Resex Chico Mendes chega aos 20 anos atravessando diferentes fases da economia

A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes completou no último dia 12, 20 anos de criação. O decreto que tirou a reserva do papel foi assinado pelo então presidente da República José Sarney após muita pressão nacional e internacional com o assassinato de Chico Mendes, em 22 de dezembro de 1988. Nestas duas décadas, a unidade de proteção enfrentou os altos e baixos das diferentes fases da economia acreana, com a pecuária e o extrativismo dividindo o mesmo espaço.
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Com mais de um milhão de hectares, a Reserva Chico Mendes abrange todos os municí-pios ao longo da BR-317, mais Sena Madureira, às margens da BR-364. A unidade evitou que o círculo do desmatamento expandisse suas fronteiras para essas áreas, que comumente são “engolidas” pela pecuária.

Mesmo assim, a criação de boi é realizada, ainda que em pequena escala, por algumas das mais de duas mil famílias que vivem dentro da reserva.
Pecuária e extrativismo convivem dentro do mesmo espaço revelando um certo paradoxo, já que o objetivo das reservas extrativistas é fazer com que o extrativismo vegetal seja a principal atividade econômica. Ano passado, o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) precisou intervir na Resex Chico Mendes para conter a expansão do gado.

“Com a falência dos grandes seringais e a queda no preço da borracha, os seringueiros passaram a plantar e criar animais para garantir a sobrevivência”, diz Sebastião Santos, analista ambiental do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), e ex-chefe da Resex Chico Mendes. A chegada dos bois à reserva, completa ele, aconteceu bem antes da criação da unidade.

A expansão da pecuária no Acre se deu durante as décadas 1970 e 1980, quando o governo militar vendia as terras da Amazônia “a preço de banana” para desenvolver uma região até então isolada do resto do país. Foi aí também que se iniciou os primeiros conflitos entre seringueiros e pecuaristas vindos do centro-sul. Aos poucos, áreas que formavam os antigos seringais se transformavam em fazendas.

É ainda durante estes anos conturbados que começam os primeiros movimentos em defesa da manutenção da floresta e seu uso sustentável. Mesmo com o extrativismo praticamente falido, os moradores tradi-cionais queriam que sua antiga fonte de sobrevivência conti-nuasse em pé. Dentro da Amazônia surgem os primeiros conceitos de exploração sustentável e criação das reservas extrativistas.

O tempo passou e o país, graças à luta de Chico Mendes e tantos outros líderes, abriu os olhos para a preservação da Amazônia. Segundo Santos, o objetivo é fazer com que, aos poucos, as famílias que vivem nas reservas deixem a pecuária de uma vez por todas e tenha no extrativismo vegetal sua única fonte de sobrevivência. Para isso, são necessárias uma série de políticas públicas que valorizem todo o ciclo de produção florestal.

É isso que tem feito o Acre na última década, com a implementação do desenvolvimento sustentável como sua política econômica. No entorno da Reserva Chico Mendes, vários empreendimentos foram instalados com o objetivo de absolver toda a produção extrativista dos seringueiros. Um exemplo é a fábrica de preservativos, que compra a borracha produzida pelas famílias.

“Para que os objetivos das reservas extrativistas realmente sejam concretizados é preciso que o mercado responda conforme os investimentos, que a borracha tenha um valor atrativo”, afirma o analista. A concessão de subsídios, exemplifica ele, é um dos mecanismos para que produtos extrativistas tenham preços competitivos no mercado. “Para que se reverta a pressão da pecuária é preciso que essa e outras políticas sejam bem-sucedidas”.

Sebastião Santos enumera outras ferramentas adotadas nos últimos anos para que o extrativismo supere a pecuária dentro da Amazônia: “valorização da produção, incentivar o seringueiro a permanecer em sua colocação, o desenvolvimento de tecnologias para a diversificação da produção extrativista e a introdução de manejo florestal comunitário”.

O sucesso destas medidas dependerá diretamente de como o mercado e os próximos governos vão se comportar. Os 20 anos seguintes vão oferecer a resposta e se saberá se realmente, enfim, retirar as riquezas da floresta de forma sustentável compensa mais do que criar boi ou plantar soja.          

 

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