“Banca do Braguinha!” – Jornal A Gazeta

“Banca do Braguinha!”

Como se não bastassem os desastres geológicos e as profundas mudanças climáticas, bem como as epidemias quase incontroláveis, que nos afligem. Como se não bastassem à exaustão da terra madre que somados a escassez de recursos naturais, derivados do petróleo e de outras matérias-primas, tornam a vida nossa de cada dia mais difícil. Além das enchentes aqui, ou da seca ali, a gente tem que viver com a decadência mental e moral causada, especialmente, pelo mundo urbano cujo carro-chefe é assaltar e roubar.

Em São Paulo, capital, os roubos estão em alta e choca até ao mais otimista entre os cidadãos paulistanos. O roubo cresceu 47% na capital paulista. Só no mês de fevereiro, passado, foram 13.166 casos. Não se trata de homicídios ou do roubo das taxas exorbitantes de juros oficial ou extraoficial, pois que tudo é “farinha do mesmo saco”.

Tampouco, estão inseridos  nesses casos, os maus políticos com suas improbidades, mancomunados com os banqueiros e protegidos pelo privilégio real. Muito menos estamos falando do mundo dos velhacos, dos trapaceiros, dos charlatões, infil-trados em todos os segmentos da sociedade. É roubo mesmo, afano literal; tomar o que é do próximo “na maior ou na marra”. Essa realidade reflete um verdadeiro horror à cidadania. Estamos roubando uns aos outros. Não há como negar!

Por aqui, não é diferente. Mesmo Rio Branco, vivendo  esse caos momentâneo do isolamento, proveniente da cheia do Rio Madeira, os assaltos e roubos mitigados não cessam. Não temos defesa, pois os nossos esquemas de segurança, pessoal ou domiciliar, como: terrenos murados com pedaços de vidros sobre os tijolos; cerca de arame eletrificado; grades guardando portas e janelas; olho mágico; cães pit bul’s ou de qualquer outra raça assassina; alarmes sofisticados, carros blindados ou mesmo a mais inusitada criação na área de prevenção contra a violência, são verdadeiras fichinhas diante do avanço da brutalidade que permeiam as nossas cidades.   

A propósito, a banca do Bra-guinha, localizada ali na esquina da Av. Ceará com a Jácome, próximo aos Correios, é uma prova cabal dessa realidade doentia. O móvel, ou a banca do Braguinha, mede aproximadamente 1.80x 1.20 e possui, como medida de segurança, 12 cadeados. Seria este cidadão, com 50 anos de bons serviços prestados à comunidade rio-branquense, um exagerado ou um pessimista? Não! O Braguinha sabe que a audácia dos assaltantes, dos dias de hoje é grande. Invadem residências e comércios em plena luz do dia, fazendo refém quem estiver no recinto, submetendo-os  a um terrorismo de fazer inveja os  filmes violentos da MGM. Deixam estragos físicos e psicológicos, que demoram a desaparecer.  Então,  não se trata de pessimismo exagerado do Braguinha, pois qualquer cidadão, mesmo não sendo adepto de reflexões sobre violência, tem que reconhecer que habitamos num mundo em que a vida não está valendo um picolé. Aliás, a vida humana para essa gente  que rouba, mata e esquarteja, não vale o esterco da mula do cozinheiro do antigo bando de Jesse James.

À luz da ciência, seja de cunho empírico ou racionalista, o delito roubar está inserido no contexto de crime que suscita revolta no interior de cada ser humano.  Roubar se constitui num mistério, um enigma para o pensamento; porquanto, qual é a origem do roubo, qual é seu fundamento? E por que o homem rouba o seu semelhante? Alguém pode responder essas questões? Uma coisa é certa, essas práticas nocivas estão  inerentemente ligadas nas entranhas da raça humana.

É a própria engenharia do mal, diria Fellini, no seu O Casanova, com suas maquinações e perversas tramoias. Assim, de soslaio, parece que essa gente que rouba do miserável ao rico, está presa a esquemas espúrios; frauda sem causa, pelo único prazer  de fraudar. À luz dos princípios e leis da lógica, como arte do pensar, que mostra que a moral visa à edificação de um “reino dos fins”, a amoralidade desses “tais” se edifica na construção de um “reino dos meios”.

Conclui-se, igualmente, que as ações do homem que vive a roubar, estão representadas pela  filosofia niilista de Nietzsche, filosofia  que consiste na desvalorização dos supremos valores, na ausência de fim, na impossibilidade de responder: “os porquês de tudo isso?”

* Pesquisador  Bibliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia