Coisas da terra

O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE   CAPÍTULO XXIII

Mais uma vez a vista se perde na imensidão das águas. Isto é inacreditável. Ancorados no porto de Óbidos, não se consegue ver a mata do outro lado do grande rio. Nem mesmo seria possível estando o navio a duzentos metros daqui da margem. Aliás, cidades como esta e como Santarém, Alenquer e a própria Belém são homenagens feitas às cidades portuguesas de nome idêntico. Denominações que têm Portugal como origem há muito são importantes entre os brasileiros do Norte, o que não ocorre tanto no nordeste, onde predominam termos em tupi guarani com os quais foram batizadas muitas cidades, como o próprio Baturité.

O pensamento voa. Os Correios e Telégrafos seriam já tão eficientes por aquelas paragens? Como receberei cartas dos de casa, se é que algum dia serei lembrado? Talvez alguns me tenham como um desertor, não os de Belém, mas os de Fortaleza, tão poucos, mas agora tão significativos a esta altura dos acontecimentos. Terei salário, mas quero ter o controle da verba que vem do Ceará em meu nome. No Pará, a esposa e o sogro são de inteira confiança, mas será que a correspondência entre as cidades amazônicas funciona? O recém-criado Banco da Borracha é também de confiança? No dizer dos magnatas paraenses, é, com certeza, e eu posso seguir tranqüilo, uma vez que também o seringalista que me contratou é homem de bem e acostumado a transacionar com a tal entidade financeira.

Abastecemo-nos de lenha, água e víveres para a primeira classe, visto que, parece-me, ainda há muito charque vencido e pirarucu salgado para fazer sobreviver ou acabar de matar os sertanejos amaldiçoados e sem destino certo.

Observo que nas cidades às margens do Amazonas e nas adjacências, as pessoas têm costumes um tanto diferenciados.

No porto de Óbidos, ainda manhãzinha, enquanto os tripulantes tomavam as suas providências, eu posso sair pela cidade para uma breve apreciação daquele conglomerado humano tão diferente, mas um tanto simpáticos, o lugar e as pessoas. Partiremos às três da manhã do outro dia e, por isso, poderei dispor de bastante tempo para dar um bordejo em busca das novidades próprias da terra.

Havia tomado um lauto café da manhã no navio à base de tapioca, pão de milho e carne seca moída com farinha, a famosa paçoca de jabá. Uma beleza! Por isso estou certo de que devo entrar num botequim para tomar um refresco de taperebá, como em Belém. Mas há cerveja, por mais incrível que pareça. E da boa.

Três ou quatro copos já me apeteceriam. Mas tomo quatro garrafas devido o sol escaldante e porque acompanha-as um peixe frito de nome pratiqueira.
Saio em seguida. Um comércio de médio porte, a Farmácia Longa Vida, logo me chama a atenção. Vende remédios, perfumes, miudezas e cachaça, notadamente cachaça, cuja variedade de rótulos muito bonitos e marcas é grande: Aratu, Titara, 177, Marafa, Deliciosa, Jibóia, Murionga, Safra Grande, Recordações, Laranjinha, Feitiço, Lembranças 1910, Girandelosa, Pitinga… Três vidros coloridos e enormes, um verde, um azul e um vermelho, contêm salsaparrilha, sena e alfazema. Há jornais de Belém, a Folha e a Província, e revistas do Rio de Janeiro, O Malho, A Careta e o Fon-Fon. E mais remédios, pajelanças, puçangas.

Na parede, um aviso: “Farmácia Longa Vida. O farmacêutico Ataíde Bulhões faz tudo segundo a arte. Interpreta e conserta as receitas dos doutores e dos pajés, mesmo que as de letra mais ilegível. Faz remédios vários para dar felicidade: Perfumador Pai Jacó, para conquistar mulheres (é tiro e queda!); Defumador Africano, para dar sorte na vida; Defumador Pai Davi, tira urucubaca e cura panema; Banho de Cheiro, puçanga para dar força a homem fraco. Tudo a gosto da freguesia”.

Na prateleira, uma curiosidade escrita em papel duro, dependurada, onde se lê: “Bom contra a panema. Vai se embora a má sorte. Leve um vidro para casa, ponha no meio da sala bosta de boi, derrame o remédio em cima, e ponha fogo pra queimar. A fumaça acaba com a doença e a sua sombra volta dentro de poucos dias. É só esperar por ela. E leve uma cruz de cera benta pra espantar assombração de bicho. Na hora, reze sozinho esta oração:

AO DIVINO SENHOR “Ó, meu Deus infinito. Supremo e grande senhor de todas as coisas, para quem o mistério não existe, favorecei-me com a Vossa divina assistência e fazei que um raio da Vossa luz ilumine o cérebro perturbado do Vosso servo. Afastai dos meus olhos o véu que os cobre e guiai-me pelas veredas sagradas. Dai-me o poder de suprimir o mal, propagar o bem e livrai-me de todos os perigos, inveja e malefícios preparados pelos meus inimigos. Concedei-me a Vossa luz, eu Vos suplico, Senhor. Amém”.

Há bastante peixe: pirarucu, peixe-boi, tartaruga e capitari, jacaré-açu, tucunaré, matupiri, aparaí, filhote de piraíba, piranha, puraqué (para remédio), e até o tal tucuxi é comestível entre os mais pobres. Come-se o carantuã, o beiju-açu e o tacacá, além de outras comidas regionais muito apreciadas até pela clientela portuguesa.

Consomem bebidas de antiga origem indígena: uarana, tarubá, tiquara, tiquira, aluá, guaraná ralado ou raspado com escama de pirarucu, dentre outros.
À tardinha, apitou mais um navio. É o Canavaru, ao comando de Mestre João Peregrino da Rocha Fagundes (numa alusão e numa homenagem ao grande escritor amazônico-potiguar inspirador do relato a seguir), cuja responsabilidade era muito grande, apesar de ser um homem de pouco mais de metro e meio.

Conhecido meu, do porto de Belém, fez relato significante:
– A embarcação está entupida de carga. E, por cima, ainda levo muitos passageiros. Na primeira e na terceira classes, dezenas de retirantes. Vamos de rota batida para Iquitos, no Peru: mil novecentas e cinqüenta e cinco milhas a percorrer, se o rio estiver cheio, ou duas mil cento e cinqüenta e uma milhas, se as águas estiverem baixas. E isso tudo parando aqui para receber gado pro consumo de bordo, parando ali para embarcar lenha, puxando dia e noite, atravessa paraná, fura canal, penetra igarapé, numa lida sem descanso; o penacho da  chaminé desenrolando-se no céu que nem uma cobra de nuvens, os três apitos do aviso acordando os barracões, os faróis do mastro iluminando a noite sem estrelas.

Passeamos juntos pela pracinha e voltamos, enfim, ao Canavaru. Subi para um dedo de prosa a mais com o mestre Peregrino. A situação é talvez pior que na embarcação em que viajo. Ele repete uma vez mais o que já me havia dito quando nos conhecemos em Belém:

– Em cima, na primeira classe, come-se, bebe-se, namora-se. É uma festa na fresca do convés. Embaixo, na terceira, as redes entrançadas num emaranhado estranho, umas por cima das outras. Os retirantes  –  homens, mulheres e crianças  –  em promiscuidade imunda com os bichos que navegam a bordo, dormem o seu sono triste e talvez também sem esperanças ou sonhos. Haverá maior injustiça social? O drama dos seringais começa aqui. Gente doente e faminta. Homens maltrapilhos, chapéu de carnaúba, camisa por fora das calças, cara magra, olhar brilhante  –  que dolorosas interrogações no brilho desesperado desses olhos! As mulheres, saia e blusa, peitos moles de fora, dando de mamar aos filhos. Moças lindas vestidas de trapos ralos que mal lhes escondem a beleza de adolescentes de primeira idade. Crianças guenzas e famintas a choramingar sem forças. Quando uma doença braba entra naquele ambiente, mata logo dezenas de retirantes que a tripulação vai enterrando, sem pena, pelos barrancos desertos do rio. Quem escapa afinal, é pior. Vai pra servidão do seringal, o que é o mesmo que morrer também, sem lágrimas e sem cova.

Deitado numa boa rede cearense tecida de tapuarana, à tardinha, observo a beleza amazônica, mas vejo, bem próxima ao navio, uma canoa com três crianças caboclas pedindo alguma coisa para comer aos lá de cima, visto que sabedoras da pobreza dos lá de baixo. Imagino, então, cá co’s meus botões prateados:

– Como pode tanta beleza e tanta grandeza serem sublinhadas pela servidão desses homens e mulheres que, aos trapos, à beira do grande rio, fazem da pescaria de anzol a única fonte de subsistência.

As crianças se vão e o pensamento voa. Com os pés batendo na amurada do convés impulsiono a rede, embalo-me e começo a ler num folheto uma louvação do poeta Peregrino:

Rede da minha terra.

Velha rede ubíqua e boa
Tão útil na humildade calma do seu manso embalo.
Rede do alpendre da casa grande e do rancho de palha calado e pobre,
Rede da sombra da mangueira,
Rede da sala de visitas do agreste e do sertão,
Onde as moças se balançam cantando modinhas de Gotardo e Itajubá.
Rede da camarinha escura de todos os medos e assombrações da infância,
Dos lobisomens e das mulas de padre,
“Vasilha de dormir”, de um amigo de meu pai.
Aprendizado humilde do segredo voluptuoso da preguiça e também do amor, das molezas boas do corpo e da alma…
Rede da minha infância!
Infância livre e lírica, mas sem alegria.
Vozes maternas de ternura embalando o sono inocente dos filhos com versos dolentes e tristes.
E a rede rangindo nos armadores
Marca o compasso de uma doce melancolia, até que a gente pega no sono.
Sono bom aquele que recolhíamos do terno seio amigo.
Rede boa, rede pobre, rede querida!
Que tristeza penetrante e vaga, sem motivo!
Que doçura nas mornas tardes de sol claro!
Caminho da solidão noturna do sonho,
Caminho da morte e do batizado.
Voz extinta de minha mãe perdida na distância!
Mundo submerso da infância,
Mundo irrecuperável do passado
A que nos conduzias, no teu ritmo discreto e manso,
Pelos itinerários calmos de um sono sem sonhos,
Poço fundo da memória.
 Depois de pensar aquelas coisas líricas, durmo a sono solto e só acordo com o ronco dos motores que me levam já não sei para onde…

* Este capítulo é parte do romance O inverno dos anjos do sol poente.

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