Até o Rio Purus

O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE     CAPÍTULO XXIV

Da terra encantada, agora muitas lembranças. Há notícias de guerra no ar, pelo rádio, ou lida em um jornal belenense do mês passado que comprei em Óbidos. Como na Guerra do Paraguai, um grande contingente de cearenses é convocado. Estes que cá estão a caminho ou viajando através do vale de lágrimas, tanto poderiam ir para a Itália servir de bucha de canhão, como poderiam está, como estão, aqui, nessa maldita caravana de maltrapilhos trapos humanos em vida cáustica. O destino é uma grande tragédia. Escapar dos campos de batalha ou de concentração da Europa é ter tanta sorte quanto escapar das unhas das onças e dos gaviões amazônicos aqui denominados seringalistas.

Alguém escreveu, e não lembro quem, um pedaço de pensamento segundo o qual as nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros. Ora, não é exatamente o que acontece comigo, certamente, por ser também oriundo do sertão. Apesar de não viver ou nunca ter vivido um infortúnio, a dor e a desilusão me desconsolam porque, de uma forma ou de outra, aqui ou em qualquer lugar, parece-me que as desgraças buscam o desgraçado mesmo que ele se esconda nos cantos mais remotos da Terra, inclusive, no meio desta mata amazônica sem dó nem piedade.

Mais uma vez vem ao convés superior o Trapizomba. Há dois dias não dava as caras, há dois anos não limpava as unhas. Estava novamente falante, um tanto empolgado, cheio de conversa mole e metido a esperto. Do banquinho junto à amurada vejo-o a apreciar o jornal que ainda há pouco eu estava a ler:
– Ô Severino, homem de Deus, você está lendo o jornal de cabeça pra baixo, cabra?

– Não! – Respondeu ele sem se bulir. – Já li ele todo; agora estava dislendo.

Ele, de posse de um porronca fumacento no canto dos beiços grossos, lembra agora a outrora bem amada e hoje odiada que lhe colocara uns pares de bidongos na cabeça. Fala dos dotes físicos da rapariga, teúda e manteúda, ancas largas, peitos fartos, cabelos meio alourados, mas crespos, pernas grossas, mãos de anjo, boca de diaba. Confessa o amor imenso que sentia não correspondido, fala da situação de pobreza em que vivia ela, da sua posição de sujeito bem arranjado na vida, da decepção que o fez largar bens no sertão e, enfim, do sujeito com o qual flagrara-a deitada, nua em pelo, ele por cima dela próximo a uma cacimba, em Riacho Grande:

– É isso mesmo, seu moço! É como se diz no sertão: água de ladeira abaixo, fogo de ladeira acima e mulher quando quer trair, não há jeito que dê jeito… Eu não tive coragem de usar o parabelo nem a lambedeira. Assumi o chifre, o safado a abandonou e eu tomei o rumo da venta e nunca mais a quero ver. Aquela vaca zarôia!
De posse da viola, agora com saudades da terra, ele dedilha uma trova por uns três minutos e depois, quase choroso, lamentoso, declama uma poesia sertaneja por demais:

“Sertão selvagem de Euclides
Prosaicamente progrides,
Mas nada te corrompeu.
Paraíso de minha infância
Ingênuo como uma estância
De Casemiro de Abreu!
Touceira de xiquexique
Cercadão de pau a pique
Dez léguas de tombador…
Mar de panasco dourado
Bogari cravo encarnado
Sertão de espinho e de flor!
(…)

Quando eu voltar para estancar as mágoas
Antes que cesse o peso das fadigas
Correi jangada que boiais nas águas
Cantai, marujos, quero ouvir cantigas”.

A pedidos, repetiu o lamento umas quatro vezes. Novamente, os de Portugal vão às lágrimas. Ele bota a viola às costas e, com o olhar triste e sem brilho e perdido no horizonte, ruma para a sua maldita terceira classe.

A cidade de Parintins. Só as luzes à distância. Urucará, de madrugada. Itacoatiara, apenas uns sinais no meio da chuva de uma manhã cinzenta…

É tardinha quase noite. Anunciam que em mais ou menos hora e meia, chegaremos a Manaus. Ancorados em um porto iluminado com luz elétrica, dormimos cedo, às nove. Pela manhã, saio sozinho, mas logo sou acompanhado pelo Trapizomba em passeio pela vila do Educandos.

Um caboclo atarracado de pouco mais de metro e meio passa uma graxa fosca nos meus sapatos. Pensava-o mudo. A comunicação inicial para a prestação do serviço não necessitou de palavras e, em seguida, passou a ser feita por meio das costumeiras pancadinhas com a escova na sua caixa de engraxate:
– Ô macho, como é o teu nome? Tu é mudo é?

– Meu nome é Zé.

– Zé do quê?

– Sei não. Só Zé mesmo.

