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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

Os sete saberes fundamentais à educação do século XXI

Os textos de Edgar Morin são fascinantes e por eles nutro profunda admiração. Quanto mais os leio mais inclinada fico pela leitura, tão agradável é sua forma de escrever e abordar temas da vida. Assim, ao ler “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” a pessoa sente-se motivada a compartir com outros a beleza daquilo que leu. Depois, a leitura também é isso, dividir, compartir conhecimento. É dessa forma que a gente soma conhecimento de mundo e se engrandece, pois nada e nenhum equipamento substituem uma boa leitura.

Segundo Morin, os sete saberes necessários à educação do futuro não constam em nenhum programa educa-tivo. No entanto são fundamentais ao convívio humano. A ausência deles, no processo educacional, ocasiona “os sete buracos negros da educação”. Os sete saberes são completamente ignorados, subestimados ou fragmentados nos programas educativos. Assim, é urgente que eles sejam colocados no centro das preocupações na formação dos jovens, futuros cidadãos brasileiros. E quais são os “sete saberes”?

O primeiro deles é o conhecimento. E embora o ensino forneça conhecimento e saberes, ele nunca ensina o que seja, de fato, o conhecimento. Essa ausência é responsável pelos constantes erros humanos, pois o mundo nunca é um reflexo ou espelho da realidade. Os conflitos decorrem do pouco conhecimento sobre as coisas. Tudo é agravado pelas diferenças culturais, sociais e de origem, constantes causas de erro. Cada ser acredita ter as idéias mais evidentes e deseja fazê-las normativas. Aquelas pessoas que não estão dentro desta norma, que não são considerados normais, são julgadas com um desvio patológico e taxadas como ridículas. Ao final, ca-da pessoa prefere camuflar a parte que lhe é desvantajosa para colocar em relevo a parte ruim do outro.

O segundo buraco negro reside no fato de a escola não ensinar as condições de um conhecimento pertinente, isto é, de um conhecimento que não mutile o seu objeto. A tendência humana é seguir, em primeiro lugar, um mundo formado pelo ensino disciplinar. Logicamente as disciplinas, de toda ordem, ajudam no avanço do conhecimento e são insubstituíveis. A economia, ciência humana importante, a mais avançada, a mais sofisticada, tem um poder muito fraco e erra muitas vezes nas suas previsões, porque está ensinando de modo a privilegiar o cálculo. Com isso esquece os aspectos humanos, como o sentimento, a paixão, o desejo, o temor, o medo. Essa realidade social é multidimensional e o econômico é apenas uma dimensão dessa sociedade. Por isso, é necessário contextualizar todos os dados.

O terceiro aspecto é a identidade humana. Como pode a identidade humana ser ignorada pelos programas de instrução? É possível perceber alguns aspectos do homem biológico em Biologia, alguns aspectos psicológicos em Psicologia, mas a realidade humana é indecifrável. As pessoas figuram como indivíduos de uma sociedade e fazem parte de uma espécie. E, ao tempo em que fazem parte da sociedade, trazem a sociedade dentro de si, amoldando-se a ela. As pessoas são espécies ao tempo em que a espécie depende de cada um. Se elas não se relacionassem, sexualmente, a espécie feneceria. Portanto, o relacionamento entre indivíduo/sociedade/espécie é como a trindade divina. A realidade humana é trinitária.

O quarto aspecto é a compreensão humana. Nunca se ensina sobre como compreender uns aos outros, os vizinhos, os parentes, os pais. O que significa compreender? A palavra compreender vem do latim, compreendere, que quer dizer: colocar junto todos os elementos de explicação, ou seja, não ter somente um elemento de explicação, mas diversos. Então, é importante este quarto ponto: compreender não só os outros como a si mesmo. Vê-se o mundo devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre os seres humanos. Assim, o que faz com que se compreenda alguém que chora, por exemplo, não é analisar as lágrimas no microscópio, mas saber o significado da dor, da emoção. Por isso é preciso compreender a compaixão, que significa sofrer junto. É isto que permite a verdadeira comunicação humana.

O quinto aspecto é a incerteza. Apesar de, nas escolas, ensinar-se somente as certezas, como a gravitação de Newton e o eletromagnetismo, atualmente a ciência tem abandonado determinados elementos mecânicos para assimilar o jogo entre certeza e incerteza, da micro-física às ciências humanas. É necessário mostrar, em todos os domínios, sobretudo na história, o surgimento do inesperado. Eurípides dizia no fim de três de suas tragédias que: “os deuses nos causam grandes surpresas, não é o esperado que chega e sim o inesperado que nos acontece”. É a velha idéia de 2.500 anos que os seres humanos sempre esquecem.

O sexto aspecto é a condição planetária, sobretudo na era da globa-lização, que começou, na verdade, no século XVI, com a colonização da América e a interligação de toda a humanidade. Esse fenômeno, em que tudo está conectado, é um outro aspecto que o ensino não alcançou, assim como o planeta e seus problemas, a aceleração histórica, a quantidade de informação que as pes-soas não conseguem processar e organizar. Daqui para frente, existem os perigos de vida e morte para a humanidade, como a ameaça nu-clear, ecológica, o desencadea-mento dos nacionalismos acentuados pelas religiões. A escola precisa assimilar e ensinar que a humanidade tem um destino comum.

O último aspecto Morin chama de antropo-ético. Cabe ao ser humano desenvolver a ética e a autonomia pessoal, a participação social (as responsabilidades sociais), ou seja, a participação no gênero humano, pois as pessoas compartilham um destino comum. Hoje, a ética do ser humano está se desenvolvendo através das associações não-governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras, o Greenpeace, a Aliança pelo Mundo Solidário e tantas outras que trabalham acima de entidades religiosas, políticas ou de estados nacionais, assistindo aos países ou às nações que estão sendo ameaçadas ou em graves conflitos. A escola não pode continuar alheia ao mundo.

Conclui-se dizendo que o texto de Edgar Morin tem o mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o Século XXI. Ele aborda temas fundamentais à educação contemporânea, por vezes ignorados ou deixados à margem dos debates sobre a política educacional. Sua leitura levará à revisão das práticas pedagógicas da atualidade, tendo em vista à necessidade de situar a importância da educação na totalidade dos desafios e incertezas dos tempos atuais.

DICAS DE GRAMÁTICA

TODO ELO É DE LIGAÇÃO?
– Cuidado com o excesso de palavras. Não raro isso leva a redundâncias inadmissíveis, que revelam desconhecimento e contam pontos negativos para a imagem de qualquer pessoa. É o caso de expressões como elo de ligação, hábitat natural, monopólio exclusivo, só para citar algumas mais comuns. Em todas elas, o complemento é dispensável, já que todo elo é de ligação, todo hábitat é natural e não há monopólio que não seja exclusivo. Encaixam-se na mesma categoria de “subir para cima”, “descer para baixo”, “ver com os olhos”, etc.

POSSO DIZER “PERCA” DE TEMPO?
– Não! É impressionante a quantidade de pessoas de bom nível educacional que utiliza a expressão “perca de tempo” sem se aperceber da inadequação que comete. O correto é “perda”, substantivo feminino. Exemplo: “Isso é uma total perda de tempo”. “Perca” é o verbo perder conjugado no subjuntivo, com sentido de “venha a perder”. Exemplo: “Temo que ele perca o ônibus”.

Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras.