Quando se corta uma árvore corta-se a árvore do rio

“Os indicadores sinalizam para a sociedade acreana que o Rio Acre está pelo fio e que nossa existência vai depender muito da disponibilidade de novas fontes de energia e pesquisa científica para enfrentar epidemias, apoplexia e garantir a integridade da população.” Claudemir Mesquita

Garantir o Gerenciamento dos recursos hídricos de forma satisfatória no Vale do Acre para os próximos 15 anos é sem dúvida o desafio dos governos, considerando que o índice de assoreamento (arraste de terra, a fuligem das queimadas associados aos resíduos da indústria madeireira), para o rio é muito altivo e altera substancialmente a qualidade da água. Com isto o custo financeiro do tratamento e a manutenção do sistema se elevam em pelo menos 60% durante o período chuvoso na região.

Na estiagem o problema é armazenar água em quantidade em reservatórios de fundo lêntico ou lótico, uma vez que o Rio Acre e seus afluentes já sinalizam claramente com a possibilidade de interromper seu ciclo de perenidade.

Se em condições normais o abastecimento não é satisfatório em função de outros problemas (vazamento na rede, interrupção de energia e a pane de equipamento, somando aos problemas hidrológicos, meteorológicos e  antrópicos, torna-se constante o consumo de água muitas vezes fora do padrão estimado pela OMS e longos intervalos, em alguns municípios até dias a espera do líquido precioso.

Recentemente foi promulgada a Lei 2.442 de 04 de agosto de 2011 como o “Dia do Rio Acre”, data sugerida pela Associação Amigos do Rio Acre e instituída pela Assembleia Legislativa para alertar a população da necessidade de proteger e preservar o Rio Acre e seus afluentes.

Como se sabe, no mundo 3 bilhões de pessoas não tem acesso a água potável e a tendência é aumentar esse contingente, na medida em que as cidades crescem se urbanizando às margens dos rios e mais Igarapés são contaminados por lixo e esgoto domiciliar e industrial.

A água, insumo fundamental para manter a vida do ser humano e dos mais variados ecossistemas, depende essencialmente da floresta para proteger os rios. A Mata Ciliar que se estabeleceu às margens dos rios, essa propicia a filtragem da impureza das águas das chuvas para os rios e o sistema radicular das garante a coesão da terra e evita o desbarrancamento nas margens ou encostas dos rios.

 A floresta viva, além de preservar a flora regional, contribui para evitar o desaparecimento de espécie florestal ameaçada de extinção. É importante utilizar este recurso ambiental, com inteligência, evitando assim, o desaparecimento de algumas espécies nativas da floresta Amazônica.

Contudo, as mudanças climáticas que transformam ambientes sensíveis em cenários de alta vulnerabilidade, aportaram na região e trouxeram doses muito altas de preocupação. Pouco sabemos sobre mudanças climáticas. O que sabemos, talvez não seja maior que uma gota, mas o que ignoramos é maior do que um oceano.

Ouso descrever apenas as manifestações, não somente pela ação das queimadas que assola a região, a emissão de gás carbônico; ou pela fumaça, mas essencialmente, o corte das florestas, para acender o estopim da vulnerabilidade climática.   Toda via, quando se corta uma árvore na bacia do Rio Acre, o dano para a água é incomensurável.

Imaginem o corte em centenas de hectares de floresta!  Essa ação tem efeito imediatamente nos baixos níveis do rio, ao tempo, a sensação de insolvência do nosso patrimônio. O desmatamento desencadeia no meio ambiente uma seqüência de processos danosos que vão atingir não somente a mãe terra, mas todos que nela vivem e tira seu sustento.

Vou buscar na economia, talvez, a melhor explicação para conceituar mudanças climáticas  “na década de 90 a agricultura Brasileira vinha perdendo produtividade e mercado, 15% dos produtos agrícolas apresentavam inanição ou doenças. Entre outros, os produtos mais afetados foram: o cacau e a laranja. Esses sintomas já se configuravam no cenário produtivo como efeito das mudanças climáticas e as soluções vieram com a produção de alimentos modificados ou resistentes ao clima.

Na região Amazônica os sintomas das mudanças climáticas se manifestaram em primeiro lugar, afetando os ecossistemas mais frágeis: rios, lagos e Igarapés. Quando eles sinalizaram para a escassez, é que fomos  despertar para o tamanho da nossa imprudência.  

Por serem os rios veios abertos criados por Deus para semear e ensinar os homens o verdadeiro caminho da sustentabilidade, não deveriam  padecer no abandono da história. Reporto-me também as referencias naturais para não esquecer que os fenômenos geológicos e geomorfológicos sempre estiveram presentes em registro, desde os primórdios da humanidade tecendo o tempo dos homens á sua época e atitudes.

O Rio Acre, por ser o mais belo de todos os rios, não é apenas a soma das partes de um ecossistema atingido pelas mudanças ambientais e antrópicas, ele é um todo integrado. A mesa da solidariedade, da fraternidade e do amor. 

Oferece-nos o alimento e a riqueza, sem perspectiva de recompensa, sem exigência, sem mostrar-se, sem exibir superioridade e sem atributos de reconhecimento. Diz-nos o Mestre com clareza, como podemos descobrir a beleza das flores e o caminho do futuro sem a seiva dos rios?

Entendo que existe diversidade de dons de vaidades e ganâncias na terra, que chega distorcer o caminho da racionalidade, mas o rio, não deveria sofrer influência da ganância humana. Deveria ser o mesmo para todas as gerações. Infelizmente não é esta a realidade. Assim mesmo, ele não se dá por vencido, acolhe os detritos no próprio seio e continua fluir, transformando em benção, o curso de suas águas com brandura e humildade, em benefício de todos.

FOTO-PRO-ARTIGO-3Portanto, se o contaminamos, estamos contaminando nós mesmos, e se não cuidarmos em quanto há tempo, amanhã seremos responsabilizados e depois! Depois, vêm à escassez, o sofrimento, a dor e a solidão. Ainda assim, se ninguém se manifestar em seu favor, suas águas convergirão para a obra do refazimento. Do seu perene leito erguer-se-á a chama da bravura sem manifestar sinais de desânimo ou cansaços.

Será eternamente à plataforma viva da divina lavoura e da caridade a serviço dos homens. Por tudo isso, o rio deveria ser cuidado como um fino cristal e nunca escondido atrás das lentes escuras do olhar da sociedade e do poder público.

Os indicadores sinalizam para a sociedade acreana que o rio Acre está pelo fio e que nossa existência vai depender muito da disponibilidade de novas fontes de energia e pesquisa científica para enfrentar epidemias, apoplexia e garantir a integridade da população.  Precisamos entender que a riqueza momentânea de poucos, compromete a vida de todos.

*Claudemir Mesquita é geógrafo e especialista em planejamento e uso de bacias hidrográficas.

 

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