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Entrevista

“É um pudor muito grande”, comenta fisioterapeuta pélvica sobre disfunções sexuais

Fisioterapeuta Jaíne Zlagey fala sobre fisioterapia pélvica e disfunções como vaginismo, ejaculação precoce e ainda dá dicas para o sexo anal

Talvez você não conheça a fisioterapia pélvica, mas já deve ter ouvido falar sobre incontinência urinária, vaginismo, vulvodínia, ejaculação precoce e impotência sexual. Todas são disfunções ou distúrbios que afetam órgãos do assoalho pélvico e que podem ser tratados ou prevenidos por meio da fisioterapia. O site A Gazeta do Acre conversou com a fisioterapeuta acreana Jaíne Szilagyi, que falou sobre como esta especialidade, ainda pouco conhecida no estado, pode ajudar tanto a vida das pessoas.

Jaíne Szilagyi é pós graduada em fisioterapia pélvica, uroginecologia e sexualidade funcional. (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje, só existem 10 profissionais capacitados na área em todo o estado do Acre, além disso, a especialização não é oferecida no estado. Jaíne precisou completar sua formação em Curitiba (PR), onde realizou a pós graduação em fisioterapia pélvica, uroginecologia e sexualidade funcional. Além disso, ela também realizou vários cursos focados na área da sexualidade masculina e feminina, que é a área que ela mais gosta de trabalhar, mas que acaba lhe rendendo desafios extras.

“Hoje, o maior desafio é o pudor das pessoas que é muito grande, existe um medo de se expor, é muito difícil você ter acesso as pessoas. A maioria das pacientes com incontinência, por exemplo, são idosas, e não aceitam ser tocadas, não querem fazer… Mas são tratamentos muito eficazes”, explica Szilagyi.

O interesse pelas disfunções sexuais surgiu com a descoberta da fisioterapia pélvica. Jaíne conta que desde que começou a graduação buscava atuar em uma área que tivesse grande relevância na vida das pessoas, e a UTI era o principal lugar que vinha em sua mente. Mas foi durante a especialização que ela se apaixonou pela área e lembrou da importância do seu trabalho na vida dos pacientes que atenderia.

“Uma mulher que nunca teve orgasmo na vida e eu conseguir fazer ela ter um orgasmo, isso é demais! Como é importante! Foi quando eu decidi pela pélvica. Além disso, sempre gostei de falar sobre sexo, sempre tive essa facilidade de falar. Então foi a chance de juntar o que eu gosto de falar e poder ajudar as pessoas”, recorda.

Por também cuidar de partes íntimas, trata-se de uma área delicada e que, dependendo dos casos, deve ter um acompanhamento psicológico. Além disso, ainda existe muito tabu acerca dos órgãos sexuais que acaba impedindo a procura pelos tratamentos. A dica geral é que as pessoas fiquem mais atentas aos órgãos sexuais, cuidando e tratando como todos os outros órgãos, prevenindo quaisquer disfunções e evitando casos graves.

Conversamos com Jaíne sobre a fisioterapia pélvica no geral, além dos casos mais comuns (incontinência urinária) e das disfunções sexuais. Confira abaixo a entrevista completa.

Do que trata a fisioterapia pélvica?

Jaíne: A fisioterapia pélvica é uma especialidade dentro da fisioterapia que ainda não é reconhecida pelo Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito). Hoje está dentro da Saúde da Mulher, mas a fisioterapia pélvica envolve tanto o homem quanto a mulher.  A fisioterapia pélvica trata e previne as disfunções do assoalho pélvico, que é um conjunto de músculos, articulações, tendões e nervos que sustentam os órgãos pélvicos (como a bexiga, uretra, útero e próstata), além das funções de incontinência (segurar e soltar o xixi), da parte sexual (contribuir para orgasmo e via de parto), e, claro, a função fisioterápica, de reabilitar os músculos do assoalho pélvico.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia, cerca de 10 milhões de brasileiros sofrem de incontinência urinária. Quais os principais casos?

Jaíne: É comum pessoas que quando tosse acabam fazendo xixi, ou aquele “ri tanto que chorei” e também sai um pouco de xixi. Outro caso comum, são senhoras que já tiveram uns cinco filhos, é muito propício que elas tenham incontinência por esforço.

Mas hoje, também é muito comum no CrossFit, por as pessoas levantarem grandes pesos e não terem essa consciência de assoalho pélvico, de contrair na hora de levantar o peso. O diafragma acaba empurrando a bexiga e faz com que o xixi saia. Então se você não tiver um assoalho pélvico forte, coordenado, você vai ter perda de xixi. Já atendo gente com 25 anos,  pessoas que espirram e que se não seguram já sai, mas é até por conta do excesso de peso. Não só do CrossFit, mas pelo excesso de peso, trabalhadores braçais.

Cerca de 10 milhões de brasileiros sofrem de incontinência urinária.

E como a fisioterapia trabalha nesses casos? Só trata ou há prevenção?

Jaíne: Podemos prevenir sim, com o fortalecimento, conscientização e coordenação dessa musculatura. No caso do tratamento, a fisioterapia varia de acordo com cada caso, mas nos casos mais simples, normalmente conseguimos tratar em seis sessões.

Agora, adentrando no seu foco das disfunções sexuais, quais os principais casos que você atende com relação as mulheres? Com funciona o diagnóstico?

Jaíne: Normalmente as mulheres chegaram reclamando de dores e a gente faz uma avaliação minuciosa. Colocamos o dedo e vou sentindo cada pontinho da musculatura, cada pontinho que a paciente vai referindo dor. O vaginismo é muito comum. As mulheres que tem vaginismo sentem dor no canal vaginal e em algumas a dor é tão forte que causa a estenose, que é o canal extremamente fechado. Na maioria dos casos afeta o casamento e o psicológico das pacientes. Então a gente trabalha com uma equipe multidisciplinar, tem que ter o psicólogo pra ajudar. E com a pandemia o vaginismo aumentou muito, pois é a contração involuntária dos músculos e conforme a  mulher vai tendo estresse mais eles vão contraindo. Com o aumento dos casos de agressão os índices também aumentaram.

Outra disfunção é a vulvodínia, ela se difere do vaginismo porque a dor se dá na entrada do canal vaginal e nos pequenos lábios, fica bem vermelho e muito dolorido. A paciente não consegue penetrar. Não é porque o pênis não entra, mas é porque arde muito. Calça jeans é impossível usar. São as duas mais comuns.

E como funciona o tratamento do vaginismo?

Jaíne: Usamos dilatadores, a gente vai introduzindo de acordo com o grau de  cada paciente. Tem aparelhos de eletros, ultrassom, para ir liberando. É uma fisioterapia comum só que um pouco mais delicada porque é uma região intima, então a paciente tem mais pudor, você tem que conversar mais.  Tem que ter um jogo de cintura muito grande, poucas pacientes deixam ser avaliadas na primeira sessão, por medo.

A princípio o vaginismo não tem cura e funciona como as emoções e o estresse que a gente joga no ombro, mas nesse caso, a mulher “joga” na vagina. O ginecologista as vezes indica medicações que ajudam a relaxar, mas é uma patologia muito delicada e muito comum.

Vaginismo e Vulvodínia são disfunções comuns, comenta fisioterapeuta.

E com relação aos homens, como a fisioterapia pélvica pode ajudar?

Jaíne: Trabalho ajudando homens com ejaculação precoce, disfunção erétil e também após a retirada da próstata (após câncer de próstata/ retirada do órgão).

No caso da ejaculação precoce (menos de 60 segundos), por exemplo, em 3 sessões a pessoa já tem um retorno. É um tratamento muito rápido, muito tranquilo e simples, mas é muito difícil encontrar algum homem que fale sobre isso ou divulgue o trabalho, é muito pudor. Mas o feedback é muito rápido.

Fisioterapia pélvica também ajuda em casos de ejaculação precoce e disfunção erétil.

Quando fala-se de órgãos sexuais, o pênis e a vagina são os principais órgãos mencionados, mas sabemos que o sexo anal também é uma prática muito comum, principalmente entre a população LGBTQIA+. A fisioterapia pélvica também pode contribuir de alguma forma?

Jaíne: Claro, é preciso que a população saiba tomar os cuidados para o sexo anal. Uma questão é que o ânus é um músculo, considerado o músculo mais forte do corpo humano, mas conforme vai tendo o atrito e com a idade vem a flacidez, e essa flacidez faz com que comece a ter perda de soiling (liquido marrom das fezes), como se fosse uma incontinência desse fluído. Para quem faz sexo anal, é importante fazer fisioterapia pélvica para prevenir lesões e fortalecer, usamos lazer para as lacerações e ensinamos exercícios de contração e relaxamento. Relaxamento para a hora da penetração, para não sentir dor nem se machucar, e a contração para você sempre ter a musculatura forte.

 Além disso, é preciso saber escolher a melhor camisinha e o lubrificante adequado, que deve ser a base de água. O sexo anal não é fisiológico, portanto o anus não tem lubrificação, tem várias bactérias e é muito comum fazerem a lavagem, que é prejudicial para aquela flora. Quando o pênis entra, causa atrito no anus que geram pequenas fissuras, fissuras essas que ficam abertas. São como pequenos machucados que às vezes você nem vê mas quando vai lavar sente que está ardendo, então alí fica propício a entrada de fungos e bactérias.

A melhor dica seria, então, a prevenção e cuidado de toda essa musculatura, ao invés de esperar ocorrer algo grave.

Jaíne: O órgão sexual, tanto masculino quanto feminino, é um musculo, se é músculo a gente consegue tonificar. Então assim como tonificar o bíceps, por exemplo, porque não tonificar a região perineal, vagina e pênis e ter melhores orgasmos? É uma área maravilhosa, quem não gosta de sexo? Infelizmente a gente tem muito pudor na sociedade. Mas todo mundo gosta e se Deus colocou lá um clitóris e um pênis foi para dar prazer.

Jaíne Szilagyi é fisioterapeuta pélvica acreana, uma das 10 profissionais da área no estado.