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Testemunha conta detalhes da ação desastrosa da polícia

Mesmo temendo represálias da polícia, um rapaz que foi arrolado como testemunha no caso dos disparos contra civis, durante uma blitz na última quinta-feira, 25, contou detalhes da ação desastrosa da polícia, que resultou na morte da jovem Edna Ambrósio, 22 anos e deixou ferido Jeremias Cavalcante, 21 anos. A testemunha, que vamos identificar de  “X”, disse ter sido três poli-ciais que efetuaram tiros e não dois, como consta no boletim de ocorrência.Testemunha1
“Eu estava a poucos metros de onde estava a blitz e pude ver exatamente como tudo  aconteceu. O rapaz vinha na moto a uns 60 km/h e acredito que ele se assustou com a blitz, foi quando ele acelerou um pouco mais. Um dos policiais gritou e tentou segurá-lo, e ele desviou a moto e seguiu em frente. Se viesse em alta velocidade certamente ele teria caí-do ao desviar do policial que estava no meio da rua”, conta “X”, contradizendo a versão da polícia de direção perigosa e em alta velocidade.

Sobre os tiros, “X” contou que no momento em que o rapaz tentou se evadir do local, um dos policiais da Ciatran efetuou o primeiro disparo para o chão, seguido de outro disparo, efetuado por um policial do Bope em direção ao casal na moto e um terceiro, também do Bope efetuou o último disparo.
“Este terceiro policial atirou no susto, ele estava segurando o fuzil e quando ouviu os dois primeiros tiros simplesmente virou e deu o disparo. Este, acredito que também foi em direção ao chão, mas também na direção da parada de ônibus, onde tinha muita gente. Nós até fomos verificar depois se alguém tinha se machucado, mas graças a Deus ninguém se feriu”, acrescenta “X”.

Segundo a testemunha, no momento em que eles souberam que haviam pessoas feridas logo à frente, os policiais ficaram desorientados, correram para as viaturas e para as motos que estavam em uma rua transversal e saíram em direção ao local das vítimas. “Um oficial chegou a gritar pedindo que não fosse todo mundo, porque a blitz não podia ficar sem guarnição. Era policial do Bope querendo entrar na viatura da Ciatran e o pessoal da Ciatran entrando na viatura do Bope, foi uma confusão só, era visível o desespero”, afirma a testemunha.

Já no local do crime, onde as vítimas estavam no chão, “X” disse que um rapaz que estava próximo chegou a receber voz de prisão porque estava dando entrevista para uma emissora. “Eles estavam ameaçando todo mundo e sobre esse rapaz depois um policial chegou pra ele e disse “não diga a ninguém que eu lhe dei voz de prisão”, tentando intimidar o rapaz e ameaçando caso ele contasse em seu depoimento que tinha recebido voz de prisão”.

A testemunha diz ainda que teme pela sua integridade física, já que, segundo ele, a polícia está tentando intimidar as testemunhas para que não contem a verdade nem desmintam a polícia. “Vou só lhe dar um exemplo, em momento nenhum o rapaz empinou a moto e dirigiu apenas sobre uma roda, como eles estão dizendo, inclusive eu fiquei sabendo que ele recebeu várias multas e uma é exatamente com a acusação de direção perigosa nesse sentido”, diz
A testemunha finaliza dizendo: “tenho medo do que possa acontecer, mas me sinto na obrigação de testemunhar a verdade. Hoje a vítima foi um desconhecido, mas amanhã pode ser comigo ou com minha família. Não quero julgar ninguém, mas a polícia agiu de maneira errada e o resultado foi trágico e lamentável”, concluiu.

PMs acusados de matar estudante serão indiciados
Os policiais militares acusados de efetuar os disparos que mataram a estudante Edna Maria Ambrósio Rego, 22, serão indiciados por homicídio qualificado. O pedido foi formulado ontem, 1º, pelo promotor de Controle Externo das Polícias do Ministério Público Estadual, Dayan Moreira Albuquerque, à Corregedoria-Geral da Polícia Civil.

Outro documento foi encaminhado a Corregedoria da Polícia Militar, onde o promotor pede a abertura de processo administrativo contra os policiais, que dependendo das investigações podem até serem expulsos da corporação. “São duas linhas de investigações distintas e que serão acompanhadas de perto por nós”, assegurou.

As polícias Civil e Militar terão 30 dias para concluir suas investigações. Somente a partir dos relatórios enviados ao MPE é que Dayan Albuquerque irá decidir se será necessário ou não a realização de novas diligências. Existe a preocupação, por exemplo, com a segurança dos familiares das vítimas.

O 3º sargento S. Moura e o soldado Morais Costa – apontados como os autores dos disparos contra a estudante – continuam recolhidos ao quartel do Batalhão de Operações Policiais (Bope), para onde foram levados logo após a lavratura do flagrante na Delegacia da Mulher.

JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – Ontem foi dia do namorado de Edna, Jeremias de Souza Cavalcante, comparecer ao Juizado Especial Criminal de Rio Branco para prestar esclarecimentos acerca do Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), lavrado pela polícia no dia da tragédia.
No TCO, ele foi autuado pela polícia por dirigir em apenas uma roda e fazer malabarismo; furar a blitz; ameaçar a vida dos transeuntes e dos policiais militares. Ele não confirmou que tenha sofrido ameaça de morte por parte dos PMs. Aliás, um policial militar ficou o tempo todo ao lado dele durante a audiência.

Comoção e pedido de justiça marcam enterro de estudante
Testemunha2Um protesto silencioso e “gritos” de justiça somente representado em cartazes que clamavam contra a impunidade marcou os momentos de despedidas no enterro da estudante Edna Ambrósio, 22 anos, morta com um tiro de fuzil disparados por policiais militares, após o namorado Jeremias Cavalcante, 21 anos, “furar” uma blitz na Rua Campo Grande, bairro João Eduardo.

Familiares, amigos e anônimos se juntaram à dor da dona-de-casa Maria Ambrósio, 54, mãe da vítima.

O silêncio tomou conta do cortejo que saiu da Travessa São Cristovão, bairro Preventório, passou na Rua Campo Grande, local em que a estudante foi atingida, e seguiu até o Cemitério Morada da Paz, no bairro Calafate local em que o corpo da jovem foi sepultado.

O silêncio somente foi quebrado no momento em que o corpo de Edna descia na sepultura. O lamento emocionado da mãe da vítima fez chorar até os funcionários do cemitério.

Ainda em visível estado de choque a mãe de Edna fez um apelo ao Ministério Público e ao comandante da Polícia Militar, que não deixasse os culpados da morte da filha impunes.

“Minha filha estava começando a viver, cheia de sonhos. Ela começaria a trabalhar um dia após ser morta de uma forma brutal, abatida como se fosse um animal selvagem e perigoso. Não vou conseguir conviver com essa dor que partiu meu coração em mil pedaços”, disse a mulher em prantos.