O estivador

Num dos dias de janeiro de 1996, o velho guerreiro de tantas rusgas e pelejas partiu para a grande viagem. Houvera almoçado fartamente, como sempre.

 Conservava ainda o mesmo apetite voraz… Depois de algumas espreguiçadas, atou a rede cearense, deitou e dormiu. Ao cabo de uma hora, acordou e foi para a varanda frontal da aprazível vivenda do bairro Cadeia Velha. Lá, conversou, por alguns poucos minutos, com um dos seis filhos, sentado a uma cadeira de balanço.

De repente, a cabeça pendeu para o lado e o corpanzil foi amparado pelo Motinha, que lhe fazia companhia e dizia gracejos na ocasião… Pronto. Estava morto o nosso herói particular, o herói lá de casa, a quem, ainda hoje e por todo o sempre, haveremos de render as mais justas e sinceras homenagens.

Em verdade, é preciso deixar para além da saudade o fato de que os grandes homens são maiores na recordação do que ao natural. Aquilo que vimos neles é, ao mesmo tempo, o seu melhor e o melhor de nós próprios. Louvados sejam, então, os nossos heróis caseiros, aqueles que viveram e morreram para ter sempre o que colocar em nossas bocas ávidas por pão e por caráter.

O estivador teve uma infância de privações. Filho de Joaquim e Júlia, era o segundo de um pacote de onze filhos. Raimundo, de batismo. Gibiri, de Xapuri e de Rio Branco, foi uma das criaturas mais amistosas que esta terra já viu.

Joaquim, o velho, veio do Ceará. Nascera num dos sítios das cercanias da Serra da Meruóca, no alto sertão. Chegou a Belém por mar. Veio então subindo o grande rio e, em Óbidos, Pará, conheceu a mãe dos filhos seus, Júlia. Aí nasceu, em 1919, o Estivador.

A família chegou finalmente ao Acre em meados da década de 1930. Xapuri foi o destino combinado com um agente que aconselhara Joaquim a vir trabalhar como seringueiro na Amazônia. Cá chegando, a rotina do trabalho na mata não se fez agradável ao sertanejo que era muito mais habituado ao trabalho agrícola, quando a chuva molhava a Meruóca, a cada dois ou três anos.

Certo é que adquiriu um sítio, cá denominado colônia, e passou a trabalhar as culturas de subsistência, como a mandioca, o milho, o feijão, o arroz, além de algum criame. Três dos filhos mais velhos permaneceram cortando seringa. Mas o Gibiri preferiu trabalhar de fazenda em fazenda (sedes de seringais), na diária, como diziam antigamente, batendo campo de sol a sol… E foi exatamente numa dessas vivendas que conheceu a bela Nicácia, filha do velho Rocha, dono de engenho, que lhe deu quatro filhos, dos quais sobrevivem hoje apenas dois, o Marcos, procurador federal aposentado, e o Manoel, funcionário público em Xapuri.

Numa ocorrência muito trágica, então, uma cobra caiu em cima da tábua em que a esposa lavava roupa e ela, grávida, tomou-se de um susto tal que veio a falecer.
O Estivador, então, transferiu-se para a cidade com as duas crias sobreviventes. Aí, mais uma vez, como por uma graça divina, uma vizinha mais moça e de fino trato, Francisca, condoída com a situação dos órfãos, quis ajudar… E ajudou… E veio o casamento… Era dezembro de 1955 e os meninos logo a chamaram  –  e até hoje ainda a chamam  –  mamãe… Certo é que essa mão amiga e condoída criou não apenas o Marcos e o Manoel, mas me colocou no mundo e o Mota e o Jorge e a Socorro, todos, filhos do Gibiri de Xapuri.

A transferência para a cidade exigiu que o batedor de campo tivesse uma profissão especializada. Dos ofícios ditos urbanos, ele não conhecia nenhum; mas, como a época exigia força de mastodonte, a ocupação principal, em 1955, passou a ser a de carregar e descarregar lanchas e navios, de borracha e castanha, no porto de Xapuri, àquela época, ainda bastante movimentado, principalmente, nos períodos de inverno.

