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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

A importância da linguagem no destino e na vida das pessoas

O homem, desde os mais remotos tempos, sempre se preocupou com a linguagem. Na Grécia antiga, os pensadores já se deixavam seduzir por questionamentos como: as palavras imitam as coisas? Como se dão os nomes às coisas? Como a linguagem se organiza? Qual o poder das palavras na vida das pessoas? Qual a função política da linguagem?

Na atualidade essas preocupações ainda habitam a alma humana. Isso porque as palavras se transformam conforme mudam às necessidades na vida das pessoas. As sociedades evoluem, surgem novidades e, conseqüentemente, criam-se novas palavras para tudo aquilo que é novo. Pela palavra, Deus criou todas as coisas e criou o homem e a mulher (Gn 1). Nós, seres humanos, somos frutos da palavra.  E é pela palavra que a pessoa diz quem é. É pela palavra escrita que se constrói a História, se perenizam os feitos humanos. Porém, nada mais perigoso do que o uso das palavras.

E isso os sofistas, na Grécia Antiga, ao perceberam a importância da linguagem, especializaram-se na retórica. Assim, naqueles tempos, quando a persuasão constituía uma força pública, impunha-se a eloqüência. Hoje, pouco ou quase nada serve a eloqüência quando a força pública substitui a persuasão. Contam que Heródoto lia sua história aos povos da Grécia, reunidos ao ar livre, e tudo ressoava com aplausos. Hoje um acadêmico, num momento de reflexão erudita, é ouvido com enfado. Fazer jogo com a vida, os ideais humanos, isso sim, seduz mais do que a verdade da vida.

Não é por acaso que tanta gente que se julga importante tende a metamorfosear as palavras, mascarando-as ou destituindo-as do seu significado real. E fazem isso, em espe-cial, aquelas ‘pessoas patológicas’, que só olham o próprio umbigo, mesmo usando lentes. Essa gente se especializa no jogo da sedução da linguagem. Especializam-se em cacoetes e adereços, para fazer posse diante de gente frágil, com pouca leitura do mundo e de si mesmo. E fazem isso no intuito de minar, amedrontar o outro, fragilizá-lo. Com isso, criam, em torno de si, uma espécie de ‘tabu’, que imprime medo.

Mas é importante descobrir que a linguagem desses ‘entes patológicos’, como escreveu Orwell (2002), “destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”. Todo cuidado é pouco. Importante ao leitor/ouvinte é não se deixar conduzir, como manada cega e surda, pelas armadilhas, as tramas que conduzem à destruição de sonhos.

Assim, é importante que toda gente esteja atenta aos discursos, as falas daquelas pessoas que buscam o poder a qualquer preço. Isso porque boa parte dos mal-entendidos, das escolhas errôneas, dos problemas de compreensão da rea-lidade da vida, se deve às armadilhas das palavras. E como toda armadilha, ela não é casual, obedece a uma intenção e planos determinados. A manipulação da linguagem, o seu uso, enquanto forma de opressão, conduz o ser humano à escuridão da vida, ainda mais naqueles momentos em que as pessoas são usadas como massa de manobra.

Nesse cenário, mais do que em outros, é importante não perder de vista a etimologia, o estudo das palavras, a história que aponta as possíveis mudanças no significado delas. Ter atenção, não se deixar seduzir, não se deixar enganar, é uma boa medida de segurança.
Conclui-se a reflexão com as palavras de Bakhtin (1999, p. 113): “Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor”. Então, os criativos que me perdoem, mas imagem não é tudo. Palavras sim!

DICAS DE GRAMÁTICA

FUI EU QUE FIZ, FUI EU QUEM FEZ OU FUI EU QUEM FIZ?
– Quer saber mesmo? Pois todas estão corretas. Vejamos:
Fui eu que fiz – Justificativa – O verbo que tem como sujeito o pronome relativo que concorda em número e pessoa com o antecedente, a palavra que precede esse pronome. Exemplos: “Foi ele que te nomeou”, “Sou eu que vou agora”, “Fomos nós que escrevemos a carta” e “Serão os pais dele que receberão a herança”.
Fui eu quem fez – Justificativa – Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo, geralmente, permanece na terceira pessoa do singular. Exemplos: “Foi ele quem te nomeou”, “Sou eu quem vai agora”, “Fomos nós quem escreveu a carta” e “Serão os pais dele quem receberá a herança”.
Fui eu quem fiz – Justificativa – Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo pode ser influenciado pelo sujeito da oração anterior, com o qual acaba concordando. Exemplos: “Sou eu quem vou agora”, “Fomos nós quem escrevemos a carta” e “Serão os pais dele quem receberão a herança”.

Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras.