Imaginação carrapeta

Contador-de-causosDe Xapuri, o Padre Felipe e o ajudante de ordens, Miguel Praxedes, desceram o rio a bordo de uma lancha denominada Lontra, à disposição do religioso que, de porto em porto, deverá seguir viagem até o Seringal Remanso. Com o início do verão e as primeiras friagens, é tempo das desobrigas, quando a palavra de Deus é levada aos mais remotos rincões.

Desembarcou junto com o vigário um homem chamado Chaga, mais conhecido pelo apelido de Lascanheta, devido à fertilidade de uma imaginação que não busca nenhum vínculo com o real. Ele conta histórias que balançam entre a fantasia e a realidade, não dando importância ao que pensam os seus ouvintes que, agora mesmo, já são muitos.

É sábado. Muita gente está aqui para casar no católico ou batizar a criançada, principalmente, das famílias que não conseguiram ir tomar a bênção ao Santo, no último vinte de janeiro.

Logo um grupo se forma ao redor do contador de causos. O homem é gaiato. Faz sucesso, sim, e fica rejubilado ao ver que muitos ouvem as suas lorotas, que são contadas uma atrás daoutra. Há gente que já o ouviu em outras ocasiões e, por isso, alguns o fazem lembrar causos pitorescos da lavra do contador de histórias. Ô cabra mentiroso!

Na subida do barranco, o cabra olha para o rumo de cima e já cumprimenta o compadre Estácio, falando de um tio deste que havia esticado a canela lá no Seringal São Pedro, no Rio Xapuri. Muitos riram quando ele enfatizou que o homem batera as botas. E gargalharam mais ainda quando ele disse que o véi Zé Jaqueira dera com os costados nas labaredas do inferno.

– Arre égua! – Foi o que ele disse, num sopro cansado, já em cima do barranco, ao que percebi, pelo sotaque mais pesado, que se tratava de mais um sertanejo lá das bandas da Serra da Meruóca, no Ceará.

Na realidade, ele viera para, junto comigo, fazer uma revisão nas contas do Seringal Triunfo, Rio Xapuri, de propriedade de Júlio Oliveira. Mas isso seria feito lá pra segunda-feira. Agorinha mesmo, o homem só se ocuparia da sua pabulagem mais enrolada do que cabelo pixaim.

Com as calças arregaçadas até o meio da canela, pediu um trago de conhaque. Acendeu um porronca e se dirigiu para a escada onde sentou no degrau de riba já arrodeado de seringueiros que lhe cumprimentavam efusivamente. (Cá de minha parte, o Lascanheta é um mentiroso dotado de um estilo bem aos moldes dos tantos que conheci em Fortaleza.)

– Mas homem! Seu menino! Você não sabe o que aconteceu lá no Seringal São José. – Disse olhando logo para mim.

– Rapaz, o Gregório Calixto, o proprietário, passou uns oito meses se batendo com um problema muito sério. A cada quinze dias, sumia uma rês da criação dele e ninguém dava notícia alguma. O prejuízo era maior ainda porque as que desapareciam eram sempre vacas ou bois já em ponto de abate ou de venda. Até cavalo e burro estavam sumindo.

– E foi aí que ele, num domingo de madrugadinha, já quase na amanhecença do dia, quando chegava de uma festa na casa de um vizinho, o Pergentino Alves, olhou para o rio e focou a lanterna. Lá ele viu um par de cornos compridos que afundava em meio a um grande rebojo. Pela ponta furada dos chifres, ele reconheceu tratar-se do Folgado, um boi de arrasto muito útil em tempos de moagem. Uma grande perda.

– Ainda no mesmo domingo, ele espetou um galo velho num anzol de três polegadas. Num piscar de olhos, o bicho sumiu. À noitinha, ele espetou um carneiro num anzol maior ainda e o deixou a uns três metros da beira da água. Lá pelas dez, ele viu uma cobra muito grande que arrastou o bicho para o rio. A cabeça e o pescoço da serpente muito pareciam com o tronco de uma seringueira das maiores, a spruceana.

– Já de manhãzinha, ele mandou o Nêgo Aristide ir, durante a semana, ao maior número de colocações, chamar a seringueirada para um adjunto no domingo que viria. Com as próprias mãos, confeccionou um anzol a partir de um pedaço de ferro de uma lancha que havia afundado por ali há muito tempo. E haja lima e haja suor. Certo é que no sábado o artefato pesqueiro já estava pronto e encastoado a uma corrente grossa daquelas que os bolivianos usaram no tempo da revolução.

– No domingo, então, já com uns quarenta seringueiros na beira do rio agarrados à corrente, ele matou com um tiro de rifle e lançou o boi Mascote que já andava adoentado há algum tempo. O bicho era grande e ficou mais ou menos na beira d’água.

– Foi aí que a cobra apareceu e quis se engasgar com o boi, mas o levou para dentro do rio. Enquanto isso, em terra, a força dos homens era enorme. Deu nove e deu dez e deu onze e deu doze e a peleja continuava. Nem um lado nem o outro cediam um passo.

– Certo é que, antes desse cabo de guerra, lá em frente do barracão do Seringal do Gregório, o Rio Xapuri era um estirão de mil metros. Hoje, se você for lá, vai ver é uma curva bem grande. A força dos seringueiros e da cobra, de um lado e do outro, foi tão grande que o rio entortou.

Um pigarro, uma cusparada marrom com os restos do tabaco que mascava e uma xícara de café.

– Vocês já ouviram falar do seu Santana, lá do Seringal Equador? Dessa história eu fiz parte. Eu fui lá, vi o que estava acontecendo e, juntos, findamos dando um jeito na situação.

– Em 1932, apesar do armazém novo e grande que o homem mandara construir, a castanha estava escassa como nunca, mesmo tendo sido o ano anterior de muita manga. Nunca se tinha visto algo parecido pela região. Aonde era para ter uma tonelada de castanha, tinha apenas cem quilos. Pior é que ninguém sabia a causa de tamanho prejuízo. Por mais que rezasse, as coisas pareciam ficar ainda mais difíceis. O Seringal Malheiro, no outro lado do rio, estava com a safra lá em cima e não havia mais aonde armazenar castanha. O Seringal Araquém, um pouco mais acima, também estava com a máxima produção. Só não o Equador.

– E foi aí que, numa quarta-feira, empreendi uma caçada nas terras do Seu Santana. De chegada, fui logo tomando ciência da situação. Almocei. Esgravatei os dentes. Proseei bastante e, lá pelas quatro e meia, saí para armar uma espera no pé de uma imbiriba que estava caindo de madura. Segui pelo aceiro do campo e, já na entrada da mata, depois de passar por debaixo de uma cerca de arame farpado, fui ouvindo e seguindo um toc- toc compassado que, à medida que se distanciava, eu ia me aproximando, porque passara a andar apressadamente. E cada vez eu ficava mais perto do barulhinho. Até que fiquei bastante próximo e me detive por trás de uma paxiúba. Tive aí então a visão mais impressionante da minha vida. Uma cotia daquelas de uns dez quilos ia à minha frente, sem me notar, andando e carregando dois ouriços debaixo dos braços, um equilibrado à cabeça e chutando outros dois: toc-toc-toc-toc… Lá na frente, avistei um monte de castanha que media uns cinco metros de altura. A bichinha estava fazendo estoque para que, nos doze meses vindouros, a sua família não passasse fome.

– E foi assim que eu descobri porque a castanha do Seu Santana estava escassa. No outro dia de manhãzinha, o homem já colocou todos os comboieiros e de tardezinha o armazém já estava novamente abarrotado para a felicidade do meu velho amigo.

E o Lascanha é um aço na arte de mentir. Nunca vi igual. Quase não toma fôlego. Antes do almoço, era um gole de café, uma ou duas baforadas no porronca, uma cusparada no chão daquelas no estilo cagada de pato, e tome prosa.

