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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

“ Os sem florestas”

Esta semana andei extremamente assoberbado, por conseguinte nem mesmo a minha estrita disciplina, permitiu remir o tempo para garatujar sobre qualquer assunto dos muitos que marcam nosso dia a dia. Contudo, assunto é o que não falta: um bom exemplo é a majoração em 15% sobre o atual  preço da tarifa de energia elétrica, principalmente porque esse aumento nos remete para outra inculcadora e polemica questão: o povo quer saber os porquês de todo fim de ano  a “conta”  de energia elétrica vir com aumento exorbitante. Na minha cabeça só passa uma conclusão: repassar ao consumidor a responsabilidade do pagamento do 13º salário dos funcionarios da “fornecedora”.

Sem resposta, volto forçosamente as minhas vãs filosofias, incansavelmente repetitivas, misturando conceito ou valores que envolvem o homem, sua existência terrena e sua relação com a natureza, de maneira especial com flora e a fauna.

Outro dia, em visita à casa de minha filha Sarah, a minha indiscrição foi aguçada ao ver sobre a estante de livros da minha neta Ester (6 anos de idade) um  livro cujo título é, no mínimo, curioso: “ Os sem florestas”.  Literatura infanto juvenil, marca registrada de Dream Works Animation L.L.C.

Fiz leitura dinamica desse livro educativo e gostei do texto atribuido aos personagens, cujo habitar natural, obviamente, é a Floresta. Dentre todos, destaco Hammy, o Esquilo: Certo dia saiu correndo para procurar nozes que tinha enterrado no outono e deu de cara com algo que nunca vira antes. Voltou correndo para contar aos amigos, o que vira: Era uma muralha verde e alta que se estendia a perder de vista por toda a floresta. Do outro lado havia um estranho mundo novo. Umas cem casas, novinhas em folhas, construídas onde antes só havia árvores. Todos ficarm espantados. Medo mesmo, afinal essas casas eram habitadas pelos terríveis humanos.

Neste contexto de temor e tremor, um detalhe chamou a atenção da bicharada. A espantosa capacidade dos humanos de ingerir alimentos. Por todos os lados havia humanos, fritando, mordendo, mastigando, ARROTANDO e lambendo os beiços… enfim, diz o texto, COMENDO!

Bem, não preciso dizer que: Hammy, o Esquilo; Verne, A Tartaruga; RJ, o Guaxinim; Vicente, o Urso e: Quillo, Spike, Bucky, os porquinho-espinhos, entre outros figurantes, vivem tremendos apuros, ao ousarem penetrar no mundo caótico dos humanos. Ademais, chega-se a conclusão que, tantos eles, os bichos, quanto nós os humanos, a cada dia, presenciamo as nossas florestas minguarem.  Seria o fim, do mundo sem florestas!

Ao mesmo tempo em que diminuem o interesse pela preservação das nossas florestas, sobejam nos humanos à corrida pelo consumismo exagerado. A mostra mais cabal do que digo, é essa idiotice Black Friday que permeiou as redes de informação, anunciando ao consumidor brasileiro uma prática antiga em uso nos EUA. A Black Friday é a celebração da cultura de consumo compulsivo na América. É “a hora mais aguardada” que acontece sempre na última sexta-feira do mês de novembro. Negócio manjado que o comércio tupininquim comprou como novo. Pode? No Brasil, pode!

Assim, comemos, vestimos, e acatamos como bom, àquilo que uns e outros dizem ser o melhor para nós. O que vale hoje é o julgamento do mercado que dita o ritmo das nossas decisões.

É essa impressão exterior que enche a nossa mente e impede-nos de refletir sobre os problemas do nosso tempo. A TV, o rádio, os jornais, a Internet etc, estão aí diuturnamente com inconsistentes “pedaços” de informação a nos inundar e a nos enlear. Esta avalanche de mensagens daqui e dacolá acabam preenchendo cada recanto do nosso inconsciente e simplesmente expulsa o discernimento e a compreensão da realidade estúpida em que vivemos, seja em Rio Branco ou na antiga cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. Nesta, especialmente no campo da violência entre gangues e a polícia, a coisa ta feia mesmo!  Só para aludir sobre essa estupidez, podemos afirmar que os mitos da cultura moderna nos remetem inexoravelmente a disparidade axiológica, com a sua inversão de valores. Vemos, por exemplo, na cultura do futebol profissional, jogadores que são verdadeiros deuses à luz da raça humana mediocrizada.

Alceu de Amoroso Lima, no seu “Humanismo Pedagógico” fez crítica contundente contra algumas teorias humanistas, em que o homem é exclusivamente objeto ou apenas um projeto, jamais sujeito da história. Tristão de Ataíde alertava, já na década de 40, e pedia aos que vivem a lida do pensar que fujam dos perigos dos mitos modernos; na sua ótica: riqueza, tecnologia, cultura, classe, nação e raça; realidades relativas que não podem ser absolutizadas. Fatos surpreendentes deste estranho mundo novo, ou coisa esquísita na visão da bicharada dos sem florestas.  

* Pesquisador  Bibliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]