Boas notícias no mundo e por que elas importam – Jornal A Gazeta

Boas notícias no mundo e por que elas importam

Muitas vezes os nossos artigos neste jornal enfatizam os problemas que enfrentamos em relação às mudanças ambientais. Aproveitando a transição do ano, vamos conversar um pouco sobre algumas tendências positivas acontecendo no mundo. Estas tendências são gradativas e não viram manchetes, mesmo assim, elas fazem parte da nossa realidade. Sem percebê-las corremos risco de ter uma visão distorcida da realidade. Elas servem também como exemplos do que podem dar certo. A ideia neste artigo vem de uma coluna do New York Times, do site ourworldindata.org e um artigo publicado em 25 de julho de 2017 no Jornal A Gazeta.
A primeira boa notícia é que estamos vivendo mais: a expectativa de vida da população tem aumentado. Usando o ano de 1980, quando cheguei ao Brasil, como referência até 2019, a expectativa de vida aumentou para 13 anos no Brasil e 11 anos no mundo. Em outras palavras ganhamos mais uma década de vida, na média, algo que vale a pena celebrar.
No início da vida, a situação mudou também. A mortalidade de crianças no mundo até cinco anos de idade reduziu muito no período de 1980 a 2015. No caso do Brasil, em 1980 morriam 94 em 1000 crianças, caindo para 16 em 1000 crianças em 2015. A morte de uma criança é uma tragédia; em 35 anos essas tragédias no Brasil reduziram 78 casos em 1000 crianças!
Se tivesse mantido a taxa de 1980, alguns de nossos amigos atuais não estariam vivos, eles teriam sido mortos antes de cinco anos de idade. Ainda é possível melhorar: em Portugal somente 3 crianças morreram em 1000 em 2015. Mesmo assim, devemos estar felizes com uma redução tão grande.
As mortes causadas por guerras no mundo têm diminuído desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. O pico de meio milhão de mortes ocorreu na guerra de Coreia em 1950 e reduziu a pouco menos de 100,000 em 2016.
Em termos de pobreza extrema, o mundo tem melhorado muito. Em 1990 1,6 bilhões de pessoas viviam com menos de 1,9 dólares internacionais (ajustados por inflação e poder de compra) por dia. Em 2015, o número reduziu para 0,7 bilhões, menos da metade do valor 25 anos antes. No Brasil, em 1990, cerca de 21% da população encontravam-se em pobreza extrema, ou seja cerca de 31 milhões de pessoas. Em 2015, a proporção caiu para 3,5% ou cerca de 7 milhões de pessoas. Ainda é um problema, mas podemos imaginar agora um mundo sem pobreza extrema.
As notícias sobre educação têm sido boas. Em 1980, a média de anos de educação formal foi de 3 anos no Brasil. Em 2017 a média aumentou para 7,8 anos. As pessoas alfabetizadas foram 75% da população brasileira em 1980 e em 2010 alcançou 90%.
Uma outra boa notícia é a revolução em informação. Quando trabalhei como professor universitário em Niterói na década de oitenta, eu ficava na fila do escritório da Embratel para poder ligar por telefone aos meus pais no exterior uma vez por semana. No início da década de noventa, em Rio Branco, tive um jipe que quebrava frequentemente e o mecânico só tinha um telefone fixo em casa. Às vezes, levava mais do que um dia para contatá-lo. A mudança tem sido marcante: o mesmo mecânico me enviou na semana passada, via celular, uma foto do conserto que estava fazendo na nossa camionete velha, pedindo a minha opinião e respondi em poucos minutos.
Esta revolução está facilitando colaborações regionais. Temos uma rede de WhatsApp com sessenta pessoas em três países trocando informações em texto, fotos e vídeos sobre chuvas e secas com a média de dezesseis mensagens por dia. Isto era inconcebível na década de noventa.
Sim, temos problemas de distração com celulares, mas os benefícios têm sido enormes. Em vários países da África, o celular virou meio para transferir dinheiro, com quase 400 milhões de inscrições até 2018. Este avanço abriu as oportunidades para microempresas e indivíduos para facilitar transações financeiras em regiões onde bancos são escassos.
De certa maneira, é difícil acreditar que estas boas notícias existem, afinal as manchetes nos jornais e na mídia social levam a maioria de pessoas, em vários países, a pensar que o mundo está piorando com a pobreza absoluta, analfabetismo e mortalidade infantil aumentando e com a expectativa de vida baixando. A realidade destes indicadores, como se nota acima, é o contrário.
Temos problemas sérios para solucionar, mas é importante reconhecer o progresso que a humanidade tem feito nas últimas décadas. Precisamos lembrar que o passado não foi tão dourado. Algumas décadas atrás a vida era mais curta, as chances de morrer na infância ou numa guerra eram maiores e grande parte da população vivia em pobreza extrema. Nem tudo está piorando; isto significa que podemos concentrar nos problemas complicados, porém, com a confiança de que é possível solucioná-los.

Para mais informações sobre este assunto, ver: https://altruismoeficaz.com.br/2017/05/17/a-curta-historia-das-condicoes-globais-de-vida-e-por-que-e-importante-que-a-conhecamos/

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