E veio a bóia. Carne de pato nu  –  sem pele, ao gosto do patrão  –  e afogado no sangue. O ordinário do visitante bradou:

– Parece que por aqui tão comendo muita carne de jacu. Tão adivinhando que é uma beleza. Tá tudo do jeito que eu gosto. Parece que foi feito por encomenda. Já agradeço.

Passada a sesta, um cochilo de uma hora de relógio grande. E o contador de causo voltou à cena com muito mais vigor. Agora, é uma dose mínima da cachaça Cocal, uma baforada e uma cusparada… E tome-lhe potoca:
– Uma vez, lá pras bandas do alto Purus, depois de Sena Madureira, no Seringal Santo Antônio, um conhecido meu de apelido Arigó tomou o rumo de uma estrada de seringa e, depois, passou a caminhar por um varador afora sem prestar atenção no quanto estava tomando distância da barraca. E haja perna. Era domingo de manhãzinha. Levava uma dezesseis na bandoleira, um bornal com vinte cartuchos e ia atrás de uma caça grande ou até mesmo uma imbiara com o que pudesse fazer um bom almoço para as suas oito crianças e a mulé. Pra lá, a mata é mais escura, mais selvagem que aqui. E ele se foi de madeira adentro. E haja pernada.

– Então, a mata ficou escura como breu. Ele não conseguia meter o dedo no próprio olho devido a escuridão… E andou uns dez minutos assim… Topa aqui, cai ali, levanta acolá, trambecando mais que bêbado em ladeira… De repente a claridade voltou. Ele continuou caminhando e só lá mais na frente é que olhou pra trás. O que o Arigó viu era muito espantoso. Lá ao longe estava a carcaça de um gigantesco jacaré de boca aberta, desses de uns trinta metros de comprimento e mais grosso que uma samaúma. Ele fizera uso da entrada de trás do bicho, houvera caminhado por dentro dele e saído pela boca do grande jacaré. Estava explicada a escuridão repentina.

Na volta, ele fez um arrodeio de modo a evitar o jacaré. Passado o susto, viu uma ninhada de cancão dos grandes. Mandou fogo, deu uma repuxada na espingarda, o chumbo espalhou e ele levou catorze frangotes para casa, onde o almoço foi farto, apesar dos canhões que teimam em não desapregar da carne da grande ave. Pense num homem de sorte!

– É como o véi Paraíba, um seringueiro lá da Vista Alegre, Rio Xapuri. Esse fez foi uma experiência muito forte no dia em que apostou com um amigo e compadre que colocara em dúvida a possibilidade de um veado em corrida ser alcançado por cachorros. Ele prometeu que traria o cervídeo apanhado a dente de dois cães, daqueles baixos e compridos, conhecidos por Totó e Zoada. Eram vinte mil réis. O velho tinha muito dinheiro porque cinco filhos adultos cortavam seringa na mesma colocação – Morro Velho – e tudo era administrado com mão de ferro por ele.

– Então, no dia combinado, ele trouxe a caça morta a umas duas ou três dentadas no gurgumin, para espanto geral.

– Não satisfeito, o amigo que o desafiara antes propôs que ele, mais uma vez, fosse à caça do veado, e ele topou. Correria mais dinheiro… Só que, dessa vez, no dia aprazado, o compadre ficou espiando de longe a arrumação do véi que, muito do seu esperto, arranjava umas enviras e amarrava um cachorro sobre o outro, costa com costa. Enquanto o de baixo corria, o que ia em cima descansava, e vice-versa, de forma a que, em uns quinze minutos o veado estava morto porque, na hora necessária, os cachorros desamarravam os nós que os prendiam um ao outro.

– Por isso, na casa do véi Paraíba nunca faltava carne de tudo quanto é caça, justo porque os seus cachorros eram danados de bons… E eu só fico é pensando no ensaio diário da coreografia dos bichos em altíssima velocidade… Pense num véi sacana!

* José Cláudio Mota Porfiro é escritor.

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