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Cláudio Porfiro
Cláudio Motta-Porfiro é romancista, cronista, poeta e palestrante. Membro da Academia Acreana de Letras. Email: [email protected]

Os velhos ladrões

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A sua mãe um dia lhe disse que mentir para os outros é muito ruim, mas você não ouviu direito. Nem ligou. Rodopiou sobre o salto quinze. Sorriu como uma hiena. Olhou de lado feito um javali mostrando os dentes sem nenhum medo. Chutou o pau da barraca. Deu de ombros como uma mariquinha descalça com os nervos à flor da pele de bumbum de bebê. Nem aí. Dane-se o mundo que eu não me chamo Edmundo.

 Então! Parece ilusão. Mas não é. É burrice mesmo, da grossa. E assim, para que estes escritos sigam para muito além do purgatório, em verdade vos digo que, segundo Maomé, 364, nos Textos islâmicos, os homens apreciarão as mentiras até o fim do mundo e relatarão anedotas como nunca ouvistes vós e vossos pais.

 Na Bíblia Sagrada, para ser politicamente correto, está escrito que cada qual mente ao seu próximo falando com lábios fluentes e duplo coração. (Salmos 12,3)

 Ora! Se eu quero roubar a tua alma ou o teu coração, ou se pretendo tomar posse do bem material que é teu, o meu ardil virá enfeitado por uma ou mais mentiras muito bem urdidas exatamente pelo ladrão que te pretende enganar. Ora, para te fazer o bem, dificilmente eu usaria a mentira. Nunca!

 Pois bem. Ao contrário da afirmação do parágrafo lá de cima, quando se disse que mentir para os outros é feio, mentir para si próprio é adultério contra a própria alma que, no vai e vem da eternidade, está sempre a esconder-se das labaredas da casa do demônio, tal qual o Dante de Alighieri pregava no seu inferno, em A Divina Comédia.

 Como sobreviveram e prosperaram os enganadores e ladrões maiores que a Humanidade conheceu desde tempos imemoriais, como espanhóis, franceses e italianos? Alguém os financiou, mas já não os financia. Os saques, a pirataria e as invasões às terras estrangeiras eram feitos por obra e graça de financiamentos milionários vindos dos monarcas patrões desses delinquentes históricos, juntos com os judeus neo-ortodoxos, ambos, mancomunados com a Santa Madre Igreja que àquela época  –  na Idade Média, e até depois  –  via-se envenenada por uma malta de padres assassinos, como os templários e os antigos jesuítas.

 Sim, os jesuítas que vieram para o Brasil não eram tão somente pregadores da boa nova do reino de Deus… Não, senhoras! Eles vieram para cá com o objetivo de iludir os índios para que estes trabalhassem como escravos para o enriquecimento de Portugal e da antiga Igreja Católica. Segundo eles, depois de mortos de fome e inanição os nossos silvícolas habitariam o reino dos céus. Uma ova!

 Eu próprio, em mil seiscentos e oitenta e poucos, na época em que ainda era um querubim de bunda gorda, conheci um sujeito de batina apelidado Frei Antonil… Este, sim, um grande pilantra, mandatário da Companhia de Jesus, uma espécie de administrador dos interesses da ordem e da Coroa portuguesa nos tempos do Brasil Colônia. E como esse camarada roubou! Pense num ladrão danado de metido a santo! Ele carregava no peito uma cruz de um palmo, em madeira escura, com o Cristo crucificado. Ah, ordinário!

 Esse Antonil, ao chegar à Bahia, tornou-se logo o inimigo número um de Antônio Vieira, o célebre pregador de boa alma e autor do fantástico Sermão da Sexagenária.

 Vieira discordava completamente dos métodos escravagistas do Antonil com relação aos índios brasileiros. Àquela época, o padre ladrão dizia aos quatro ventos que a consciência moral (católica) já estava inteiramente dobrada às razões do mercantilismo colonial. Por que a igreja não podia escravizar os índios se todos os fazendeiros já o faziam?

 Colocações como esta, inscrita no livro Cultura e opulência no Bra-sil, mais tarde, fizeram as delícias de Karl Marx. Eu, de minha parte, associei tudo isto diretamente às relações entre seringueiros e seringalistas amazônicos do século passado.

 Vamos dar um salto de quatro séculos. Já sou um humano comedor de tripa, bucho e mocotó. Virei macho, maxixe, maduro e doce. Se me lembro hoje nunca fui nenhum anjo ontem, até porque esta é uma época em que os espadachins devem exercer o seu papel de reprodutores com extrema competência, sob pena de serem acusados de atentado violento ao pudor e ao poder  –  gaypower  –  da rapaziada do chiclete e da alegria.

