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Cláudio Porfiro
Cláudio Motta-Porfiro é romancista, cronista, poeta e palestrante. Membro da Academia Acreana de Letras. Email: [email protected]

A competência enfim premiada

Não é sempre que advogo causas defendidas por tecnocratas. No geral, eles são bastante pusilânimes e costumam esconder-se por trás de justificativas pálidas que cabem tão somente nas cabeças tingidas dos seus chefes também omissos, posto que tornados obesos e opulentos a partir dos gabinetes climatizados, sempre eqüidistantes da realidade e do rés do chão da história feita pelas dores e pelos suores dos que não morrem de medo quando o pau quebra.

Esses licenciosos são como os nossos profissionais da política partidária que, com as honrosas exceções reconhecidas, passam a desempenhar o papel de prostitutas bíblicas em nome da famigerada governabilidade. Estou certo, sim. Uns são como os outros. Os primeiros dizem que não agiram porque as circunstâncias não lhes deixaram operar, ou porque faltou a propina que lhes sustenta a opulência bizarra e o ar senhorial. Os demais, mesmo quando o projeto é de cunho estritamente social, como a construção de uma creche para as crianças índias de São Paulo de Olivença, não votam a favor porque o partido não lhes permite, ou porque o seu líder não ganhou os dólares que queria na cueca, ou porque, mesmo sendo coisa boa para os mais pobres, passa a significar nada, posto que o adversário é que é o autor da idéia, isto, tudo, como se a organização macabra  –  especificamente, o PMDB  –  não fizesse parte desta Pátria de oportunistas.

Há umas semanas, nas páginas amarelas da Veja, o economista Paulo Renato de Souza, hoje Secretário de Educação de São Paulo e ex-ministro da Educação de Fernando Henrique Cardoso, ao mesmo tempo em que aplaudiu os sistemas de avaliação do MEC  –  como a Prova Brasil, o Enem e o Enade  –   teceu comentários nada elogiosos a uma troupe de sindicalistas que não gosta de argumentos que dêem base concreta para a melhoria da qualidade do ensino real.

Segundo o economista, os sindicatos buscam uma isonomia impraticável, quando lutam por melhorias salariais para o todo da categoria dos professores. É do conhecimento público que uma boa parte destes sodomiza a transmissão do conhecimento porque não vai à escola ou à faculdade, ou porque, se vai, é para demonstrar a sua completa falta de apego à profissão que exerce quando, em vez de dar aulas, conta anedotas, ou pede que uma aluna de boa caligrafia faça apontamentos rotos no quadro, enquanto ele cochila refestelado a uma confortável cadeira.

Ao passo que o professor vizinho, ali mesmo na sala ao lado, sobe na mesa, faz mesuras, canta, declama, expõe com clareza, conjuga verbos, cobra a atividade do dia anterior e aplaude a participação da turma.

Quem deve ser valorizado? O que enrola ou o que trabalha?
Paulo Renato de Souza foi também reitor da Unicamp na época em que eu cursava por lá o Doutorado. Uma vez, fiquei deveras chocado quando ele falou que as universidades brasileiras de baixa produção científica deveriam receber menos recursos do Ministério, a fim de que estas se vissem na obrigação de produzir… Para tanto seriam cobradas. Senti nele um muito de preconceito. A paixão falou mais alto porque, mesmo sem estar oficialmente investido da responsabilidade, naquele momento eu representava a Universidade Federal do Acre, uma instituição periférica, no dizer da autoridade.

Hoje, passados quase doze anos, a minha paixão amadureceu e não mais se apaixona. O Paulo Renato tem razão quando afirma que o avanço no campo do desenvolvimento educacional só será possível com salários atraentes e valorização dos melhores professores. “O reconhecimento por mérito parece no mínimo razoável, sobretudo quando combinado a outras iniciativas como melhor infraestrutura e boa gestão escolar”.  São palavras do ex-ministro.

