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Beth Passos
Beth Passos é comunicadora, produtora, assessora de imprensa e empresária. Email: [email protected]

Quem tem medo de Virginia Woolf mesmo?

Neoliberais têm medo, não exatamente de Virginia Woolf, mas de outro membro do grupo literário Bloomsbury, o economista John Maynard Keynes? Sabem por que “essa gente de mercado” parece ter mais medo de Keynes que de Marx ou Mao? Não?

Não é exatamente pelo que ele formulou em A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, mais conhecida como A Teoria Geral, posto que outra não há. Toda vez que o cinto aperta, eles têm que recorrer à Teoria Geral. Mas, rapidamente, reconstróem seu discurso falacioso e fantasioso, que vem sendo cuidadosamente arquitetado desde a metade do século passado.

Um fato curioso sobre o neoliberalismo é que tudo que dizem existir, como “ameaça” aos seus ideais são, na verdade coisas que eles mesmos praticam. Nunca houve nenhum tipo de grande movimento gramscista no mundo ocidental. Mas houve (e há) uma potente articulação que dissemina “valores”, de todos os tipos, que apenas interessam ao neoliberalismo, configurando, o que pode ser chamado de Neoliberalismo Cultural.
Chega desse assunto, quero falar agora de um economista que, além de ser o autor da Teoria Geral, era o melhor amigo de Virginia Woolf e de sua irmã Vanessa. Alguém que assistia às montagens do Les Ballets Russes para as moderníssimas obras de Igor Stravinsky. Ele manteve publicamente relacionamentos homossexuais numa época em que isso era um crime. E como ele também não cabia nas caixinhas da normatividade sexual, encontrou sua alma gêmea na bailarina russa Lydia Lopokova, o que teria causado uma fúria de ciúmes nas amigas Virginia e Vanessa, precipitando o afastamento de Keynes do grupo de Bloomsbury.

Então, o que seria esse grande medo que Keynes desperta em qualquer liberal de carteirinha? É só o medo do Estado de Bem Estar Social, até o ponto onde foi possível desenvolvê-lo, antes que a exaustiva e persistente sabotagem perpetrada pelo neoliberalismo cultural o corroesse? Não.

É o medo do futuro. Do futuro que Keynes calculou ser possível. E sabem para quando? 2030. É. Em 1930, Keynes disse que, em 100 anos, se o Estado de Bem Estar Social fosse progressivamente implantado seria perfeitamente possível chegar a uma sociedade sem desigualdades sociais e com uma jornada laboral de 15 horas semanais.

Isso foi apresentado no ensaio “Possibilidades econômicas para nossos netos”, publicado por Keynes em 1930. Há regras e diretrizes claras e fáceis de serem seguidas, mas elas foram sistematicamente sabotadas pelo contra-ataque liberal que se articulou através do neoliberalismo econômico. E eles passaram a chamar isso de “A Utopia Keynesiana” e a tratar tal ideia como um devaneio impossível.
Engraçado isso, né? Quando é de um New Deal que o mundo precisa, quem é a única pessoa capaz que existe, pra se chamar a Bretton Woods e consertar o mundo? Keynes. Mas só na hora do aperto lembram e recorrem a ele. E até hoje é assim. O mundo está em crise? Vamos recorrer a Keynes. Desapertou? Voltam a chamar Keynes de “utópico”, “idealista”.

Mas sabem o que essa pandemia mundial, iniciada a 10 anos do ano de 2030 oferece de melhor? A chance para a sociedade se libertar do economicismo falacioso do neoliberalismo, extirpar esse “câncer cultural” e retomar a construção do Estado de Bem Estar Social em sua etapa mais elaborada, aquela que Keynes calculou ser possível alcançar em 2030.

Para isso, é necessário um trabalho intenso e interno, dentro da gente, na sociedade, de descolonização do pensamento. Abandonar um modelo baseado no pessimismo e na falsa premissa de escassez, sobre os quais se erguem as estruturas do pensamento liberal e neoliberal. É preciso acreditar na capacidade do homem que costurou o New Deal, desprezar todas as difamações que se fez a seu respeito até hoje e compreender que ninguém, até hoje, foi capaz de escrever “outra” Teoria Geral, o que, provavelmente, indica que ela esteja mesmo certa.

A “utopia keynesiana” prevê a renda básica universal, a diminuição radical da jornada laboral, restrições à publicidade, taxação do consumo, de grandes fortunas, de dividendos e muito investimento público em Bem Viver. Isso não é comunismo. O nome disso é Keynesianismo. É a verdadeira libertação do ser humano comum de um sistema mundial de escravatura. E é por isso que os que detêm o poder têm tanto medo de John Maynard Keynes, muito mais do que de Mao, Marx ou Virginia Woolf.

Beth Passos
Jornalista