 Quando o Vargas Llosa escreveu A guerra do fim do mundo, a pata do boi já machucara, e muito, as últimas raízes de seringueira. Os homens da floresta, inclusive os índios, já se alojavam em barracos fétidos na periferia das cidades maiores do Acre. Chico Mendes, o ecologista, já se fora a passear em outros mundos em busca de mais e mais emoções.
O roubo praticado pelos ingleses, segundo o Joe, veio para matar a sede de riqueza dos seringalistas acreanos  –  muito em especial  –  que escravizavam os seringueiros no meio da floresta à cata de látex.

 A grande senhora dos mares era a Inglaterra. Era esta nação que dava as cartas e manobrava como queria o comércio internacional. Todavia, os magnatas ingleses não tinham nenhum controle sobre a borracha, que era exclusividade da floresta amazônica.

 Conforme o escritor americano Joe Jackson, acima descrito, para o Brasil do início do século vinte, a borracha era o que hoje é o petróleo para a Arábia Saudita. Uma riqueza estupenda.
A Inglaterra colocou em prática, então, o primeiro e mais marcante plano de biopirataria registrado nos anais da roubalheira mundial, quando contratou a peso de ouro um bioladrão chamado Henry Wickham que, de posse de um navio de grande calado, entrou de madrugada pelo Rio Amazonas adentro, enganou índios e seringueiros e os fez embarcar setenta mil sementes de seringueira que foram plantadas no Jardim Botânico de Londres. Daí as mudas foram para se tornar, depois, árvores adultas no Ceilão, Malásia, Cingapura e países vizinhos que, dominados pelos ingleses, passaram a ser os grandes produtores atuais da borracha com que são fabricados os pneus para os bilhões de carros que circulam pelo mundo inteiro.
E mais uma vez me vem a mente o Chico Buarque. Enquanto isto, dormia a velha pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações…

 Então, voltando para o imponderável século dezesseis, é preciso observar que os ladrões dos tempos gatunos  –  esses que dizimaram incas, maias, astecas e toltecas  –  foram importados diretamente de Espanha, pagos a bom dinheiro por dois monarcas altamente sacanas, o Fernando e a Isabel. O dinheiro ganho nos saques e nas invasões era dividido entre o rei, a rainha e a bandidagem extremamente habilitada para tal em treinos e matanças nas ruelas e becos escusos de Madrid, Barcelona, Pamplona, Alicante, Bilbao, dentre outras.
Em aqui chegando, os assassinos espanhóis passaram a exercitar o seu esporte predileto: matar índios americanos do sul e do centro e roubar-lhes riquezas geradas a partir da prata e do ouro produzidos em quantidades suficientes para arregalar a butuca dos ladrões mais audazes de que a Humanidade tem notícia, o rei Fernando de Aragão, o ganancioso, e a rainha Isabel de Castela, a aloprada.

 Os piratas e congêneres eram os ratos do mar. Ficavam por até seis meses à deriva, comendo peixe e bebendo água de chuva. Morriam de beribéri. Corpos pútridos eram atirados diariamente às águas. Até que um dia, avistavam uma ponta de pedra. Ali haveria o que roubar. Eles lá iam, matavam as pessoas e delas tomavam tudo o que havia de valor.

 E hoje? O que é feito dos espanhóis? Onde estão os herdeiros dos velhos corsários, piratas e bucaneiros de Itália, de Espanha, de França, de Inglaterra? Em quais dos infernos se escondem esses salteadores? Eles não mais roubam tanto porque já quase não têm a quem roubar. Os judeus são muito espertos. Os americanos do norte ensinam padre nosso a vigário. Os americanos do sul são muito pobres, e assim por diante. Em verdade, os europeus gatunaram meio mundo e agora são vítimas dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade que eles próprios criaram. É deveras engraçada a história. Talvez eles estejam mais pobres que nós cá do terceiro mundo. 

 Veja bem, dona principesca. Trago comigo interpretações da história bem ao meu modo, em que sejam consideradas as possibilidades de um engano ali e dois acolá. Todavia, uma falha dessas seria desculpável, pois, como escrevi dia desses, não mais sou um cientista. Habito já os campos etéreos da literatura. Exerço a tal licenciosidade poética. Por aí tem dito de mim ser apenas um cronista de meia tigela. Nem pronto, nem acabado, mas ao ponto.
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*José Cláudio Mota Porfiro foi dado à luz de um abril qualquer no Principado de Xapuri.