A vila

escuridao-luz-mulherAli amanheciam sempre dias cinzentos, sombrios, tristes de fato. Ao sol não era permitida a entrada. Vida miserável que se iluminava por lamparinas à querosene, fumegantes, doentias. Homens e mulheres trajavam roupas rotas, quase andrajosas. Os aposentos eram abafados, fétidos, sem janelas. As esperanças de todos se limitavam à possibilidade ou à impossibilidade de, mais tarde, ou no outro dia, quem sabe, terem algum alimento para saciar-lhes a fome implacável. Os mais velhos, aqui e acolá, morriam de inanição, de fraqueza, sim. As crianças não iam às escolas, embora elas existissem quase na biqueira da vivenda prestes a cair. As mulheres traziam olhares sem brilho, perdidos num ontem que também não fora tão farto, ou num amanhã que, certamente, não seria dos mais ditosos. Os homens iam e vinham. Do mercado ou da rua do comércio, quase nunca traziam um quilo de feijão sequer. Todos haviam saído da pobreza dos velhos seringais que, por aqueles dias, já começavam a ser transformados em pastagens. A insanidade dos endinheirados via que a pata do boi marcava, a ferro quente, o coração e a alma de pessoas sem passado e sem futuro.

Então, do lado da minha casa ficava a Vila Natal. Nós éramos pobres; eles, miseráveis. Comíamos carne de boi ou de caça, e feijão e arroz e verduras retiradas da nossa horta do fundo do quintal. Eles praticamente não comiam, mas vegetavam e procriavam como as centenas de ratos e urubus alimentados pelos excrementos da Vila.

Chegaram a sobreviver, ali, às vezes, mais ou menos cinqüenta pessoas, incluindo as crianças. Na realidade, tratava-se de um imenso casarão de zinco e madeira, dividido ao meio por um corredor cujos dois lados repartiam-se em quinze aposentos, a maioria de uma porta apenas. No pequeno quintal, havia dois sanitários sem porta e sem descarga ou fossa, um para os homens, outro para as mulheres. As necessidades fisiológicas eram ali supridas, mas o banho parco era tomado nos próprios aposentos de assoalho de madeira por debaixo dos quais passava um esgoto infestado de ratazanas e baratas. Nas paredes internas, havia brechas entupidas de papel para que uma família não visse a miséria ou a promiscuidade da outra. O telhado era cheio de buracos e, um dia, aí pelos treze anos, fui chamado por uma moça da vida para tapar uma goteira que quase chovia sobre os lençóis úmidos da sua cama às vezes até bem freqüentada. Era uma da tarde e grande parte dos sobreviventes pegava a sesta. Lá de cima, então, por intermédio de um dos orifícios do zinco, eu a vi despida, sobre a cama…

Com raríssimas exceções, aquele era o último refúgio depois do inferno dos seringais. Eles não tinham mais forças para o trabalho na seringa. Também não tinham qualquer aptidão para os afazeres da cidade. Uma parte fazia pequenos mandados para os bacanas de então. Outra, limpava os quintais ou carregava água para os banheiros e cozinhas dos mais abastados. Alguns pagavam um mísero aluguel. Outros, viviam de favor a sua desventura.

Uma alma compadecida, de vez em quando, doava miúdos de boi e alguma carne. Uma ou outra vez, eu o vi distribuir entre os miseráveis um garrote inteiro. Era Elias Fadul, um misto de pequeno fazendeiro e magarefe, carrancudo e mal humorado como a maioria da gente síria.

Papai e mamãe logo se fizeram padrinhos de alguns meninos. Lembro de quando um senhor de meia idade, recentemente tornado compadre dos meus pais, foi acometido de hidropisia, ou barriga d’água. O homem passou noites e noites gemendo de dor. Quando numa manhã levaram-no ao médico, já era tarde. À noitinha, apareceu o padre italiano e lhe fez a extrema-unção. “O homem tava só esperando”, disseram alguns. É que, em dois minutos, e não mais que isso, o cumpadi Chico já tinha atravessado pro lado de lá. Palmieri, o religioso d’Itália, fez uma careta de asco e se foi pensando ter cumprido o dever. Neste tipo de reunião de pobres, onde não havia bastante comida para encher a imensa barriga do glutão, ele não permanecia, como lá em casa, de onde, nos aniversários, saía com os bolsos da batina cheinhos de quitutes.

Aí, todos se reuniram ao redor do corpo agora prostrado sobre uma velha mesa. Mamãe cedeu um lençol branco, já usado, para cobrir o cadáver. Mais tarde, um besouro mangangá dos grandões, sem que ninguém o percebesse, entrou por debaixo do lençol e foi alojar-se nos dedos dos pés do defunto. Daí começou a se mexer e a debandada dos vivos foi geral. Todos pensaram que o homem queria voltar de onde não queria ter ido. Manhãzinha, papai e mais três estivadores enrolaram o homem no lençol, colocaram-no em uma velha rede cearense e rumaram para o campo santo localizado a uns dois quilômetros da Vila, acompanhados da esposa chorosa e dos filhos menores. Lá, jogaram o fardo num buraco, cobriram com muito barro e nenhuma cruz. Só dias depois é que o arranjo cristão foi colocado sobre a sepultura, sem nenhuma inscrição.

