Assédio moral e preconceito racial

O negrinho do pastoreio é um símbolo da mitologia brasileira que, depois de morrer em cima de um formigueiro, onde fora colocado de castigo pelo patrão branco, voeja o pampa gaúcho e, maldosamente, vive espalhando o medo entre as pessoas montado em cavalo possante a trotear pelos pastos das extensas propriedades do Rio Grande do Sul e adjacências, posto que não conhece os exatos limites das províncias desde os tempos de Anita e Garibaldi.

Entre os habitantes modernos daquela terra benfazeja, então, não foi difícil surgir uma pergunta cheia de significados ocultos, a partir do grande Mário Quintana, poeta gaúcho de primeira grandeza, no dizer dos de lá. Por que a entidade mitológica é um negrinho e não um branquinho do pastoreio?

É justo porque um branco, segundo pensaram os primeiros, os que implantaram a lenda, jamais iria fazer tamanho estardalhaço entre as reses dos fazendeiros altos, louros e nada xexelentos. Ora, pois! Para esta maioria de pele alva, uma bagunça como tal só poderia vir de um negrinho retinto, sacana, indomável, meu primo, irmão do saci pererê, outro pretinho chato e enjoado que mete medo nas crianças de olhos azulados e tez claríssima dos ranchos do sudeste do Brasil.

E veja lá o que vem a ser preconceito, em breves palavras. Trata-se de uma forma arcaica de avaliar uma pessoa sem conhecer realmente as suas melhores ou piores qualidades.

É um conceito antecipado, ignorante, discriminador, grosseiro, rude, que se enraíza e dificilmente sai da cabeça do preconceituoso.

Torna-se complicado fazê-lo perceber que, se houver uma purificação com relação aos preconceitos e um desembaraço dessa mentalidade parva que só engana, muito provavelmente este doente social não apenas ficará curado, mas tornar-se-á um homem radicalmente novo.

Pois bem. Já no nosso novíssimo século vinte e um, eis que chega ao Acre, formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e aí especializado  –  lato sensu  –  em atletismo e em saúde e qualidade de vida, o nosso herói, o negrinho do pastoreio de quem aqui vos trato.

Já de chegada, em vista da incontestável competência profissional e amabilidade flagrante, contrariamente ao que faria o negrinho mitológico dos gaúchos louros e espadaúdos, para ele foi até bastante fácil arrebanhar uma grande quantidade de amigos pelo fato de os acreanos, em sua superior maioria, terem a cor da pele mais chegada para o jambo que para o marfim. Somos marronzinhos, sim senhor! E com tanto orgulho que nem cabe neste peito por onde corre sangue preto, cafuzo, caboclo, mulato, lindo como a pele macia de oxum, numa alusão ao grande Vinícius de Moraes. Saravá!

Vivia este poeta insano, eu, então, às voltas com uns tais açúcares que teimavam em me temperar ou adocicar o sangue. Estava cansado, capiongo, triste, moleira funda, olhos encovados, nariz melado, pele sem elasticidade, comendo pelas beiradas, mais olhando que fazendo.

Fui em consulta ao bom negrinho que, de bate pronto, disse a mim que o grande papel de uma academia de ginástica, para os que têm os índices glicêmicos alterados, é fazer executar exercícios que favoreçam a circulação sanguínea, posto que o sangue, ao contato com o açúcar, se torna mais denso, mais pesado.

E foi só isso. O que fiz mais foi seguir os conselhos de um velho pajé da Estação Experimental, amigo meu, o Zacarias, que me receitou um limão diário, em jejum, e uma xícara de chá de folha de gra-viola três vezes ao dia. Uma beleza e uma maravilha dos céus porque uma reza muito forte me ajudou a ficar bom.

Mais ou menos umas duas dezenas de pessoas passaram a seguir as dicas preciosas do bom negrinho  –  inclusive alguns amigos e amigas de quem prefiro não revelar os nomes  –  e foram tendo significativas melhoras dos achaques que a idade avançada se nos impõe. Uns tinham problemas de circulação.

Outros sofriam de artrose ou escoliose ou espinhela caída. Alguns, a se recuperarem de intervenções cirúrgicas. Uns mais, a necessitarem perder peso em vista de complicações cardíacas que se avizinhavam. E foi assim… A todos, uma palavra amiga e uns exercícios diferentes, novos, aprendidos nos congressos anuais de educação física realizados sempre em Poços de Caldas, Minas Gerais… É, realmente, um profissional como poucos, esse nosso negrinho do pastoreio em terras acrea-nas a quem muitos devem favores e obséquios. Graças a Deus!

