Democracia em podres pedaços

democracia1De manhã, ao primeiro sol, vislumbro possibilidades de um dia de graças, a partir de um alvorecer fantástico. Frio. Bastante frio. Pássaros e luz. Muita luz. O bem-te-vi da realidade pulsante canta o meu tempo claro e ainda juvenil, àquelas horas, já na quinta década. Esperar sempre, de tudo e de todos, de mim e do outro. Eis uma das grandes dádivas que me cabem. Colaborar e ajudar e apoiar e estender a mão e abraçar, todas as vezes. Eis a melhor das estratégias dos que foram feitos à imagem e semelhança do espírito absoluto.

Anos que deslizam na carreira e, paulatinamente, vou sendo obrigado a observar certas doutrinas, na prática, no concreto real da história dos menores, apenas enquanto meras figuras de retórica, ocas de sentido, vazias de fidelidade em seus dogmas tão sisudos. Instrumentos de manuseio rápido, nunca em benefício da maioria, mas em proveito de interesses particulares que, obrigatoriamente, passam ao largo dos preceitos básicos da democracia real.

Cá de baixo, do chão desta minha história tenra, vejo que o exercício democrático é sempre benéfico a quem tem mais bala na agulha. O conhecimento é, sim, uma espécie de senha cujo porte permite infiltrar-se em meio às mais abomináveis defesas  –  em patranhas e arranjos cartoriais  –  que jogam por terra a dignidade e melam a igualdade de uns para com os outros. Eu não posso dizer que sou melhor que este irmão último que pranteia a hora derramada, simplesmente, pelo fato de alguns me terem tornado, talvez, um dito sábio. Não eu não sou muita coisa.

E todos correm estabanadamente para ver a democracia que passa ao largo, toda brejeira, faceira, feito messalina desgarrada bem sucedida. Ficamos, então, rejubilados, enfeitiçados. Enfeitamo-nos.

 Perfumamo-nos. Nós e a prostituta. Mas bastou-nos o contato visual e já nos sentimos traídos, impiedosamente. Lá dentro, nos porões da liberdade invertebrada, algozes e vítimas dão gritos horrendos de espasmos e de dor, de sede de sangue. Alguns batem até demais. Muitos apanham que nem gente grande. É de dar dó. O nosso AI5 caboclo, há tempos, já havia sido esculpido e assistido pelos mesmos barões assinalados do Conselho Magno desta casa de excelência que nós, de próprio punho, ajudamos a erguer, deste há trinta anos… E este cronista, em ascese, viu tudo a partir de um ponto de observação imaginado tão somente pelos deuses mais velhacos que a minha mentalidade já engendrou.

Na Universidade Federal do Acre, há programas voltados para a formação de professores das zonas rurais e urbanas, segundo convênio bastante salutar celebrado e sob os auspí-cios do Governo do Estado. Centenas deles já têm seus diplomas de nível superior e tiveram os salários aumentados em até quatrocentos por cento. Há professores, na Ufac, que trabalham com afinco, sim! E merecem os parabéns! Eles buscam tenazmente e alcançam objetivos que vêm para o benefício das comunidades. Mas há uma grande maioria que não sabe o que vem a ser qualidade das ações acadêmicas e pensa tão somente nos altos dividendos financeiros a serem auferidos.

Enquanto isso, nos escaninhos da burocracia, moureja um pretenso projeto  –  que agora por último mal saiu do papel e consegue dar passos trôpegos  –  cuja finalidade é a melhoria da formação dos nossos técnicos administrativos, estes, sempre taxados de pouco afeitos ao esforço, ou até mesmo de preguiçosos. O autor destes escritos, inclusive, foi sondado por dinâmica autoridade (que já não é mais) para fazer parte de uma comissão que se encarregaria de via-bilizar um programa cuja finalidade seria elevar o nível intelectual dos esquecidos. Alguns anos se passaram, nenhuma palavra mais foi dita e tudo continua na estaca zero vírgula cinco.

