Artesanato e a exploração de sementes florestais: é preciso ter cautela

O uso de sementes florestais nativas para a elaboração de artesanatos é uma atividade típica das populações tradicionais da Amazônia. No Acre, que possui cerca de 85% de suas florestas preservadas e uma economia fortemente ligada ao extrativismo vegetal, tem-se observado nestes últimos anos um processo gradual de ‘urbanização’ da elaboração desses artesanatos. Esta mudança do meio rural para o meio urbano reflete o processo de profissionalização da atividade, que gradualmente tem adotado técnicas modernas de design e marketing que resultam em produtos de maior qualidade, melhores preços e, principalmente, a abertura de novos mercados. O Sebrae tem desempenhado um papel fundamental nesta profissionali-zação e amadurecimento comercial dos nossos artesãos.

Apesar da dinâmica e do franco crescimento da atividade, alguns aspectos de sua cadeia produtiva continuam pouco conhecidos e podem impactar negativamente a sustenta-bilidade da mesma no longo prazo. Estes são os casos da diversidade das espécies exploradas, a intensidade da extração e coleta, bem como as práticas de armazenamento e benefi-ciamento preliminar das sementes atualmente utilizadas por extrativistas e artesãos envolvidos na atividade. Por isso, um breve levantamento sobre a cadeia produtiva de artesanatos elaborados com sementes de plantas nativas no mercado da cidade de Rio Branco, o maior e mais dinâmico do Acre, foi realizado para verificar a situação da mesma.

Para determinar a diversidade de espécies utilizadas pelos artesãos foram realizadas visitas a 5 lojas e 3 oficinas de produção de artesanatos no perímetro urbano de Rio Branco. As sementes utilizadas nas peças artesanais – especialmente as biojóias – à venda nas lojas ou em processo de beneficiamento nas oficinas foram identificadas pelos lojistas e/ou artesãos e pela equipe de pesquisa. As informações relativas ao sistema de extração das sementes, sua intensidade de extração, forma de coleta, armazenamento preliminar e transporte da floresta até as oficinas de artesanatos na zona urbana foram obtidas mediante entrevistas e monito-ramento in loco de todo o processo junto a 4 extratores residentes às margens do Rio Acre, no município de Porto Acre. As informações sobre o sistema de armazenamento e as técnicas de beneficiamento preliminar das sementes utilizadas pelos artesãos foram obtidas via acompanhamento in loco do trabalho em 3 oficinas de artesanato.

Os resultados obtidos indicaram que sementes de 24 espécies de plantas nativas são usadas na confecção de artesanatos em Rio Branco. A maioria (58,3%) é oriunda de palmeiras nativas encontradas em áreas de florestas e capoeiras ou em pastagens existentes nas cercanias da cidade. Sementes de açaí (Euterpe precatoria) são obtidas livremente na cidade em pontos comerciais que preparam o ‘vinho de açaí’. Sementes de sibipiruna (Caesalpinia pluviosa), cultivada como ornamental por toda a cidade, são colhidas livremente em praças e jardins.

Um aspecto preocupante do estudo foi constatar que a extração e a coleta de sementes das espécies que crescem na floresta, capoeira ou pastagem são realizadas sem a observação de regras mínimas de manejo sustentado. Geralmente todas as sementes com potencial comercial, que varia entre 70 e 90% dos frutos de um cacho, ramo ou das sementes encontradas sobre o solo ao pé das árvores, são colhidas, deixando-se no local um excedente de sementes insuficiente para garantir a regeneração das plantas e a alimentação da fauna nativa.

Foi observado que o beneficia-mento no campo consiste em uma limpeza superficial e a eliminação do excesso de umidade das sementes. O armazenamento das mesmas é evitado porque sua venda é feita por peso. E quanto mais tempo armazenada as sementes são armazenadas, mais leve elas ficam. Além disso, a venda das sementes geralmente é feita por encomenda de quantia certa para entrega em data pré-determinada. Ao chegar às oficinas as sementes são novamente secas, seleciona-das, lixadas, furadas e, se for o caso, tingidas. Sementes com excesso de umidade geralmente são descartadas.

Uma das conclusões da pesquisa é de que a manutenção ou mesmo eventual intensificação da prática do extrativismo de sementes nativas para a confecção de artesanatos em Rio Branco poderá causar o desaparecimento da maioria das populações das espécies florestais atualmente exploradas em zonas rurais adjacentes à cidade. Esta possibilidade pode ser parcialmente creditada às práticas não sustentáveis adotadas pelos extrativistas envolvidos na atividade e à crescente demanda de sementes para uso local e para a exportação para outros estados e países. Uma rápida busca na internet revela que o mercado de sementes para a confecção de artesanatos literalmente explodiu no Brasil nestes últimos anos.

A valorização comercial de muitas espécies facilmente acessíveis, como são os casos das palmeiras jarina (Phytelephas macrocarpa), paxiubinha (Socratea exhorriza) e tucumã (Astrocaryum aculeatum), tem incentivado excursões crescentes de trabalhadores urbanos à zona rural com o objetivo primordial de coletar a maior quantidade possível de sementes. Coincidentemente, estas espécies são também as mais prejudicadas, dentre todas as que foram estudadas, porque apresentam uma produção anual de sementes naturalmente muito baixa.

Uma possível solução para minorar a pressão sobre as espécies mais vulneráveis é a realização de estudos ecológicos para subsidiar a determinação das práticas extrativistas sustentáveis mais adequadas para cada uma delas. Espera-se também que os órgãos de fiscalização – Imac e Ibama – apertem o cerco aos excessos cometidos por alguns comer-ciantes gananciosos que, na busca pelo lucro fácil e rápido, colocam em risco a sustentabilidade desta atividade que tem gerado emprego e renda para muitas pessoas, como se pode observar nas oficinas e lojas dedicadas ao comércio de artesanatos existentes em nossa cidade.

* Evandro Ferreira é engenheiro Agrônomo e pesquisador do INPA/Parque Zoobotânico
** Luzia Barbosa de Assis é bióloga e mestre em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais
*** Christiane Ehringhaus é doutora em Ciências Florestais e Técnica da GTZ.

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