“Apenas um jogo de futebol”

O baque sofrido pela seleção brasileira na atual Copa do Mundo, no jogo contra a Holanda, não se resume apenas em “um jogo de futebol” como disse o narrador Galvão Bueno, ao término da transmissão. Jogo de futebol em nível de Liga dos Campeões, Copa do Mundo, Libertadores das Américas e Olimpíadas, há muito deixou de ser “apenas um jogo de futebol”.

O “business” que envolve o futebol é imensurável (que não se pode medir), significa que por maior esforço que façamos, não há mortal na face da terra que possa presumir  o montante financeiro em que está submergido o futebol; pode-se dizer que a gigantesca negociata  sobrepuja “negócios” altamente rentáveis como: o tráfico de drogas;  prostituição infantil, e outros ilícitos. Nada abate em termos de cifras, esse fantástico negócio. Portanto, a desclassificação do time brasileiro, bem como a desclassificação de times de países europeus ricos, deixou no mínimo furiosos os que  amealham riquezas em cima desse sistema. Com certeza, interesses múltiplos foram contrariados, com perdas incalculáveis, pela não ida do time brasileiro à final da Copa.

Lamento pelos pequenos comerciantes, notadamente, do mercado informal que investiram em material pirateado “vuvuzelas” e “camisetas amarelas”, estas com o símbolo da CBF, que vão amargar, por alguns dias, prejuízos incalculáveis.

Por outro lado, a derrota do time brasileiro traz à tona alguns excessos, próprios dos dias atuais, por parte de quem lida diretamente com o futebol no Brasil e dele, futebol, se beneficia nababescamente. Trata-se da existência de lobbys para não dizer máfia, ou pior, do sistema poderoso que dá as fichas no futebol mundial; sistema composto: de dirigentes de clubes famosos, alguns destes levaram à falência clubes de grande tradição no cenário internacional; dirigentes de federações de futebol; políticos inescrupulosos; grandes empresas permeadas de falsos empresários (Kia & Cia) que com a conivência de “autoridades”, falsificam documentos de jovens jogadores, adulterando-lhes a idade, com o fim de negociá-los por muitos dólares lá fora.

A outra face da moeda, quando  o assunto é futebol, tem a ver com os meios de comunicação. A mídia em geral, com o desaparecimento, em meados dos anos 80, da última grande safra de bons jogadores de futebol, danou-se a endeusar pernas-de-pau, numa verdadeira afronta a quem realmente foi craque na acepção da palavra. Stoichkov, o melhor e mais completo jogador surgido na Bulgaria e um dos artilheiros da Copa do Mundo de 1994, não precisou nem comparar a atual seleção, do Dunga, com os grandes times brasileiros, o fez simplesmente em relação ao time burocrata campeão de 94 de Romário e Bebeto, dizendo que era “de outra galaxia”. Ainda, sobre este tópico, o treinador brasileiro e a imprensa, quase na sua totalidade, ironizou ou ironizaram as opiniões de Cruyff. Infelizmente para a tristeza geral o grande avante holandês dos meados anos 70 estava e está certo.  

Ademais, a toda poderosa Fifa tendo à frente o papa de todos os ditadores, com suas normas proi-bitivas, todo ano escolhe algum jogador mediano, patrocinado por grandes marcas internacionais, como o melhor do mundo. A nova geração de torcedores, meninos e meninas  de até 25 anos, que de futebol só entende o que aí está, compra a briga da Fifa e sai por aí endeusando “pernas-de-pau”. À título de exemplo, sem fazer comparações com Pelé ou Marodona, nos últimos quatro anos os escolhidos foram Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi. Os três juntos não jogaram ainda a metade do que jogou o Zico. Este, por outro lado, foi provavelmente, além de outras grandes qualidades que só os verdadeiros craques possuem, um dos atacantes mais lépidos (rápidos) que o mundo do futebol já viu em ação. Seu grande pecado foi não ter ganho uma Copa do Mundo.

Quero explicitar que não  sou daqueles que só vêem coisas boas no passado, em prejuízo das coisas boas do presente, mas tomo as experiências vividas no passado para compreender o presente; não há só mazelas no presente, mas em se tratando de futebol o que se nos apresenta no momento, nada mais é do que um comércio ufanista da pior espécie. Pouca coisa se aproveita das dezenas de jogos que são transmitidos semanalmente pelo mundo afora. Os jogos chegam às raias da mediocridade, onde pontificam as jogadas desleais, beirando a violência, como testemunhamos nesta Copa do Mundo. Nem mesmo a alta tecnologia, gramados bem tratados, chuteiras sofisticadas e bolas levíssimas, consegue melhorar a performance da maioria dos “jogadores” que praticam esse esporte tão querido de toda gente do Planeta Terra . 

Quando dedico tempo para assistir uma partida de futebol, seja nos estádios ou através da TV, não estou só pensando no resultado positivo do time por quem eu torço, mas, também na beleza do espetáculo que deve ser a tônica do futebol. Não olho pelo prisma de narradores e comentarista fanáticos que possuem uma visão quase unilateral, isto é, o adversário nunca tem valor, os nossos é que jogaram mal. Caso específico, do jogo Brasil X Holanda, em que a maioria, dos especialistas, terminou a transmissão dando pouca ênfase a competente seleção da Holanda, antes preferiu malhar os limitados, tecnicamente, jogadores brasileiros, esquecidos de que eles não se autoconvocaram, foram equivocadamentes convocados por um ditador.
O mais terrível de toda essa experiência negativa é que: Deposto um ditador, Dunga, pelo ditador mór, Ricardo Teixeira, o povo, quase que por unanimidade, clama por outro ditador, Felipão. Vá gostar de ditadura assim , lá na Guiné Equatorial.

* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião.E-mail: assis [email protected]

 

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