Pular para o conteúdo

O Facebook está envelhecendo – está sendo dominado por pais, tios e avós

“O Facebook está morto e enterrado”, anunciou no fim do ano passado o jornal inglês The Guardian. Pode parecer um exagero para uma rede social que tem mais de 1 bilhão de usuários, mas a convicção veio do estudo Global Social Media Impact realizado com adolescentes de até 18 anos em 8 países.

A principal revelação é a de que, com adesão crescente de parentes mais velhos, como pais, tios e avós, a galera está migrando para outras plataformas – “A maioria sente-se constrangida quando uma mãe solicita amizade. Antes, os pais vigiavam se os filhos estavam usando o Facebook. Agora, é o inverso: os mais velhos insistem para que participem, de modo que possam saber a respeito de suas vidas”, diz Daniel Miller, antropólogo da University College London que analisou os resultados do estudo.

Esse é apenas um dos motivos. Há outros sinais de que o Facebook está mesmo envelhecendo. Um deles é a recente pesquisa da agência americana iStrategy – nos EUA, 6,7 milhoes de jovens com 13 a 24 anos abandonaram, desde 2011, o Facebook. Na faixa etária entre 13 e 17 anos, mais de um quarto dos usuários (25,3%) desativaram seus perfis – ou seja, 3,3 milhões de adolescentes.

Por outro lado, ainda segundo a iStrategy, a afluência dos “velhos” é crescente: usuários com idade entre 35 e 54 anos já sao a faixa etária mais presente na rede (31,1%) e a média de idade global é de 42 anos. E segundo o Centro de Pesquisas Pew, usuários com idade superior a 65 anos representam a faixa etária com maior crescimento, superior a 10% no último ano – “Os mais velhos venceram a dificuldade inicial de utilizar a rede e passaram a dominá-la”, diz Daniel Miller 🙂 Jovens e adolescentes em geral buscam formas mais ágeis de comunicação e integração – o que justifica o crescimento de aplicativos como o WhatsApp, Instagram e Skype. E o principal: são ferramentas utilizadas pelo smart-phone, o que garante privacidade – “Os computadores pertencem à família e quem usa está sujeito a compartilhar suas atividades, enquanto o smartphone é de uso individual”, diz Daniel – “É normal que os adolescentes tentem se separar dos adultos. Se eles sentem que estão sendo observados pelos adultos, é natural que se afastem”, disse à BBC a psicóloga Esther Ana Krieger.

“Você pode utilizar em qualquer lugar e não é vigiada pela sua mãe”, diz Patrícia Meneutti, 16 anos, de São Paulo – “O Facebook é chato. Você coloca uma foto e daí alguém curte, um cara que você não conhece, e a mãe fica perguntando um monte de coisas”. Por esse motivo, Patrícia quer passar a usar o Snapchat, aplicativo que Mark Zuckerberg quis comprar sem sucesso por US 3 bilhões.

O Snapchat apaga as fotos alguns segundos depois de serem enviadas e não deixa traços – “Os jovens estão buscando privacidade, segurança e interação maior e mais imediata do que oferecem as redes sociais”, diz Daniel Miller – “Eu ainda tenho perfil no Facebook, mas quase não entro”, reconhece Rodrigo Vortega, 15 – “Só quando preciso consultar alguma coisa pra escola. Mas nem isso mais”. Ele se sente invadido com algumas práticas da rede, como o excesso de publicidade e recomendações de amizade – “Se você aceita as sugestões, eles te bloqueiam e daí quando você está gostando de alguma coisa, eles tiram do ar, sei lá”.

Ambos, Rodrigo e Patrícia, se ressentem do fato do Facebook ter se tornado tão “oficial”, utilizado por empresas como referência de candidatos de emprego e para divulgar causas – “Não estou procurando emprego. Eu quero falar com a galerinha”, diz Patrícia. Ela reclama das dificuldades em se usar o Facebook pelo smartphone. “É uma droga. Por exemplo, não dá para mandar mensagens pra quem você quiser. Só dá para responder”, diz.

Para alguns observadores do universo digital, o esvaziamento do Facebook é uma questão de tempo: a rede cresceu muito e foi dominada por um público heterogêneo – não há uma identidade própria. Além disso, a número de usuários, acima de 1 bilhão, não tem mais como crescer – “O Facebook atingiu o teto. Agora, vai dar lugar a redes mais específicas, para grupos de usuários com identidades próprias”, acredita Daniel.

* Por Roberto Amado, publicado no Diario do Centro do Mundo.