De compromisso com o futuro

O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE    (Capítulo XIX)

Estou realmente sentimental, é natural. Coisa da idade, talvez. Dizem alguns ser esta a época de homens como eu erguerem obras monumentais, ou irem de encontro a lajedos de resistência que se interpõem em meio ao caminho que se faz íngreme, árduo demais, por ser exatamente este um período da vida em que não nos apercebemos dos perigos e não calculamos os próximos passos… Não é exatamente o meu caso. Tenho apenas dezenove anos, mas me vejo enquanto um cidadão exemplar, cuidadoso, esforçado, digno deste presente maior que é a constituição de uma família que tem as bases mais fortes no amor responsável e na cumplicidade.

Antes, pensava que esse tipo de coisa jamais fosse acontecer comigo.Todavia, na radiola da casa de Latifa, anteontem, um domingo, ouvi seguidas vezes, durante a tarde, a música Apoteose do amor, de Cândido das Neves, na voz de Orlando Silva. Hoje, passados apenas alguns poucos anos, ainda com o romantismo à flor da pele, lembro-me das estrofes iniciais que diziam mais ou menos assim:

Deus, só Deus
Sabe que os olhos teus
São para mim
Dois faróis clareando o mar
Na fúria do mar
Onde naufraga uma barca
Que o leme perdeu
Coitada, essa barca sou eu
A naufragar
Na existência que é o mar
Socorre-me com a luz desses faróis
Que são teus olhos azuis
São dois lírios os teus seios alabastrinos
Quase divinos
Parecem feitos para o meu beijo
Muito almejo dos lábios teus

Almocei ali, como há dois meses, umas comidas árabes. Eram umas tais esfirras, uns ditos charutos de folha de vinagreira, um carneiro recheado com carne moída de boi e uma salada diferente a que os turcos dão o nome de tabuli. Havia vinho do bom mas eu, respeitosamente, bebi apenas uma taça de tamanho médio. Não cheguei nem perto do licor de tamarindo de quem dizem milagres afrodisíacos. O medo é começar a falar alto demais e dar umas gargalhadas estrepitosas que costumam trair o meu natural recato. (Naturalmente recatado?! Não sei porque, se todo sertanejo se comporta assim, como um destemperado verborrágico e meio aloprado!)

É preciso observar que, agora, sou quase da casa e da família de minha noiva. Aqui, almoço todos os dias, a convite da sogra, uma matrona com cara de estopa, mas coração de seda. O desjejum é feito na hospedaria e a janta leve à base de torradas e bolachas, também. Há, numa área atrás da casa cheia de samambaias, quatro assentos confortabilíssimos do tipo espreguiçadeiras… É o céu! Principalmente, quando me vem a Latifa servir cafezinhos, pudins, tortas, sorvetes, refrescos e outros quitutes e iguarias exclusivamente naturais do Pará. Conversamos bastante até se esgotarem todos os ítens próprios dos que se iniciam em relacionamentos conjugais.

Ela é muito prendada e afeita às leituras clássicas, como Rimbaud, Balzac, Flaubert, Zola, Eça de Queiroz, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, José de Alencar, Machado de Assis, dentre outros. Agora mesmo, está às voltas com O triste fim de Policarpo Quaresma, do Lima Barreto.

Recentemente, haviam chegado do Líbano três grandes obras, inclusive pelo tamanho de oitocentas páginas, cada uma, segundo ela. Eram clássicos da história do Líbano, escritas em um português usado no Vale do Bekah: A questão do Líbano, de Boulos Noujaim; Antar, de Chucri Ghanem; e O problema do levante, de Khairala T. Khairala. As três dormem hoje no fundo da Bahia do Guajará, ali deixadas quando do naufrágio que quase leva também o pai de Latifa.

Ontem, estivemos a assistir ao boi-bumbá do Largo de São José. Havia muita gente, como nas quermesses e arraiais do sertão nordestino. Além do folguedo, muitos comes e bebes vendidos  –  dizem  –  para a compra de uns castiçais de ouro destinados aos serviços religiosos da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.

Às nove da noite, as duas moças e a mãe foram para casa. Depois das despedidas apaixonadas e apimentadas, no portão, fiz caminho para o Largo da Pólvora. Num boteco com bandeirinhas, bebi umas quatro cervejas e bati oito caranguejos. Depois, olhei em volta. Grande era já a saudade da mulher por quem a minha poesia flui. Ali já não era espaço para um homem de bem e compromissado como eu. Fui para a hospedaria dormir e sonhar com ela, sempre com ela.

É dia santo de guarda consagrado a Santa Cecília, a padroeira dos músicos. Haverá muitas apresentações dos alunos do Conservatório Musical de Belém, uma no Teatro da Paz, à noite, onde estaremos presentes.

