A imponderável caça ao bicho-homem perfeito

Dias se sucediam longamente, tal e qual as paineiras à beira do barranco escorregadio, de inverno a verão, em vista da existência perpétua de uma fonte de densa água cristalina que, a seguir, já era um arroio e, depois, um igarapé. A vegetação comprimia-se numa diversidade de folhas e cipós enleados, como vidas que se procuram e nunca se acham, porque a estupidez lhes dá o tom. Pássaros de todos os matizes cantarolavam numa mistura densa de sons de primavera. Ali, tudo era perfeito, segundo a ordem da natureza. Só um coração é que batia em desalinho e em descompasso com a harmonia geral.

Certamente, eu teria a licença do Marcelo D2, cantor de hip-hop,  para parafrasear o título da música dele, porque a causa em pauta vale muito a pena. Lá existe a busca da batia perfeita. Já aqui, nada é bem assim. A mulata derretida e mimada andava na ponta dos cascos à procura do homem perfeito, algo inexistente desde que o mundo é mundo e que o Adão jogou a culpa em Eva e em Deus por tudo de ruim que lhe aconteceu. Vá-se!

Lembro ter a Zuleidinha dito, um dia, que estava nesta vida à procura do relacionamento perfeito, com um homem no pretérito-mais-que-perfeito. De toda a prosa, enquanto o analista que não sou, consegui gravar, de forma chamuscada, algumas das frases conexas da nossa bela sonolenta, adormecida de tanto esperar por quem não ficou de vir.

– Eu quero um sujeito macho, pagador de impostos, super viril, pegador e cortês que me chame de linda em vez de gostosa ou gastosa. Peço a Deus que sempre ele me ligue de volta quando eu desligar o telefone na cara dele. Que, feito um basbaque irremediável, deite embaixo das estrelas e escute as batidas do meu coração traiçoeiro ou leal, dependendo da ocasião; ou que permaneça acordado só para me observar dormindo. Anseio pelo homem que me beije na testa. Que queira me mostrar para todo mundo, mesmo quando eu esteja suando na beira do tanque ou esquentando a barriga no fogão de lenha. Um ser dócil que segure a minha mão na frente dos amigos dele. Que me ache a mulher mais bonita do mundo, mesmo quando estiver sem nenhuma maquiagem; e que insista em me segurar pela cintura. Busco aquele que me lembre constantemente o quanto ele se preocupa comigo e o quanto sortudo é por estar ao meu lado. Aquele que esperará por mim. Aquele que vire para os amigos e diga: ela é, sim, a mulher da minha vida!

Na literatura, ela estaria num patamar acima do realismo e do romantismo. Só louca para pensar a perfeição de um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, na teoria, porque, na prática, o Criador é reto e as criaturas todas são tortas e obtusas, quando não amalucadas, como a Zuleidinha que tinha delírios como os acima relatados.

E foi com a alma nesses trajes em frangalhos que ela deixou as divagações teóricas sobre o amor e os homens, e partiu para a prática contundente, mais nua que crua.

Foi quando, numa época obscura da vida, eu e os lá de casa estávamos sem uma secretária de forno e fogão que fomentasse a butuca do meu povo guloso.

Ela apareceu. Negra, bem apanhada, trajes modernos, saltos plataforma, bunda arrebitada, saias mínimas, bustiê de tricô, cabelos espichados e tesos, assim mantidos pela força da brilhantina. Enfim, parecia que acabara de sair de um desfile na Sapucaí. Ô mulata graciosa!

Ficou por ali um ano e pouco… E se foi.

Um tarde, então, não mais que de uma hora para a outra, ela passou a relatar as ocorrências da vida amorosa que até aquele dia experimentara, já aos três ponto quatro em termos de janeiros. Foram muitos os seus projetos de casamentos felizes e carnavais suarentos.

