A alma de um boteco

Minha_fotoUm balcão, alguns tamboretes, uma ou duas mesas e meia dúzia de cadeiras: assim podemos resumir toda a mobília do Bar do Gel. É nesse pequeno espaço físico que se juntam grandes almas, bons corações e amizades fraternas. Suas velhas paredes de madeira e sua varandinha de cara para a rua abrigam gente de todas as profissões e classes sociais. São advogados, professores, pedreiros, motoboys, lojistas, vendedores, contínuos, funcionários públicos… Todos unidos em torno de um ideal: brindar à vida, seja com copos de cerveja, seja com doses de jucá (cachaça curtida com a casca de uma árvore medicinal, justamente chamada de jucá).

E o jucá do Gelcimar, proprietário do bar, é famoso. Uma cultura herdada do pai, Francisco de Oliveira Lima, o Seu Chiquinho, falecido aos 84 anos de idade, em 2008. Foi Seu Chiquinho quem fundou o bar, há muitos anos, e criou o jucá com mel, que virou tradição na cidade. Aliás, no início, o ponto, localizado no bairro Cerâmica, Centro de Rio Branco, era uma mercearia, onde se vendiam açúcar, café, arroz, feijão… Com o tempo, passou a vender apenas bebidas: refrigerante, cerveja e cachaça. Porém, ainda hoje, vemos dentro do balcão do Gel alguns produtos empoeirados: linha para costura, grampos de cabelo, pentes, amônia, coador de café, erva-doce, pimenta-do-reino e até algumas antigas cartilhas do método ABC.

Se esses objetos falassem, certamente teriam muitas histórias para contar. Contudo, como não falam, limitam-se a ouvir, dentro do balcão, os gritos da porrinha, o jogo habitual do bar. Em volta do balcão, os “ata”, uma espécie de constituição não escrita da porrinha.

Na verdade, essa “ata” é mais uma das citações invisíveis do Gel, como a Rosinha, para quem ele pede ajuda quando se encontra em situação difícil no jogo. A Rosinha é uma foto de revista pregada na parede e, também, uma morena, de carne e osso, que aparece, vez por outra, para ser chamada pelo Gel de “musa do bar”. Uma vez invocada, é capaz de fazê-lo ganhar. Mas a Teresa nunca se viu. A Teresa é uma amiga imaginária. Uma interlocutora do impossível que vive nos fundos do bar. “Teresa, vem ver quem tá aqui?”; “Essa eu vou contar pra Teresa”; “Ô, Teresa, que barulho é esse?” – diz o Gel, olhando para trás, como se lá houvesse alguma Teresa.

Trata-se mesmo de um boteco para iniciados. Um calouro ficaria sem entender muitas coisas. Poderia até pedir um tira-gosto, ouvindo como resposta: “Vou pedir pra Teresa fazer”. E nada de tira-gosto. Não entenderia, na porrinha, palpites como “Borboleta”, “Seu Chiquinho” ou “Dr. Ari”, que correspondem, respectivamente, a quatro, cinco e sete. Por certo, é necessário que o novato passe algumas horinhas no bar para compreendê-lo melhor: seus códigos linguísticos e seus freqüentadores habituais.

Deve-se compreender que ali se reúnem, pacificamente, os opostos. Numa mesma rodada de cerveja, temos, por exemplo, o Padre e o Pajé, em perfeito sincretismo religioso, sem catequese ou imposição cultural. E, na porrinha, todos bebem juntos, ganhando ou perdendo a aposta, sejam baixos ou altos, brancos ou negros, pobres ou ricos (tem até o Zé Rico). Tem o Seu Mário (ou melhor, o Mário), bebendo sua cachaça com água tônica, ao lado do Hélio Boy, que, por sua vez, bate um papo com o Dr. Marcos, advogado aposentado. Tem a turma do Ivo, tem o Raimundo das Meninas, o coronel Dantas, o Martins, o PG, o Emerson, o Rommel, o Leno… Enfim, tem até o próprio Gel que, embora seja dono do bar, bebe junto com seus fregueses e é o agitador da porrinha.

De vez em quando, num dia de sábado, depois do almoço, é bom ir ao Gel. Como quebra-gelo, tomar uma dose de jucá com mel e partir para a cerveja. Aí ouvir histórias, jogar porrinha, captar a alma de um boteco. Até que, à tardezinha, quando os últimos raios do sol acariciam o balcão do bar e escorrem pelo chão da calçada, ir para casa, de espírito leve, esquecido das dores do mundo, para descansar. Depois, noutros dias, encontrar novamente os amigos e recomeçar, sempre, com fé e esperança em melhores dias que virão.

* Márcio Chocorosqui é jornalista e boêmio nas horas vagas.

 

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