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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

“Estatuto do Idoso!”

No Brasil, setembro é o mês alusivo ao idoso. Nossos idosos, nesta época são alvos de toda sorte de comemoração que vai do  corte gratuito de cabelo, café regado a  frutas, lautos almoços, distribuição de brindes, além de se divertir, dependendo da região, com arrasta-pé. São homenageados pelas casas legislativas, com discursos que emergem da mais simples câmara municipal ao grande Senado da República, pois afinal por conta da publicação do novo censo, somos agora mais de 14% de uma população estimada em 200 milhões  de almas. Por conseguinte, os políticos que vivem de votos, estão de olho neste filão, uma vez que ainda votamos.

Entre os assuntos discutidos que envolvem as pessoas da dita 3ª idade me chama a atenção o fato da importância que tem para os que já passaram dos 60 anos, a leitura do Estatuto do Idoso, pois a maioria dos idosos e da população em geral desconhece, por descuido, os direitos, muitas vezes negados, aos que heroicamente ou por desígnio divino adentraram a senilidade. De repente caiu a minha ficha sobre o assunto, uma vez que estou entre os que já inauguram a velhice. Então, rapidamente tratei de corrigir minha negligência. Retirei cópia via internet para me esclarecer do que dispõe o Estatuto do idoso.  

Dentre as tantas prioridades que o Estatuto garante ao idoso dei uma olhada detidamente sobre o capítulo que trata dos transportes coletivos públicos urbanos. Reza o parágrafo 2º que: “nos veículos de transporte coletivo de que trata este artigo, serão reservados 10% (dez por cento) dos assentos para os idosos, devidamente identificados com a placa de reservado preferencialmente para idosos”.

Raras vezes me utilizo, aqui em Rio Branco, de transportes coletivos (ônibus). Mas, ano passado fui de ônibus do centro da cidade até a UFAC. Quando adentrei no coletivo, em frente ao Estádio de Futebol José de Melo, o ônibus já estava com todos os assentos ocupados. Notei que uma jovem ocupava um assento destinado a idosos. Como sou metido a “seu novinho” não liguei. Confesso que  apesar do incômodo de  estar em pé carregando alguns documentos e mais um garrafinha com água, o que mais me incomodou foi ouvir a jovem que ocupava o assento destinado a idosos, trocar figurinhas com outro jovem no outro extremo do corredor, sobre “questões acadêmicas”. Na metade do percurso, a cada parada, mais alunos e outros usuários iam chegando comprimindo o espaço e trazendo mais desconforto. Como não dava mais para “papear” a jovem,  que ocupava um assento destinado a idosos, retirou um óculos escuro da bolsa, colocou-o sobre a face, reclinou a cabeça e simulou dormir. Em síntese fiz  todo o trajeto em pé. Em nenhum momento do percurso alguém pediu, até por educação, para segurar os envelopes que eu carregava. Novos tempos! 

Esta prioridade do idoso de trafegar assentado em coletivos urbanos, em horário de “pico” é uma verdadeira utopia, porquanto temos testemunhado em reportagens diárias que nos grandes centros urbanos a maioria dos idosos não consegue, sequer, ter acesso ao coletivo, dado a quantidade de pessoas que acorrem para tal. Dentro do ônibus é aperreação total. Melhor seria ir de pé. Contudo, é como dizia o velho Sócrates: antes uma lei fraca do que nenhuma lei.

Assim, vejo com otimismo o fazer valer na prática o que dispõe o Estatuto do idoso, principalmente, porque num passado bem recente,  falar de idosos era falar daqueles que ilusoriamente, iam se retirando da atividade econômica buscando se aposenta e deixar de trabalhar. A maior parte de idosos não conseguia acumular economias necessárias para a velhice. Não produziam e  não consumiam de acordo com as expectativas, salvo no mercado farmacêutico; não interessavam ao sistema econômico vigente.  Idosos que por possuírem magra aposentadoria, insuficiente para se manterem independentes, acabavam indo morar com os filhos e noras ou genros, muitas vezes criando sérios conflitos, terminavam sendo encaminhados para os asilos onde quase sempre caiam em profundas crises de depressão.

Não compactuo com o pensamento quase generalizado de que as pessoas que já passaram dos 60 anos, são idosas em potencial para disputar o mercado de trabalho, passando a viver de bicos ou mendicância nas ruas das principais cidades Ninguém é suficientemente velho para em-preender no campo da educação e em outras áreas da vida. Sei, por outro lado que muitos idosos, por não terem status quo empresarial, político, religioso, etc., têm contra si o alto preconceito de uma sociedade pós-moderna que só enxerga o que é novo. Deste modo, sem apoio da família, são forçados pelas circunstâncias, a sair das atividades econômicas. Mas, essas são questões existenciais provenientes das desigualdades sociais, que alienam principalmente o idoso de origem humilde, e para as quais não há nenhum vislumbre de reparação. O que fazer, então, para levantar a autoestima de homens e mulheres que carregam o estigma de “velhos”?

Providos de sentimentos de sonhos e esperança, sigamos, então, o arquétipo de homens e mulheres que conseguiram na velhice suas melhores façanhas e ousaram desafiar a própria idade.

Este escrevinhador, quando está  entediado e enjoado deste mundo, busca inspiração para continuar sobrevivendo, por exemplo, no encanecido Catão que começou estudar o grego aos oitenta anos. Inspira-se em Platão que morreu escrevendo, aos 81 anos. Miguel Ângelo  escreveu poesias e projetou construções até aos noventa. Sófocles escreveu sua famosa tragédia Filocteto quando tinha oitenta e sete anos. Goethe terminou o Fausto, sua obra prima, aos oitenta e um. Ticiano completou o quadro “A última Ceia” quando tinha oitenta anos.

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