No Brasil, a premiação ou a recompensa pela competência não é uma norma. Por aqui, ainda são muito preservadas uma familiocracia imorredoura, um clientelismo cretino e um compadrismo que viceja em todas as instâncias do poder, com raras exceções.

De acordo com o Programa de Valorização por Mérito, lançado pelo governo paulista no início de agosto, professores, diretores e supervisores poderão ter a sua remuneração inicial multiplicada em até quatro vezes a partir de janeiro de 2011. “Para isso, deverão cumprir regras de promoção e obter notas mínimas em uma avaliação aplicada anualmente pela Secretaria de Educação”.

É o que hoje denominam a ordem da meritocracia. Em palavras mais sucintas, para que os salários sejam aumentados, vai depender somente do desempenho do professor.

Para o economista, segundo as regras atuais, depois de vinte e cinco ou trinta anos de serviço, o professor não consegue nem ao menos dobrar o seu salário base, e isso não é atraente para ninguém. “Precisamos, primeiro, incentivar os jovens que estão escolhendo a profissão e mostrar que ser professor também pode ser atraente. Em segundo lugar, precisamos promover o aperfeiçoamento dos nossos profissionais, e é por isso que devemos desenvolver uma carreira que valorize o esforço e o mérito desses professores”.

Conforme se observa do todo da exposição do secretário, será a partir da implantação do Programa de Valorização por Mérito que vislumbrar-se-á a possibilidade de dar saltos rápidos na carreira. Em outros termos, “se o professor for promovido, receberá vinte e cinco por cento de aumento sobre seu salário inicial”. Haverá, assim, “cinco faixas de promoção e, portanto, a possibilidade de quatro aumentos salariais durante a carreira. Para isso, será estimulado o aperfeiçoamento do professor, pois para passar de uma faixa para a outra, ele será submetido a um concurso de promoção, cujos critérios levarão em conta sua vida profissional – assiduidade e tempo de permanência na mesma escola – e o desempenho em uma prova de conhecimentos sobre a disciplina que ele leciona”.

Professores! Temos caído todo dia na estultice  –  estupidez  –  de dizer que, depois de uma pós-graduação de melhor nível, já não precisamos aprender nada, que chegamos ao status quo da sabedoria humana, que galgamos enfim o mais alto dos degraus.

Calma, Mestre! Segura a onda, Doutor! Vá até a escrivaninha, pega lápis e caderno, e começa a escrever, agora, sozinho, em razoável português, sobre o que você tem a ver com a educação ambiental ou o desenvolvimento sustentável, em vinte e cinco linhas apenas, sem escorregões prosaicos em termos de ortografia, ou de sintaxe de concordância, regência e colocação. Faça isso! Conseguiu? Parabéns!

É oportuno observar que cá entre nós  –  acreanos! – virou costume o cidadão sair por aí dizendo aos quatro ventos que sabe tudo e, muito mais especificamente, aquilo que jamais será capaz de entender. Uma pena! Convém observar que mentir para os outros é muito ruim; mas mentir para si próprio deveria ser crime passível do Código Penal. O Teófilo Fortuna, grande mestre rural, por exemplo, não deve provar a ninguém que é bom. Ele também não deve dizer que a culpa pelo seu salário irrisório é do patrão ou do sindicato. Basta que ele prove a si próprio que é excelente ao fazer a avaliação do Paulo Renato para aumentar o salário significativamente. Afinal, nada será exigido além do conhecimento do conteúdo da disciplina que leciona, além de métodos didáticos e da utilização das novas tecnologias no processo de aprendizagem.

– Estuda, Fortuna! – Digo eu, cá com os meus botões.