O barranco era íngreme. Não eram todos os anos que os comerciantes o aplainavam por faltarem as máquinas próprias para o serviço. A cangalha, uma espécie de acolchoado rústico, de capim e estopa, não permitia que o contato com as mais diversas espécies de mercadorias queimasse as costas dos estivadores que iam e vinham de sol a sol.

Foram muitas as vezes em que vi o herói lá de casa subir rumo ao armazém carregando três sacos de açúcar, cada um com sessenta quilos. Dois iam embaixo dos braços e um equilibrado na cabeça. Outra vez, foi uma caminhada de uns quinhentos metros carregando seis engradadados de cerveja rumo ao Clube Bilhar. (Àquela época, as grades de cerveja eram de madeira). Depois, uma palheta aflorou na praia hoje localizada em frente ao Mirante. Era de um navio afundado ali no final do século XIX. Juntaram-se os dois sujeitos mais fortes que eu já vi, o Gibiri e o Ismar. Na marra, os dois conseguiram erguer o monumento hoje exposto na praça próxima ao Terminal Rodoviário.

Alguns nomes de amigos do meu pai me vêm à memória, como o Hilário Candiru, um negrão espadaúdo, de uns cem quilos. Havia o Zé Firmino, um cearense que, ainda hoje  –  parece-me  –  vende raspadilha nas praças de Xapuri. Lembro o Zé Priquito, engraçado como o próprio nome. O Chico Aquino, falecido, cavalheiro e amigo, apesar da pouca cultura.  O Polissi, vivo ainda hoje e residente na Estação Experimental, em Rio Branco, fazia o mesmo serviço de dia e, à noite, fabricava uns colchões de capim sobre os quais a minha plebe dormia morta de cansada. O Seu Paulino Cachimbo era uma espécie de dromedário, que não pedia água em hora de serviço… Eram muitos, enfim, sob o comando do Gibiri que se tornou, depois, o primeiro presidente da associação dos estivadores de Xapuri, apesar de não ser alfabetizado. Não aprendeu a ler, nem a escrever. Mas conseguiu desenhar o nome com a simples finalidade de votar num rapaz muito bom. Era Chico Mendes, o líder seringueiro.

Das chuvas de outubro e novembro vinham o Natal e o Ano Novo. Daí, era um pulinho para o Carnaval, principalmente, porque, neste ínterim, aos domingos, organizávamos os ranchos que nada mais eram que uma banda tocando músicas carnavalescas e a rapaziada pulando e dançando à frente, em cortejo animado e bêbado. Dessas, o Gibiri não participava. Não bebia e, acima de tudo, era essa uma época de muito trabalho em que chegavam muitas embarcações que deveriam ter a mercadoria desembarcada e a borracha e/ou castanha embarcada para os portos de Manaus e Belém. No fim do inverno e mais ou menos coincidindo com o período carnavalesco, então, aparecia um navio de nome Envira, que trazia uns marujos que gostavam mais de farra que de trabalho. Depois, vinham as águas de março em que nenhum embarcadiço confiava e as lanchas e batelões eram colocados para revisão e manutenção.

Onde hoje está a Praça São Sebastião, colocava-se um tronco grosso de mulateiro e, em cruz, amarravam um outro tronco um pouco mais fino.  Aí, os estivadores puxavam, por meio de cabos de aço, as embarcações de barranco acima. Os homens fortes, suados e em calções de listas azuis e brancas, traduziam, para a criança que eu era, o significado do que vem a ser um trabalho pesado, muito pesado… O contato da madeira com o aço provocava um gemido que se ouvia ao longe. Então, as lanchas e batelões passavam a ser calafetados pelos embarcadiços liderados por Mestre Amilton e Mestre Sabá, especialistas do ofício. Vi aquela rapaziada botar muita força ali…

Certo é que, se o Estivador tinha uma certeza elaborada em pretérito mais-que-perfeito, agora, todos sabem que o verbo vir-a-ser dos lá de casa sempre estivera conjugado em futuro do presente do indicativo, na graça de Deus Pai.

* José Cláudio Mota Porfiro é cronista.

Assuntos desta notícia


Join the Conversation