Vida privada à parte, sem fazer de nenhum ego a sua própria vítima, há fatos a ponderar, como é o caso do cronista de Xapuri, que fez Mestrado e Doutorado, na Unicamp, percorrendo os mesmos caminhos e sendas epistemológicas que os nossos caríssimos professores. Concluiu tudo com honrarias e em tempo hábil. Elogiaram-no lá e cá… Hoje, doze anos passados, os mandatários não o chamam para fazer nada e ele não ousa se oferecer ou pedir um naco de carne podre sequer. Reservaram-lhe, sim, o ostracismo como castigo por conservar um vínculo muito forte com a imprensa e por ter sido ousado demais. Mas o trabalho científico dele não foi abortado. Ganhou o Prêmio Garibaldi Brasil. Publicou um livro de crônicas à custa de amizades e tem outro prontíssimo para a edição, fora uns tantos projetos a executar. Dispõe de, no mínimo, quatro trabalhos à espera de instituições que os queiram levar a público, posto que escrever livros por diletantismo não deveria ser parte do desiderato de nenhum ser que consiga fazer arte autêntica por intermédio de jogos de palavras. Através da editora da Ufac, publicaram teses e dissertações cinco ou seis anos mais novas que as suas. Atestaram-lhe não ter preparo suficiente para assumir cargos comissionados, mesmo sabendo que, em março de 2008, o Doutor aclamado pela Unicamp amargou um salário de R$ 1.931,00, o que é do conhecimento de alguns próceres da Academia que até reconhecem o descalabro.

Era agosto de 2008. O Governo Federal fez pingar nas contas dos técnicos das universidades federais, depois de catorze anos de espera, um aumento de vinte por cento que, na maioria dos casos, significou cem ou duzentos reais. A este livre pensador linguarudo coube mais setenta e cinco por cento, uma vez que, segundo dispositivo legal recente, o administrativo que portar diploma de pós-graduação em nível de especialização terá vinte e sete por cento de aumento; terá cinqüenta por cento, quem tiver mestrado; e setenta e cinco por cento, os doutores, como eu… Ufa! Finalmente…

Muitos correrão atrás dos títulos acima descritos, é claro. Resta saber até que ponto os professores estarão dispostos a tomar providências que resultem em cursos de pós-graduação para os técnicos administrativos. Uns poucos dirão tratar-se de proposta justa. Mas a maioria fará corpo mole por detestarem o fato de a reles ignorância um dia poder chegar a patamares de tanto destaque… Então, como poderemos melhorar o nível de formação dos nossos técnicos, se a maxima sapientia assim não o deseja? Já pensou, se os esquecidos se unirem… Se um bom número deles buscar conhecimentos e diplomas? Será o fim da glória de uns tantos… Eles se descobrirão um tanto incompletos na sua magnífica completude…

Uma magnólia vencida, então, fez críticas aos nossos rapazes do sindicato por fazerem uso de termos que fogem aos padrões da língua portuguesa culta. Ora, pelo que observo, a própria Ufac os quer assim. E os professores que glosam o discurso pobre dos técnicos são os mesmos que deixaram seus cursos de graduação caírem nos desvãos da baixa qualidade, segundo os parâmetros do Ministério da Educação… Se eles são tão bons, porque seus cursos são tão ruins? Sabem eles, certamente, onde não está a qualidade, porque a falta de qualidade dorme zonza sob os seus jalecos sujos de tanta discriminação e mediocridade.

E tinha razão o Zé Alberto Lote! Na reunião do conselho, onde discutiam acaloradamente a paridade dos votos para reitor, no seu estilo pescoço-e-canela, o moço fez calar aos sicários ao dizer que “aluno é pra estudar; professor é pra dar aulas; e administrativo é pra administrar!”

Os pseudo democratas se coçaram e ficaram muito a contra gosto. Seus tímpanos de veludo não acreditavam no que ouviam. Logo aquele rapaz  –  segundo eles, sem formação alguma  –  fazer-lhes engolir em seco palavras tão ásperas quanto verdadeiras!

Corifeus do atraso. Ladinos da picardia e do escárnio. Tungadores ludibriantes.  Proxenetas e caraxués… Dizeis deles tanta coisa boa ou má que até eles mesmos já acreditam que são.

*Escritor produtivo: http://www.claudioxapuri.blog.uol.com.br

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