Um dia, já à tardinha, no meio da poeira de agosto, chegaram uns quatro ou cinco burros vindos lá das bandas do Riacho de Areia, Rio Caramano. Traziam um senhor de uns oitenta ou mais anos, um rapaz mais velho e um outro que não sabia se tinha dezessete anos. Alojaram-se num dos cubículos sem janelas. O velhinho tinha barba comprida, branca, não enxergava e portava um cajado comprido à moda mais antiga. As roupas dos três, pouquíssimas, sempre da cor cáqui. A comida rala era feita pelo cego (!) em um fogareiro que enchia todo o quarto de fumaça. As panelas eram antigas latas de banha ou de goiabada. Não havia pratos ou colheres. (Até há pouco tempo, no seringal, as pessoas comiam com as mãos.) O seu Duca, sergipano, ia cedinho pedir esmolas no mercado. O menino mais velho trabalhava nas colônias dos arredores de Xapuri e só aparecia aos sábados. O mais novo, Sebastião, era doido, mas vivia capinando as ruas da cidade em troca de uns dinheiros quaisquer com os quais comprava alguma comida, perfume Desejo e botas sete léguas. Deste, lembro-me que levou uma furada de prego em cima do pé. Ele, então, com um canivete afiado, furou um buraco na parte superior da botina, de forma a deixar livre o ferimento. Uns vinte dias depois, já com a ferida sarada, foi que o Bastião descalçou a bota já muito fedida.

Num domingo depois da missa das nove, espalhou-se uma notícia triste. O mais velho havia amanhecido morto. Papai depois me disse que ele morrera de tiriça preta, hoje conhecida como hepatite do tipo C.
Certa vez, o velhinho se acercou da nossa calçada, onde conversávamos à noitinha. Ele me disse:

– Menino Gibiri? É o Zé Claudi, né?

– Sou, sim senhor.

– Você vai ser muito feliz. Tudo o que você quiser Deus vai lhe dar.

Depois, recitou, de cor, o longo Romance da Princesa da Pedra Fina, de cordel… Esta é a minha última lembrança dele.

Sebastião, hoje, apesar da saúde mental fragilizada, é vigia de uma escola e encarregado de tocar os sinos da matriz de São Sebastião nos horários de praxe, sempre sem nenhum atraso.

Morava por lá um moço, muito tranqüilo e caladão. Um dia, depois de muito esforço, conseguiu comprar uma canoa pequena e passou a sobreviver da pescaria de espinhel. Numa noite, ele foi para o rio Acre corrigir os anzóis, mas teve um desfalecimento e tombou para fora do barco. Sofria de uma doença chamada epilepsia. Só dois dias depois é que o meu tio José Maciel achou o corpo, já completamente putrefeito, enganchado em alguns balseiros. Saíram-lhe peixinhos das entranhas através da boca do defunto. E fomos então enterrá-lo. A barriga estava inchada de tanta água. Aí, um torrão maior de barro foi jogado por alguém e o ventre do cadáver estourou e aspergiu uma água fétida distribuída entre todos que estavam à beira da cova, inclusive eu.

No passado dama da noite, Donana, de uns setenta anos, morava na Vila, de graça, acometida de Alzheimer, à época popularmente chamada caduquice. Como na poesia, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Por isto, estava morrendo à míngua num quarto que só tinha um velho catre, umas latas de flandres onde fazia alguma comida num fogareiro, e um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um dia, ela amanheceu morta em meio a um monte de fezes.

Um outro personagem desta minha história real e macabra é Maruíla, cuja esposa o abandonou assim que soube que ele tinha um câncer no estômago, fruto de uma alimentação de péssima qualidade e do uso freqüente do álcool e cigarros tipo porronca. Numa rede, em um dos pouquíssimos aposentos que tinham janela, permaneceu o indigente com a barriga muito inchada por meses a fio, gemendo de tanta dor. Mamãe ou vovó lhe traziam uma sopa ingerida com muita dificuldade. Ao final, estava pesando apenas uns vinte quilos. Morreu abandonado no fundo de uma rede e teve enterro idêntico aos demais miseráveis da Vila.

Maria Galvão era mãe de uma garota de oito e de um garoto de uns seis anos e tinha um amante que era gerente de seringal e a visitava talvez mensalmente. Um certo dia, eu a vi ser agarrada, aos gritos e palavrões sem tamanho, sob os olhares dos vizinhos, por três homens grandões, e ela se soltava sem maiores esforços… A moça tinha um encosto. Um espírito mal houvera se apoderado do corpo dela.
Os velhos cearenses lá de Xapuri diziam que atrás dos mais pobres anda um bicho da boca grande e dentes podres, a fome… As histórias desses infelizes ainda hoje fazem parte dos meus sonhos mais tristes.

Assuntos desta notícia


Join the Conversation