Pedofilia, igreja e mídia!

Como o tema da prática da pedofilia é abrangente e, exigiria muito fôlego do autor destas poucas linhas, na concepção de um artigo que visualizasse o caráter universal do problema, preferimos de forma fragmentária, enfocar o surgimento de casos de abusos sexuais contra crianças no seio da igreja cristã. É preciso que se diga que a divulgação, em larga escala pela imprensa mundial, desses crimes de assédio sexual contra crianças, que nos entristece a todos, têm mobilizado os cristãos do mundo inteiro, para ações preventivas em igrejas e congregações locais.

Antes de entrar na questão da luta, específica, da Igreja Católica em debelar os abusos sexuais contra crianças e adolescentes nos seus bastidores, deixa-me dizer que a prática da pedofilia já teve status legal em meio aos poderosos, romanos, gregos e em muitas partes do mundo antigo. No costume greco-romano crianças e pré-adolescentes eram entregues ou vendidas pelos pais aos “sacerdotes” de templos pagãos para prostituição cultual, com o beneplácito da classe dominante da Grécia, dos famosos filósofos, que aquiescia deleitarem-se em banquetes orgiás-ticos, com desfile de jovens reservados para seus prazeres carnais. O costume é antigo mesmo!

Em contraste com essa inclinação perversa, as religiões do Oriente próximo não consentiam com a prostituição religiosa, e as experiências sexuais, em seus níveis mais degradantes. Os códigos: sumério babilônico, assírio e hitita, e não apenas o hebreu, impunham severos castigos em questões de desvios e aberrações sexuais.

A Igreja Católica, que por motivos desconhecidos fechou os olhos, ao longo dos anos para os casos de abusos sexuais contra crianças, envolvendo seus líderes, hoje deflagra uma verdadeira guerra contra os que praticam tal anomalia. Os motivos de tal combate são óbvios: Primeiro porque, as pesquisas revelam que 90% dos católicos considera que a imagem da igreja foi abalada por causa dos escândalos de assédio e manipulação emocional e sexual de crianças, protagonizados por falsos guias espirituais, infiltrados no coração da igreja. Esses escândalos atingem diversos países além do Brasil. Segundo, existem agudas pressões exteriores sobre o staff maior da igreja, em detectar e coibir tais abusos. 

 Só a Igreja Católica de Boston (EUA), sofreu 450 processos impetrados por advogados de supostas vítimas de abusos sexuais por parte de padres.  E, o que é pior, os altos escalões da arquidiocese, incluindo seu responsável, o cardeal Bernard Law, tinham conhecimento de alguns casos de abusos de crianças cometidos por padres da cidade e não tomaram medidas para impedir que continuassem em contato com crianças. Aliás, o cardeal Bernard Law, em função do escarcéu entrou com pedido de renuncia do posto de arcebispo de Boston, no que foi prontamente atendido pelo falecido Papa João Paulo II.

Uns e outros escândalos no seio da Igreja Católica obrigou o Vaticano, constrangido pelas circunstâncias, a tomar medidas rígidas, na presente década, para punir padres católicos responsá-veis por abusos sexuais contra crianças. No texto que enviou as agências internacionais, o Vaticano considera a pedofilia como uma “ofensa abominável”. A nota diz ainda que a partir dessa medida, a igreja deve reconquistar o respeito dos católicos, cuja confiança ficou abalada pela onda de escândalos sexuais.

Com essa postura o Vaticano tenta minimizar a pressão que o mundo, via mídia, exerce atualmente sobre o Papa Bento XVI e paralelamente começa a destronar a grei dos pedófilos contumazes, enrusti-dos nos bastidores da igreja.

A medida, mesmo enérgica e necessária, é paliativa, já que vivemos num mundo onde a maioria dos problemas mais difíceis tem múltiplas causas e exige múltiplas soluções, e esse é, sem dúvida, o caso da prática da pedofilia. Contudo, posições como essa do Vaticano anima e conforta os genuínos cristãos dos quadrantes da terra. Alento que dá a todos nós cristãos professos, um fio de esperança, para suportar, hoje, um mundo que vive, numa escala nunca antes conhecida na História, de brutalidade, ganância, bestialidade e instinto criminoso, provavelmente oriundo dos pró-prios demônios que imperam nos lugares eminentes da terra.

Outra coisa digna de menção é a postura da mídia que continua, responsavelmente, denunciando estruturas perversas, fatos escabrosos e anomalias sociais, mesmo que seja estigmatizada como imprensa marrom, pois se percebe um comportamento social de apatia e alienação diante de situações graves, como essa de pedofilia. A notícia, amplamente divulgada através dos meios de comunicação, da prisão do Monsenhor Luiz Marques Barbosa, 83 anos, acusado de ter abusado sexualmente de muitos coroinhas, é triste e lamentável, mas precisava vir a público.

Então, É SIM PAPEL DA MÍDIA DIVULGAR E DENUNCIAR ABUSOS SEXUAIS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES! E, não estou só nesta assertiva: Especialistas dos meios de comunicação são unânimes em afirmar: “Denunciar estruturas sociais perversas que possibilitam e encobrem situações nocivas à sociedade, é também o papel da mídia”. Como saberíamos, se não através da mídia, que se eleva cada vez mais o número de adolescentes grávidas. Além do que, o Brasil é o campeão mundial de abortos.

* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião. E-mail: [email protected]

 

 

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