Foram tempos muito bons que um dia chegaram ao fim por obra e graça de uns eslavos ou arianos ou anglos ou saxões de pele alva que viram no negrinho nada mais que um profissional de meia tigela que poderia ser atirado a um canto ou espatifado de encontro a uma parede, e nada aconteceria.

Como sofre essa gente pobre e preta!

O movimento racista começou aliado ao assédio moral quando as pessoas que chegavam para se matricular na academia já vinham recomendadas por outras que lhes falavam das qualidades profissionais do nosso bom negrinho do pastoreio.

Esses novos alunos, no mais das vezes buscando saúde e qualidade de vida  –  e não apenas a beleza meramente estética  –  seguiam o professor em grupos de três ou quatro pela academia afora e ele lhes dava detalhes sobre como praticar os exercícios da forma mais apropriada e que garantissem os resultados esperados, o que causava uma grande ciumeira na grande maioria dos instrutores que sequer buscavam observar a atividade do negrinho enquanto mais uma fase de ensinamentos das suas vidas cheias de sentido.

Incansavelmente, numa faina suarenta e numa correria estonteante, ele atendia a todos e, ao final, despedia-se com um sorriso e dizia:

– E aí professor! Não esqueça de vir amanhã! Amanhã tem mais!    
 
Façamos a ciência jurídica pronunciar-se e vejamos, então, algumas rápidas considerações sobre o assédio moral.

Dentre outros, há o assédio descendente que se dá de forma vertical, de cima  –  chefia  –  para baixo  –  subordinados.

Neste caso, busca-se, basicamente, desestabilizar o trabalhador de forma a que este produza mais por menos, sempre com a impressão de que não está atingindo os objetivos da empresa, o que, na maioria das vezes, já foi ultrapassado e a meta revista por seus superiores.

Numa análise resumida, foi o que ocorreu ao trabalhador em tela que se desdobrava e se esfalfava em atender a tantos e tantos que precisavam muito mais dos seus préstimos que dos seus serviços e, ainda assim, apesar de todo o esforço, foi sufocado pelas invectivas dos empregadores que tanto o assediaram que o levaram a pedir demissão, isto, como resultado de uma manobra orquestrada, inclusive, por membros do seu grupo de trabalho.

E há também o assédio paritário. Este ocorre de forma horizontal, quando um grupo de profissionais se isola e assedia um membro-parceiro. O principal método é eliminar o concorrente, principalmente, quando este indivíduo vem se destacando com freqüência perante os superiores.

O trabalho estafante não levou o instrutor a destacar-se perante os seus superiores, de forma alguma. O profissional passou a ser visto com bons olhos exatamente pelos que mantêm a academia em atividade, a clientela, o que, por incrível que pareça, não foi levado em consideração pelos que teriam o dever de querer ver a prosperidade do negócio, os donos.

Por outro lado, para acirrar ainda mais a relação, o citado profissional passou a ser isolado e assediado por um grupo de parceiros  –  não todos  –  que passou a vê-lo enquanto um estorvo para a convivência do grupo, principalmente, tendo em vista a sua notável competência.

E é preciso dar mais destaque a um fator. Apesar de se tratar de um profissional que agregava valor ou que dava qualidade ao produto vendido pela empresa, o bom homem foi forçado a demitir-se, como se todo e qualquer empreendimento não precise de mão-de-obra especializada.

Eu, de minha parte, não vejo como este tipo de atitude pode levar um empreendimento ao sucesso pleno. Nenhum dentre os melhores teóricos da administração de empresas conseguirá provar a mim que livrar-se de um bom empregado pode ser benéfico ao negócio. Nem o Max Gehringer haverá de me convencer de uma sandice dessas.

Não, senhores! O homem não morreu. O negrinho está vivo, muito vivo, não me pediu para estabelecer aqui a sua propaganda, mas é treinador pessoal de umas beldades e ganha medalhas de ouro em corridas de fundo. Procurem-no. É incrível. Ele consegue fazer com que muitos voltem a respirar e a se sentirem felizes. Seu nome é Paulo Santos e ainda pode ser encontrado, em horários esporádicos, numa academia da Rua Rio de Janeiro de cujo nome já nem consigo lembrar.

* José Cláudio Mota Porfiro é escritor. Doutor em Filosofia e História da Educação / Unicamp. Pesquisador dos quadros da Ufac.

 

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