Então, para colocar mais um ponto cruz neste alinhavo pequeno burguês, tenho observado, desde alguns anos que, professores de Língua Portuguesa, por exemplo, devem saber redigir um texto, de próprio punho, é claro, sem a necessidade de consultar nenhum apontamento. Se ele fizer isso, aí, sim, estará apto a enfrentar uma turma de oitava série do ensino fundamental sem o perigo de passar vergonha, como uma professora que, em meados da década de 1990, foi chamada a substituir-me, uma vez que fora aprovado no programa de Doutorado da Unicamp. Eu permaneci na sala do terceiro ano do então denominado segundo grau, a pedido do diretor, para aparar alguma aresta teórica ou metodológica por acaso existente. A moça adentrou o recinto e escreveu três linhas no quadro. Já era outubro e uma aluna mais aplicada, sem mais delongas, apontou um erro de ortografia, um de pontuação e outro de concordância ou regência, ao que a minha virtual substituta encheu os olhos de lágrimas, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e se foi sem dizer adeus.
Dias depois, fui ter com Ducélia Mota Lopes, professora de Português à moda antiga, que escreve redações e não apenas as corrige, de quem ouvi relato preocupante:

– Ora, Zé Cláudio! Como é que os alunos do Curso de Letras vão aprender a escrever se eles não chegam à Ufac para isso? Os estudos da sintaxe de concordância e regência verbal e nominal, por exemplo, são armas poderosas nas mãos dos que buscam aprender ou ensinar a escrever, mas tal prática afirmam-na ultrapassada. Por isto é que de lá saem professores de redação que não sabem escrever e, mesmo assim, vão para as escolas ensinar o que desconhecem, o que é uma pena.

Ademais, se observamos mais especificamente o meio escolar em que nós acreanos temos vivido, podemos concluir claramente que há outros problemas a serem solucionados. 

Uma das células base da sociedade, a família, perdeu ou nunca teve sentido, principalmente, entre as classes C e D. O sinal está fechado para os mais jovens, sim, porque os pais não se importam com o desenvolvimento intelectual dos filhos, desconhecem ou não ligam para o bom papel da escola e lhes deixam muito à vontade para que enveredem por outros mundos como o das drogas e o da prostituição, estes, certamente, caminhos sem volta.

Com uma parcela significativa da classe média ocorre o contrário. Embora muitos não queiram ver, são os alunos das escolas particulares que preenchem todas as vagas dos melhores cursos, como os de Medicina, Direito e Engenharia. A burguesia brasileira continuará no poder, ou perpetuar-se-á nesta condição porque há investimentos maciços destas famílias na formação dos filhos. Esses futuros médicos, advogados e engenheiros assumirão os postos de comando e os transferirão para os seus filhos que também freqüentarão as boas escolas. A supe-rior maioria dos que pagam caro por diplomas inócuos nas faculdades particulares serão secretários, se forem bem treinados. Os outros comporão as massas de manobra e tentarão vagas enquanto oficce boys, infelizmente… E este é um preceito que vem do velho e bom Marx, queiram ou não. Imagine!

– Estes rapazes e moças da escola pública não têm estímulo a partir de casa e, vez por outra, prometem agredir, ou agridem, fisicamente o professor que, de alguma forma, lhes force a aprender alguma coisa. – É o que me contava outro dia um diretor de escola do ensino médio.

Um professor de Matemática do sistema estadual, já experiente no trato com os escolares, afirmou sem pestanejar que há líderes e diretores, na sua superior maioria, que não querem sugestões dos que vivem o dia a dia das salas de aula. Atividades como assistir a um bom filme, ir a um espetáculo teatral, visitar uma biblioteca ou um jornal, deliciar-se com um recital de música clássica são, para muitos, apenas mais uma forma de o professor não trabalhar. Ora, senhores! Os temas de grande importância surgem a partir de fatores como estes, como surgem também no cotidiano de cada um. É na sala de aula onde deveriam ocorrer os debates sobre as grandes causas cujos elementos fomentarão o discurso do aluno a ser utilizado na elaboração das suas dissertações pela vida afora.

Por tudo isto é que os melhores professores deverão ser premiados por seus esforços. Em qualquer empreendimento humano digno são aqueles comprovadamente competentes que assumem a vanguarda das ações que significam prosperidade.

* José Cláudio Mota Porfiro é escritor.