Terra dos homens: florestania e educação ambiental

São oportunas, aqui, algumas ponderações acerca da admirável idéia da criação do Instituto de Florestania e Educação Ambiental.

É assim que pensam os melhores dentre todos. Se o grande objetivo do ser humano não for o bem dos demais, a decadência e a barbárie instalar-se-ão em menos de um século, talvez amanhã.

Como diziam os antigos lá de casa, é chegada a hora de separar os homens dos meninos. Uns fazem, agora, com certeza. Os outros, quem sabe, um dia farão e muito mais que o esperado, se a divina providência lhes aquinhoar de espírito aguerrido e fímbria sanguínea em doses suficientes para pensar o bem para si e para os demais homens e mulheres desta terra de caudilhos e sonhadores que jamais esquecem que a sua felicidade é a felicidade de todos.

E o que é ser feliz? Thomas Mann, ao elaborar “Goethe and Tolstoi”, talvez a sua grande obra, segundo penso, disse-me mais ou menos que aquilo a que chamamos felicidade consiste na harmonia e na serenidade, na cons-ciência de uma finalidade, numa orientação positiva, convencida e decidida do espírito, ou seja, na paz da alma.Decidi, então, viver em harmonia, a princípio e por princípio, comigo mesmo.

Resolvi, logo, tornar-me um homem sereno, posto que até a idade já o permite ou exige. (Também, pudera! Aquele que a partir da quinta década não se inicia nos ensaios da serenidade é doido varrido, feito Caim). Vi, em seguida, que deveria me orientar no rumo de uma finalidade que tenha a ver com o meu equilíbrio espiritual, com a minha preocupação para com o desenvolvimento do homem e a paz além, é claro, de uma consciência que reconhece na proteção ambiental a preservação do cidadão, inclusive, o da floresta. Eis o princípio que dá base à ecologia humana.

Isto houvera me ensinado, já, desde alguns anos, a Nancy Mangabeira Unger no seu livro “Ecologia e Espiritualidade”. Deliberei, enfim, por mim e pela minha salvaguarda, que seria de uma vez por todas um humano dotado de razão e emoção, como todos, em que pese o fato de as minhas emoções andarem já um tanto cansadas, uma vez que ingiro, hoje em dia, a cada hora, doses cada vez mais maciças e exageradas de raciocínio lógico analítico para o bem dos meus miúdos lá de casa.

E o que é a filosofia senão essa busca incessante e otimista pelos dias melhores, sempre olhando para o passado e tentando não repetir os erros que foram marcantes, negativamente, e com as vistas espichadas no rumo do futuro, vislumbrando, lá longe, os dias melhores que planejamos, cá no presente, e que hão de vir como resposta bem dada aos esforços dos justos. Bom é viver do amor ao próximo. Melhor é viver do amor à terra, à nação constituída por e para homens de bem.

É como viver na Colônia do Mundico. De manhãzinha, ele sai e dá uma volta. Fica feliz com a florada dos crisântemos, com o viço da plantação, com os frutos sazonados, com a saúde dos gansos, galinhas e bois.

Reflitamos, ao contrário. O dia se inicia e surpreende-nos um desastre. As formigas picotaram todo um canteiro de margaridas, a estiagem fez secarem os roçados, as pragas liquidaram com as frutas, as doenças mataram os animais. Como tranqüilizar-nos, se a miséria se avizinha?

Aí, então, em contínuo meditar, vamos ampliar o tamanho do meu sítio. Chamemo-lo agora de Terra. E eu e os meus miúdos lá de casa agora somos a humanidade que não pode morrer de inanição ou sem fôlego. 

E nós, às idas e vindas, fomos e vamos vivendo de amor, desse amor pegajoso à terra querida, ao Acre. Sempre assim o quisemos e, talvez por isto, hoje persistimos tão tenazmente. Aqui há paixão em demasia, mas a razão já consegue falar mais alto.
Eis então que a idéia de um cidadão de bem, o Jorge Viana, engenheiro florestal de profissão, de repente, surtiu em mim um efeito humanitário e quase patriótico, nos melhores sentidos dos termos.

O grande projeto do político e do realizador de utopias realizáveis, a quem aqui me refiro, é a criação de uma organização, em níveis nacionais ou até internacionais, quem sabe, mais tarde, no ano que vem, denominada, mais ou menos, Instituto de Florestania e Educação Ambiental, esta, sim, uma escola onde as crianças amanhecerão e verão o entardecer respirando em ambiente saudável os ares de uma natureza cada vez mais pura, conservada e preservada pelas mãos dessas gerações que hão de seguir-nos e guiar-nos através dos caminhos sombreados, inclusive e até pela Mata Atlântica.

E a boa conversa fluiu manhã afora. Eu fizera a visita ao engenheiro futurista com o intuito de dar alguns encaminhamentos aos meus projetos literários pessoais, especialmente, ao já composto (e ainda não publicado) livro de crônicas Tardiamente ou nunca mais e ao O inverno dos anjos do sol poente, um romance que já alcançou o vigésimo quarto capítulo. Algumas possibilidades foram colocadas à mesa e o rumo da prosa virou para os vales verdes da Amazônia internacional, das Guianas à Bolívia e, claro, ao Brasil.