Durante o dia, sábado, sofro com alguns estivadores dorminhocos que fazem o transporte dos meus pertences para a nova e provisória residência. Agora, estou hóspede do Grande Hotel, com janela para a praça que é harmoniosamente ornamentada pelo belo Teatro. Aqui, há um mês, conheci Bidu Sayão, a maior e a melhor cantora lírica brasileira de todos os tempos.

Tenho conta no Banco do Pará e o dinheiro que vem do Ceará já não chega pelos Correios. Amigo meu agora é o Doutor Gastão Vieira, médico e jornalista colaborador do jornal A Província. Em uma partida de gamão, inclusive, na Tuna Luso Brasileira, há poucos dias, fui convidado a trazer uns escritos a serem avaliados por este novo amigo. Assim o fiz e, no outro dia, as portas do noticioso já me estavam abertas. Esporadicamente, tenho escrito crônicas curtas acerca da minha realidade circundante, entre a academia e a alta sociedade, da qual alguns já me consideram parte.

Novembro de 1935. Dia 26. Hoje, finalmente, é o dia da chegada do sogro que ainda não conheço…

– Bom dia! – Foi a saudação do senhor Radek, em bom português, ainda no convés do Rio Amazonas, o navio que o trouxe de Soures, Ilha de Marajó.

Ninguém respondeu porque lenços brancos e lágrimas diziam da alegria da família ao ver o pai de volta, curado, depois de oito meses de tratamento.

Abraços e muitos abraços. Beijos e bastante emoção por cerca de um minuto, até que a senhora Marreb, a sogra, largando um pouco o grupo fami-liar, disse:

– Escuta aqui, ô marido! Vem cá! Deixa que eu te apresente! Este moço é Melchíades, o pretendido de Latifa, de quem já te falamos.

– É um grande prazer conhecer-te, ô rapaz! Como tens passado? E os estudos? Dizem de ti coisas muito alvissareiras, parabéns!

– Fico agradecido! – Foi apenas o que consegui dizer, posto estar ainda surpreso com a fidalguia do turco.

(Aqui, cabe observar que os sírios, a grosso modo, são pessoas acostumadas à vida na montanha e às asperezas do cotidiano, por isto, um tanto embrutecidos; ao passo que os libaneses, fundadores da Universidade de Beirute, a mais velha do mundo, são amáveis, ponderados, falam mais baixo e riem, como nós. Os primeiros são quase sempre mascates que fazem comércio dentro do rio; os outros ficam em lojas, em terra firme, de terno e gravata.)

Eram apenas oito e meia da manhã. Os estivadores saíram com os pertences do recém-chegado e nós os seguimos, em cortejo. Lá do empório ouvimos saudações. Em vinte minutos de romaria, já estávamos em casa, onde tive uma longa prosa com os sogros a respeito dos mais variados assuntos, dentre os quais o meu compromisso com Latifa.
O pedido de casamento foi uma festa no Royal Club, em meados de dezembro, num sábado. O homem fez um pequeno discurso a umas quatro famílias amigas e até me chamou de filho, coisa que eu não lembro ter ouvido antes, a não ser das minhas tias.

– Este filho que agora lhes apresento me pede a mão de Latifa em casamento, e eu a dou, com muito gosto, afinal, em breve, nossos negócios já terão um grande economista e advogado para nos fazer a defesa na hora necessária.

Havia, certamente, oportunismo e senso de sobrevivência dos negócios, algo perfeitamente compreensível entre sírios e libaneses. Eu agradeci as palavras elogiosas do futuro sogro e acabei por me comprometer muito mais, agora, em meio a uma parcela significativa  –  em termos financeiros  –  da colô-nia turca radicada em Belém.

No domingo de manhãzinha, arrumamo-nos todos e fomos a um passeio em Marudá, onde a família tem uma propriedade e cria imensos cavalos árabes, às margens da baía, numa região de praias longas e muitos coqueirais, além de uma iguaria denominada casquinha de caranguejo que, acompanhada de uma boa cerveja, torna-se uma espécie de manjar dos deuses.

Casamo-nos em princípios de fevereiro de 1936, em Belém, na Igreja da Sé. Toda a colônia sírio-libanesa estava presente, em traje a rigor, comendo caviar, camarão, faisão e muito carneiro, e tomando champagne, vinho do Porto e cerveja Paraense, unida, perseverante, aqui, porque lá, a briga por questões religiosas às vezes fica tão feia que muitos batrícios findam por fugir para o Brasil, esta, sim, segundo eles, uma terra de paz, amizade e futuro para os negócios de uma gente que gosta de economizar e prosperar através do trabalho no comércio, seja nas cidades amazônicas, seja através dos rios na atividade de regatões.

O filho, Jorge, nasceu em novembro de 1936, e a filha, Samira, em novembro de 1937. Bruguelos barulhentos de cinco quilos cada um, bonitos que só a mãe, isto, porque, se comparada comigo, eu bem que poderia ir dormir nas baias da propriedade de Marudá.

