ele em reportagem publicada na última edição de 2009 de A GAZETA, que analisava as duas últimas décadas no Estado e fazia uma perspectiva para os próximos dez anos. Vinicius citou o governo Orleir Cameli (1995-1998). As declarações não agradaram os membros da família juruaense.

Em nota publicada na última terça-feira, o deputado federal Gladson Cameli (PP) refutou os comentários. Desta vez, o espaço é cedido ao historiador.

“Apenas ontem pude ler a nota do deputado Gladson Cameli e gostaria de fazer um esclarecimento que me parece necessário diante da aparente incompreensão de uma parte do que eu disse ao repórter do jornal A GAZETA, Fabio Pontes. A entrevista que ele fez comigo foi sobre os últimos 20 anos da história do Acre, mas por um velho vício de historiador acabei falando dos últimos 50 anos.

Ou seja, fiz ao repórter uma análise da história política do Acre Estado, desde José Augusto, passando por Vanderlei Dantas, Edmundo Pinto, até Jorge Viana, dando ênfase ao caráter inovador de cada um destes governos citados, no que diz respeito aos modelos de desenvolvimento adotados, cada qual a seu modo e com as características de sua época.

Ou seja, durante a entrevista, eu não me aprofundei sobre as qualidades e defeitos de nenhum destes governos (os mencionados acima ou os outros), porque a análise era do contexto desse longo e complexo período.

Além disso, argumentei com o repórter sobre a necessidade de considerarmos a conjuntura nacional em nossas análises da história acreana. Como, por exemplo, quando a tragédia nacional chamada Fernando Collor se abateu sobre todo o país, influindo decisivamente no contexto acreano do mesmo período.

E é por conta dessa necessária análise conjuntural que os historiadores não gostam de falar sobre o presente ou sobre o passado muito recente, enquanto ainda não há acumulo de análises suficientes para traçarmos um quadro mais claro dos acontecimentos. É como eu sempre digo: presente é coisa de jornalista, historiador cuida mesmo é do passado, e quanto mais passado melhor…

Mas, essas observações seriam dispensáveis já que me parece que o repórter Fabio Pontes trabalhou corretamente com a entrevista que dei a ele. Entretanto, parece que pelo menos um ponto não ficou claro o suficiente. O deputado Gladson Cameli interpretou que eu disse que o governador Orleir Cameli teria sido “apoiador” do Esquadrão da Morte que funcionou no Acre nos anos 90. Eu não disse isso e nem me parece que o Fabio Pontes tenha feito essa afirmação na reportagem.

Eu disse apenas que naquele período ocorreu o acirramento das questões relacionadas ao esquadrão, como um dos elementos diagnósticos da crise institucional que o Acre vivia nos anos 90. Tanto assim que me refiro a uma “década” perdida e não a um determinado “governo” perdido.

Portanto, para deixar ainda mais claro: de nenhuma maneira acusei o Governo de Orlei Cameli de “apoiador” do crime organizado no Acre, até porque não teria provas para sustentar uma afirmação deste tipo. Por outro lado compreendo o desejo do deputado de defender sua família e seu grupo político de qualquer tipo de crítica, mas volto a lembrar que esse não foi o objetivo de minha entrevista (criticar em especial esse ou aquele governo acrea-no) e nem me parece ter sido do próprio jornalista autor da matéria, mas apenas de uma análise de longo prazo sobre os rumos da história acreana.

Além do que, é bom deixar claro, não falei em nome de nenhum grupo ou partido político. Fiz uma análise como historiador e, apenas, como historiador. Lembrando que já existem alguns trabalhos sobre os períodos mais recentes da história do Acre e a interpretação expressa por eles não difere muito daquela que, em linhas gerais, expressei em minha entrevista. Afinal, assim é feita a história, menos por opiniões subjetivas e mais por análises objetivas”. 

 

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