Sonhamos acordados e vimos meninos e meninas, nas escolas ambientais, ou nas suas bibliotecas, ou nos seus quintais transformados em hortas orgânicas, no dia-a-dia, vivendo e pensando o presente e o futuro de um mundo levado a sério por todos quantos não gostam da idéia de engasgar-se com a fumaça que vem das chaminés da grande indústria de transformação que não pensa o homem, mas tão somente o acúmulo de dinheiro em suas contas bancárias das ilhas Virgens e Caimann. 

Mas é oportuno considerar que nós não acalentamos uma utopia distante e irrealizável. Ainda não somos os loucos do absurdo. Não somos meros sonhadores de um anteontem que não planejou o ontem e sequer pensa o hoje.

 A nossa alma utópica tem realizado os nossos sonhos mais reais porque, pela manhã, ao acordar, já começamos a pensar e a fazer com que o futuro não nos mate de inanição, sem fôlego e sem uma árvore debaixo da qual possamos buscar sombra, ou com muitas árvores, onde haveremos de nos encostar para admirar e sorver o ar da vida de um planeta respirável e saudável e feliz. (Ô Amiel, cabeça de papel, essa repetição do “e” é uma figura de estilo chamada polissíndeto).

Eis, então, os princípios de uma ecologia humana esboçados na revista Carta da Terra, uma publicação a respeito da qual devo escrever em uma ou duas semanas.

Em verdade, ao elegermos enquanto disseminadores de ideais planetários como este as crianças do Instituto de Florestania e Educação Ambiental e os adultos que cultivam e fazem germinar idéias como esta, devemos levá-los a acreditar que os elementos do meio ambiente original  aquele não tocado pelas artimanhas do humano a partir do tempo em que começaram a ser manipulados pelos desordeiros, pelos profetas e pregadores do caos, passaram então também a integrar o meio ambiente dos seres humanos e dos outros elementos sujeitos aos efeitos dessa manipulação.

Em outras palavras, nós não mais podemos por muito tempo alimentarmo-nos do veneno que produzimos e que mata as gentes e o planeta.

Em termos mais técnicos ou didáticos, em favor de uma análise mais aprofundada (diria!) é conveniente observar que o meio ambiente humano combina tanto os elementos naturais, orgânicos e inorgânicos, quanto os culturais que dão suporte à vida humana nos diversos ambientes em que ela se desenvolve e pode ser observado em diferentes escalas espaciais: do quintal de uma casa até a biosfera como um todo.

Fazendo não mais uma mera abstração, agora partindo para uma área mais prática e mais real, a lógica nos leva a entender que o meio ambiente humano pode ser mais ou menos favorável à manutenção da saúde dos homens e mulheres, ou seja, à normalidade das funções orgânicas, físicas ou mentais, necessárias à sobrevivência e reprodução dos indivíduos.

Há, contudo, um limite mínimo de salubridade que é aquele que possibilita a sobrevivência de uma quantidade mínima de indivíduos até a idade reprodutiva e a sua reprodução numa taxa suficiente para repôr os indivíduos mortos.

Abaixo desse limite mínimo de salubridade, a espécie está fadada à extinção. Esse limite mínimo é bastante inferior aos padrões de conforto entendido como bem-estar material atualmente considerados civilizados. Todavia, a questão inter-geracional impõe um limite máximo ao conforto usufruído por uma dada geração humana, pois este não pode ser obtido às custas dos meios necessários para a manutenção de um meio ambiente sadio para as gerações futuras.

Podemos assim definir o meio ambiente humano saudável como aquele que permite a sobrevivência por tempo indeterminado da espécie humana e, ao mesmo tempo, satisfaz, no maior grau possível, as necessidades de cada indivíduo humano, proporcionando-lhe a oportunidade de viver uma vida digna.

 Essa definição inclui tanto a dimensão física  –  o limite mínimo físico de salubridade e máximo de conforto  –  quanto a dimensão cultural, que é a necessidade de respeito a cada indivíduo humano enquanto parte de um meio ambiente saudável, sem esquecer de evitar os cinismos estatísticos e a concepção de bem de cada cultura.

Tudo isto é só para que observemos com mais acuidade o quão frágil é o ecossistema que nos abriga.

Nota-se que todo cuidado é pouco, principalmente, porque a sobrevida do ser humano depende de um ambiente com características muito especiais que vão da qualidade da terra em que se produzem os alimentos à temperatura que não pode elevar-se tanto nem cair em demasia. Cuidemo-nos!

Portanto, levando em consideração uma pesquisa oficial, chega-se a uma conclusão segundo a qual o brasileiro, ao pensar sobre meio ambiente, desenvolvimento e sustentabilidade, na sua superior maioria aponta que o Governo deveria tornar obrigatório nas escolas o ensino sobre como preservar o meio ambiente. Fica claro que a Educação Ambiental aparece como a grande chave da mudança.

 Daí, então, os motivos que me levam a crer que a proposta da escola ecológica é mais uma grande sacada do Partido dos Trabalhadores, do Acre, em relação ao desenvolvimento que distribui benefícios para todos e não apenas para uma parcela mínima de aquinhoados que ganham dinheiro aqui e gastam em outras zonas às vezes não tão pudicas.

* José Cláudio Mota Porfiro é escritor produtivo e não alinhado à ABL. 

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