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Roberta D'Albuquerque
Roberta D'Albuquerque é psicanalista. Email: [email protected]

Conselheira 

Felipa fingia tristeza na cadeira do dono do morto. Mas eu sei, e sabia desde menina, nunca gostou de Nanda. Na única vez que nos levou pra comer fora, na barraca do bacana, em Boa Viagem, esperou a bichinha chupar todas as patinhas magras do caranguejo, um monte de
mosca, a gente preguenta de areia, um guaraná pras duas. Quando ela tava quase encostando o dedo que limpou com o gelado da garrafa na patola, Felipa passou na frente. “Essa é de quem vai pagar a conta”. A unha brilhando de gordura e de esmalte recém pintado agarrou o tesouro da comilança de beira da praia sem sombra de remorso. A minha já tava na boca e eu cuidei de babar bem muito antes que ela dissesse qualquer coisa. Virou piada lá em casa. “Cada um que corra e segure sua patola que Felipa vem aí”. Eu nunca achei graça.
Passei direto pela cadeira. Bati meio desajeitada no caixão, pedi desculpas pra morta. Desviei do rosto branco e segurei com força a mão gelada. Uma mão redonda. Desde pequena era assim. Não tinha anel da feirinha hippie que entrasse nem no mindinho. “Culpa da tua mãe que me receitou corticoide”. Mainha negava. “Essa menina era cliente de dr. Jurandir, e eu quase nunca uso corticóide”.
Fato é que, para desgosto de Felipa, Nanda ficou gorda mesmo. E reclamava. Se apertava nas roupas que já não cabiam enquanto ria de minha eterna falta de peito e maldizia cada curva nova que ganhava com o passar dos anos. Tudo ao mesmo tempo. “Rasgou outra estria. Minha mãe vai me matar. E tu nunca vai ter bunda, não é? Não vai arrumar marido. Vergonha pras mulheres da tua família”.
Viajamos uma vez para São José da Coroa Grande com a família de Liliam. Eu levava na mochila uma canga verde que minha irmã me fez prometer usar como saia no show de sábado à noite. Era o objetivo da viagem: econtrar Rodrigo Brasileiro no show do centrinho sábado à noite. Eu já pronta ela diz como quem aconselha. “Melhor não. Tu vai ficar nervosa e vai que desamarra”. Obedeci. Na porta da casinha de praia ela anuncia que vai voltar. “Se tu não tem coragem de usar a canga, eu tenho. Assim a gente honra a ideia de tua irmã”. Beijou Rodrigo. Jurou que foi teste. “Só pra ver se vale o investimento”.
Na casa gigante de Garanhuns, Felipa mantinha todos os móveis forrados com lençol encardido, só podia tirar se tivesse visita. Eu, que dormia lá uma semana sim outra não, nunca vi os móveis da sala, já era considerada de casa. No fim da noite, quando ela se recolhia, a gente fechava a porta do quarto e descobria a poltrona, o abajur. Nanda subia, com todo cuidado do mundo, na cama. Em pé, lá de cima do colchão palco, ela cantava, dançava e lia o caderno de poesia. Eu de pijama, sentada na estampa de flores, aplaudia sem fazer barulho a boquinha pequena, cor de rosa, apontada para uma escova microfone. “Só mais uma. Depois é tu”. Um sarau espetáculo.
A mão gordinha que virava as páginas, eu imaginava morna quase quente. Uma vontade danada de pegar naquela mão. “Um dia a gente ainda desforra os móveis da sala, o piano, já pensasse?”.
Fiquei sabendo pelo jornal de meio dia. Atropelamento. Nanda na tela cheia do NEtv, deitada no asfalto da Conselheiro Aguiar, mal amarrada num pano branco, quase um móvel de Felipa.