A política que deu e dá certo

Virou modinha dos partidos de direita no Acre afirmar que a “política de florestania” não deu certo. Antes de imergirmos aos fatos, que comprovam o êxito dessa aposta da Frente Popular do Acre (FPA), vamos às explicações sobre de que trata o termo, ultimamente distorcido.

A ideia de Florestania surgiu no fim dos anos 80 e foi concebida pelo cronista, poeta e pensador acreano Antônio Alves. O termo engloba as políticas que promovem a cidadania de quem vive na Amazônia.

Nascida nas cabeceiras do Rio Tarauacá – Seringal Boca de Pedra –, afirmo, sem medo do erro, que é impossível morar na Amazônia e não estar compromissado e/ou interligado com a floresta. Falar de desenvolvimento no Acre sem acreditar e defender políticas de valorização do ativo ambiental é, no mínimo, perigo de exclusão!

Seu Antônio Figueiredo, meu pai, cortou seringa por mais de 20 anos de sua vida para sustentar a família. Entre encontros, desencontros e reencontros, ainda recém-nascida, fui presenteada com outro pai, o sertanista José Meirelles, conhecido como o “Velho do Rio”, com quem descobri os encantos da cultura indígena.

Não poderia ter tido infância melhor! Comi fruta colhida do pé, brinquei na terra, corri descalça, tomei banho de rio, acampei nas praias, onde comíamos peixe assado na brasa e ouvíamos os “causos” da mata – alimento sem agrotóxico, sem veneno e saudável. Aprendi com os meus primeiros amigos, os índios, a importância das diversidades para a democracia.

A partir dessas e tantas outras vivências, construí minhas convicções políticas e sociais. E por ter conhecimento de causa, militar e atuar na área, como jornalista ambiental, atrevo-me a falar sobre os “caras pálidas”, que em tempos de eleição pintam não apenas o rosto, mas os reais motivos pelos quais ingressaram na política.

O ataque à política de desenvolvimento sustentável do Acre é reflexo claro de algo que deu certo e tem reconhecimento mundial. Você não leu errado! O Acre é reconhecido internacionalmente por ser pioneiro na implantação e execução de uma política que visa a redução das emissões de carbono por meio da compensação de serviços prestados, o Programa Global REM (REDD Early Movers – pioneiros na conservação), financiando pelo Banco Alemão KfW.

Na prática e de maneira mais clara, isso significa investir recurso em atividades de fomento produtivo sustentável, educação, infraestrutura, tecnologia e meio ambiente, garantindo a preservação dos recursos naturais, mediante a qualidade de vida dos acreanos, morem eles nas cidades ou nas florestas.

E quando o assunto é conservar, habitar e produzir, aaaah, meu queridos, aí damos um baile! Somos um dos estados que mais reduziu o percentual de desmatamento ilegal nos últimos anos. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) comprovam a queda de 34% do desmate no Acre entre 2016 e 2017. Em dez anos, diminuímos a taxa em 66%.

Quer mais? Então se liga no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no Acre após o ingresso da FPA. Saltamos de um PIB de R$ 1 bilhão para R$ 14 bilhões nesses quase 20 anos de política séria. Esse mecanismo de análise representa a soma dos bens e serviços finais produzidos numa determinada região, ou seja, o Acre não só existe como produz. E produz muito!

Hoje, com 71 anos, seu Antônio Figueiredo mora em Rondônia, pois à época teve que desbravar terras estrangeiras em busca de alimento para a família. Ser seringueiro era aceitar o regime de trabalho quase escravo, por isso foi tentar a sorte no desconhecido – realidade não mais enfrentada por tantos outros seringueiros acreanos que recebem apoio do Estado para cultivar seringais de borracha e já possuem venda garantida, no mercado nacional e internacional.

Quem anda na zona rural do estado encontra um povo acolhedor, trabalhador e com qualidade de vida. Miséria existe no imaginário da estirpe de políticos como Marcio Bittar, candidato ao Senado, que escreve artigo para desqualificar as Terras Indígenas (TIs) como “maiores latifúndios improdutivos”.

Com 87% de floresta nativa, o Acre possui 49% do seu território composto por área protegida – Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Terras essas que o Partido Progressista (PP), do candidato ao governo do Estado Gladson Cameli, defende no contexto nacional a suspensão da demarcação. Olha que ironia: o candidato de coligação anti-indígena mascara suas intenções com urucum.

A política de desenvolvimento sustentável no Acre não só deu certo como continua dando e rendendo frutos. Recentemente, o governo do Estado promoveu um curso sobre Contas Econômicas Ambientais Subnacionais. O que isso quer dizer? Fomos escolhidos, devido ao nosso legado ambiental, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para servir de piloto, sendo o primeiro estado subnacional do mundo a desenvolver contas ambientais já existentes em países como México, Holanda, Austrália, Colômbia e Costa Rita. O Acre sai na frente mais uma vez rumo ao PIB Verde – instituído como lei no Brasil.

É muita coisa para um estado situado no Norte do Brasil, né? Pois saiba que eu não abordei nem a metade dos nossos feitos! E digo nosso, pois me incluo nesse processo, afinal, política pública se constrói com a sociedade. Até aqui construímos um caminho pautado no respeito aos povos da floresta e cidades, na inclusão dos pequenos e no reconhecimento das populações tradicionais.

As eleições vão definir a trilha que queremos percorrer no próximo ano. O resultado das urnas não posso adiantar, mas uma coisa é certa: se hoje o acreano luta por ainda mais conquistas e direitos é porque esse trajeto foi floreado com tantos outros.

Eu também quero continuar sonhando!

Maria Meirelles é jornalista

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