Segundo a Zuleidinha, o primeiro marido era um carnavalesco caciqueano empedernido. Tinha idade compatível e trajes emblemáticos, além de uns certos trejeitos ou hábitos incomuns em meio aos machões de Latino América. Por isto, partiu. Diziam-no, lá no Beco das Garrafas, ser meio maricas, com um pé na gafieira e o outro em tamancos rosáceos. Certo é que o seu macho transviado achou por bem arranjar namoro semi-secreto com um rapazola com quem findou casando e hoje são muito felizes até trocarem tiros.

Numa madrugada de suor, samba e pagode, na Estudantina  –  a gafieira mais romântica do velho Rio de Janeiro  –  eis que lhe apareceu o segundo projeto de homem perfeito.

De certa idade, mais pra lá que pra cá, vinha de Itaquaquecetuba, interior de São Paulo, e vivia nas adjacências da Rua Uruguaiana, isto, há alguns anos ou talvez década. Tinha muitos bens, inclusive um supermercado, uma loja de jóias e uma papelaria na zona da Saara.

Era descendente de libaneses, logo, dado e certo como mão fechada. Todavia, talvez apaixonado, de pronto e surpreendentemente, já a presenteou com alguns mimos um pouco caros, como um apêzinho na Glória e um Fiat uno prata com bancos de couro.

Viveram idílio efervescente por uns dois ou três anos, entre o piscinão de Ramos e as noitadas da Lapa, mas ela o largou em seguida  –  não esquecendo de se apoderar dos presentinhos  –  porque havia duas pedras no meio da sua avenida, como sejam, uma ex-esposa ambiciosa e uma amante insatisfeita, anteriores àquele romance de fim de tarde. As duas, em conluio, passaram a infernizar a vida da pobre coitada.

O terceiro marido lhe apareceu como quem vem do florista e trouxe um bicho de pelúcia e broche de ametista, numa alusão ao bolero do Chico. Em pouco tempo, ela não mais o quis porque ele poderia ser o ideal, em termos de idade  –  tinha vinte e poucos anos  –  mas era violento e, por algumas vezes, em plena Rua do Passeio, andou estapeando a Zuleidinha, esta, entre humilde e exigente.

Ela ficou decepcionada, posto que não gostava de velhos e sempre sonhara ter na cama um sujeito de pouca idade, muita libido e nenhum ciúme. Impossível!

Com a renda que ainda tinha e pelo fato de gostar de empreender, fez sociedade com um ás do jogo do bicho e montou uma casa de shows de bom tamanho, na Rua Riachuelo, Lapa. Um sucesso em vista da qualidade dos dois grupos de samba, um dali mesmo de Santa Tereza, e o outro da Serrinha, em Madureira.

Foi numa noite primaveril de muito movimento de ancas e de caixa, que o marido da vez chegou como quem chega do nada, ele não lhe trouxe nada, também nada perguntou… De meia idade e viúvo, passadas algumas luas do início da pegação, ela o mandou catar coquinhos, pois, segundo a própria, faltava-lhe a famosa pegada.

As décadas foram fugindo, sorrateiramente, escapando por entre os dedos feito banana amassada e, de mulher da vida fácil, por anos a fio, virou matrona de vida difícil, apesar da fortuna amealhada e em seguida gasta com os garotos de programa que lhe saciavam a libido ainda afoita em noitadas a perder de vista.

Anos depois, em diálogo maduro e desinteressado, chegamos a uma conclusão supimpa segundo a qual você pode adquirir tudo na solidão, menos o caráter.

Não mais tardou qualquer mês e a Zuleidinha morreu só, sim, porque, se o raper achou abatida perfeita, ela não encontrou o homem ideal.

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas; e O inverno dos anjos do sol poente, romance de viagem cujo foco maior é o Acre dos anos 40 e 50, a ser lançado em julho próximo. Cronista do jornal A Gazeta,  de Rio Branco, Acre: www.claudio xapuri.blog.uol.com.br  …

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