– Arre égua! Arrelei com tanta ignorância! Arre porra! Como é que pode? Esse homem não foi sequer batizado! Oxente!
Ao que o Trapizomba interferiu:

– Pelos menos nós temos um nome e dois sobrenomes na certidão de nascimento… E esse aí? Nem um padre para lhe jogar água na cara, nem batismo! Dá dó, sim.
Lembrei o menino sanfoneiro paraibano de Alagoa Grande, de nome Zé Gomes, afamado em todo o Nordeste, apesar dos dezessete anos, gago ao falar e normal ao cantar, assobiando ou com um pandeiro na mão:

“Vige como tem Zé
Zé de baixo, Zé de Riba
T’esconjuro como tem Zé
Como tem Zé lá na Paraíba…”

 Aí o Zé deu uma gargalhada e, de repente, ficou falante. Contou-nos que a borracha já não tinha o valor de 1912, quando a capital do Amazonas regurgitava de forasteiros em busca de fortuna. A situação, segundo ele, agora sur-preendentemente analítico, não era ruim, mas alguma coisa poderia ser feita porque uns quatro comerciantes fortes, donos de casas aviadoras, já haviam fechado as portas, os hotéis já não conseguiam ocupar todos os quartos, como antes, a prostituição estava em declínio e a pobreza se abatera sobre algumas mulheres que não conseguiram aproveitar o tempo das vacas gordas.
Sapato agora lustroso, terno amassado, chapéu bonito, caminho agora por uma calçada de pedras decorativas rumo ao centro

da cidade. Não consigo observar desmotivação no comércio, ao contrário, há muito movimento nas casas comerciais e nos botequins, apesar das nove da manhã. Da esquina seguinte, ergue-se à nossa frente, o belíssimo Teatro Amazonas que até poderia ser mais bonito se o houvessem pintado de branco, e não naquela cor de rosa que lembra bastante os puteiros da beira do cais.

– Não dá pra trocar essa cor não, seu Trapizomba? – Foi o que consegui dizer, posto que atrás de nós seguiam uns colegiais bem alinhados e um tanto tagarelas.
De volta ao porto devido o calor sufocante das onze da manhã, observo umas embarcações imponentes. São navios de grande calado, como o Republicano, o Benjamin Constante, e o Sobral Santos. Um muito bonito, mas um tanto menor, o Domingos Assmar, está sendo carregado. Outro, o Rio Envira, também está de partida para o Acre. Um gaiola, ou chatinha de nome Nicteroy, está subindo no rumo de Belém. É gente de todo jeito. Uns vão, outros vêm. Há malas, maletas, malotas, baús, matulões e o raio que o parta. Isso aqui é um formigueiro humano… E pensar que já foi mais movimentado… Não entendo.

Apenas um homem embarca em Manaus para seguir viagem conosco rumo ao Acre. É alto, forte, espadaúdo, cabeça raspada estilo militar, botas de cano longo, camisa folgada, chapéu redondo, mas com jeito de moço educado. A língua dele é enrolada no rumo de dentro. De passagem, ainda com um saco na mão, dirige-me um cumprimento num português pra lá de ruim. Eu faço um meneio de cabeça apenas, pois tenho a mais absoluta certeza de que ele não está de má vontade com ninguém. O jeito meio perdido é talvez porque alguma miséria lhe tenha acontecido na vida, como a maioria dos que estão nesta nau dos flagelados. Ninguém adentra o inferno verde de graça, sem alguma culpa. Pago talvez a minha pena por conta de ter abandonado muito do que Deus me deu para vir para estes ermos martirizar-me junto aos demais irmãos de infortúnio.

É o Tomaz Fonseca quem me diz no seu sotaque lusitano:

– Este homem é um francês, ô gajo! Conheço pela fala.

O senhor Jacques Lettelier vem da França e, mais ou menos pelo que diz, concluo ter fugido de um exército parvo, formado às pressas na iminência de ter que, de uma forma ou de outra, vir a salvar o país dos alemães que por certo o invadirão. Depois, segundo ele, muitos foram os franceses que desertaram e uma boa parte deles veio para o Brasil.

O senhor Lettelier viaja em busca de um tal Rodrigo Otávio, dono do grande Seringal Antimari, cuja sede é já uma vila, na divisa do Acre com o Amazonas, onde fará as vezes de gerente dos muitos negócios do seringalista abonado e já velho para a lida com tanta gente e tantos números.

Passados cinco dias, estamos já em Manaus. Diz-nos o Comandante que, após duas curvas do grande rio, entraremos à esquerda num rio também caudaloso de nome Purus.

Antes, devido a largura do Rio Amazonas, os povoados mal eram vistos, a não ser pela necessidade de abastecermo-nos de víveres e lenha. O Purus é bem mais estreito. Passamos ou encostamos, brevemente, em cidadezinhas como Tapauá, Canutama, Lábrea, Pauinin…

É manhãzinha. Chegamos a uma pequena cidade de nome Boca do Acre. A embarcação se torna ainda maior porque a via por onde agora navegamos é bem menos larga. Percebo que o mundo amplo de quem viaja por mar foi-se afunilando e afunilando e agora parece estreito demais.

Ô mundo estreito. Este é o Rio Acre das bem aventuranças, segundo o moço de convés. Corre o mundo notícia segundo a qual por aqui habita a glória de um povo que se tornou brasileiro pela força das armas. Ô Ceará!

* Este é o vigésimo quarto capítulo do romance O inverno dos anjos do sol poente.

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