Montamos uma bela casa no Reduto, Rua Gaspar Viana, 140, logo depois do casamento, do jeito que eu sempre quis. Mas os apelos foram muitos. A casa do sogro era grande demais para três pessoas, Latifa logo havia ficado grávida e precisaria dos cuidados da mãe, o velho gostava de falar sobre os negócios comigo todos os dias, e assim por diante. E veio o golpe fatal quando ele arranjou quem alugasse o imóvel por um valor duas vezes acima do preço de mercado. Certo é que fixei residência com eles, na Rua Padre Eutíquio… Coisas deles mesmos, dos turcos, uma denominação que não era do agrado dos batrícios.
*     *     *
– Senhores doutores, vós estais entre os homens mais inteligentes que haverão de ajudar a elevar esta Pátria ao patamar que ela merece. Vós sois os bas-tiões aqui fortalecedores dos bons costumes e da moral da sociedade do Pará. Não vos enganeis com vós próprios. Esta é uma escola de líderes, uma forja de sustentadores do progresso da civilização, um berço dos cidadãos mais honrados. Ide e pregai aos quatro cantos deste País a ética, a competência e o compromisso social para com o povo brasileiro, na Graça de Deus.

Foi com estas palavras que o Doutor José Militão, Diretor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas do Pará, encerrou um discurso de uma hora puxada, em meio a lágrimas de todos, inclusive as da minha família líbano-paraense, inclusive as minhas, agora envoltas em uma notícia muito triste: só há pouco soube que há dois dias haviam morrido as duas tias, em Fortaleza, atropeladas por um trólebus, em frente ao palacete da Rua Santa Inês. O serviço de transporte em causa havia sido inaugurado há pouco tempo e elas não estavam acostumadas à velocidade daquelas engenhocas do inferno. Soube depois que Marta, a tia doida, ainda conseguiu ter um filho com um senhor de alguns anos a mais com quem se casou. Depois, nunca mais ouvi falar dela.  

Num dos dias de março de trinta e sete, depois dos acertos financeiros com os empregados dos negócios de Fortaleza, à uma da tarde, entregou-me o carteiro um telegrama inesperado, vindo do Acre, onde tinha já amigos, como o serelepe Garibaldi Brasil. Eis a conclusão da correspondência:

Senhor Melchíades Ferreira. A empreza Gatasse Kalume & Filhos, representada por seu arrendatário, o senhor João Terêncio de Carvalho, e sabedora das suas qualidades no trato com os números e as leis, convida Vossa Mercê para assumir a função de guarda-livros do Seringal Boca do Lago, em Xapuri do Acre, de sessenta colocações muito produtivas. O vencimento é o melhor que existe. São cinqüenta mil réis mensais depositados na sua conta de Belém pelo escritório da firma no Banco do Pará. A recomendação do vosso nome é da parte de Aziz Hadad & Filhos, da firma do mesmo nome. Pedimos confirmação urgentemente. Minervino Bastos, advogado.

Juntam-se, agora, então, a fome com a vontade de comer: a minha pretensão por acumular fortuna para dar um bom futuro aos meus, e o antigo e inquebrantável desejo de partir por estes mundos insondáveis escondidos na imensidão da floresta.

Ao velho sogro foi muito fácil convencer em vista dos argumentos que colocavam o dinheiro e a amizade com os turcos acima de tudo. Em casa, ele se encarregou de dar a mensagem à família, acrescentando que a cada seis meses eu viria para ver os meus e trazer o dinheiro para as burras do Banco do Pará. Eu, todavia, passei toda uma semana a dizer que seriam apenas uns dois anos que me serviriam de experiência para empreendimentos futuros.

Não posso negar a umidade do meu travesseiro e do travesseiro de Latifa, a cada noite. Não podia ser diferente. Não ia para a guerra tão temida por todos, mas os perigos eram muitos, principalmente, levando-se em consideração ir tratar com o tal bicho-homem nordestino. A insônia me fazia cada vez mais crer que a cada instante devemos estar sempre sacrificando o que somos em benefício do que podemos vir a ser. E vinha à mente as palavras do Omena que dizia que nós não devemos esquecer um único instante que ficar para trás é não ir adiante.

A sorte mais uma vez estava lançada, sempre sob as bênçãos do Divino Espírito Santo que ilumina as mentes dos aventureiros desde o tempo das Cruzadas euro-asiáticas.
É claro que a minha herança era gorda o sufi-ciente para ser gasta pelo resto dos meus dias. Mas eu pensava e perguntava ao travesseiro que também se molhava, já, de saudades de todos: porque não ganhar um pouco mais?

* Este é o Capítulo XIX do romance O inverno dos anjos do sol poente. Os anteriores podem ser acessados através do www.claudioxapuri.blog.uol.com.br

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