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O rei e eu

Pouso no Nordeste para rever pessoas e paisagens queridas. Aqui o verão segue animado pela música de Reginaldo Rossi, como sempre, mas dessa vez com um toque diferente. Não um luto meloso pelo “Rei do Brega”, morto em 20 de dezembro passado, algo mais para uma homenagem de justo momento como promessa de um reconhecimento perene.

No primeiro verão sem o Rossi sua obra toca na mesma quantidade dos outros anos, mas ganha volume na referência de qualidade. Quem pensa que tudo isso é falsidade de velório, vai mudar de ideia se ouvir o genial álbum “REIginaldo, um tributo”, gravado em 1998 por nomes novos e clássicos da melhor musica nordestina: Lenine, Cascabulho, Otto e, entre outros, Geraldo Azevedo numa versão arrepiante de “As quatro estações”.

Reginaldo encarnou o brega, mas sabia dialogar com todos os públicos e gerações. Era um showman. Sua linguagem desabrida matava de rir, mas levava uma mensagem de fundo. Pela igualdade entre homens e mulheres, contra a violência, coisas do bem. O Rossi transformava palcos em palanques.

Nos shows, antes de cantar “A raposa e as uvas”, filosofava: “esse negócio de cheirar cocaína não tá com nada; no meu tempo a gente cheirava a xereca das meninas”. No começo, parte da imprensa repercutiu escandalizada, foi ouvir até o arcebispo de Olinda e Recife. “Nunca ouvi apelo contra as drogas para falar tão direto com a juventude quanto esse de Reginaldo Rossi”, respondeu Dom Hélder Câmara e o rei do brega se tornou cult.

Na campanha de 1990 a lei eleitoral permitia os showmícios. Mas cantores na crista da onda cobravam fortunas. Então tive a ideia: Rossi anda meio esquecido, vamos contratá-lo. Houve resistência. Mostrei que custaria bem barato. Meu candidato aceitou.

Foi um sucesso! O Rossi transformava palanques em palcos. Cada comício era uma festa. O público delirava, só o candidato se desesperava quando Reginaldo começava a dizer que ele, o candidato, era responsável pelos chifres que ele, o Rossi, havia levado da mulher.

A prova que os showmícios com o rei do brega fortaleciam a campanha veio de jeito parecido com suas músicas. Uma bela noite pegamos Reginaldo no palanque do adversário. O outro tinha mais grana e nos tomou o Rossi.

Gilberto Braga de Mello
é jornalista e publicitário.
E-mail: [email protected]