Vadiagem, flanação, drogas e rock n’ roll

Convicção aguda paira sobre mim. Estou certo de que nós geramos, erramos, parimos e criamos muitas gerações de políticos sem sangue, sem suor e sem vergonha, com algumas exceções, é claro. Ainda pior é observar que fizemos descender, diretamente pela via da nossa testosterona, uma plêiade de jovens párias sociais que jamais dirão a que vieram, exceto esses filhos de uma parte da classe média que se tornam campeões do conhecimento em exames e vestibulares em todo o Brasil. Mais uma vez, Marx tem razão, porque ainda os ricos se tornam cada vez mais ricos.

Foi quando, então, bem próximo a mim, na praia, estava um grupo de mais ou menos dois rapazes e quatro moças em início de vida adulta e adúltera. Todos muito bonitos em seus corpos perfeitos, fumavam a maconha que Deus permitiu brotar em vasos chineses da dinastia Ming, dependurados nas janelas dos seus apartamentos de um milhão de dólares. Tudo muito normal.

Como naquele show denominado ponta de conversa  –  cá com a minha latinha de cerveja já colada aos lábios igual batom  –  fui captando as mensagens, ou parte delas, de um ou de outro do grupo, principalmente, de um sujeito louro que beijava de vez em quando a boca de um negão. Esse era o senhor boquirroto. Especialista em tudo, como todo bom carioca, falava pelos cotovelos sem se preocupar com alguns tímpanos em forma de abajur ou gravador de polícia feito os meus.

As moças pouco falavam e muito mais se dedicavam ao seu labor com cheiro de fumaça e parco sabor de hímen evadido. Duas delas deixavam por algum tempo as pontas dos cabelos compridos embebidos em uma substância, parece-me, composta por erva doce e coca-cola, de modo a tornar a metade das madeixas meio alouradas. E eu só filmando, entre aspas.
O louro pareceu-me chamar-se Levs. O negão talvez fosse Richardson, ou apenas Rick, e o diálogo entre os dois girava em torno de abobrinhas, amenidades e babaquices de toda ordem.
Todavia, o que me deixou embasbacado de verdade foi a temática central da prosa:

– Tenho uma mãe bem moderninha que me permite usar os seus badulaques femininos, principalmente, a maquiagem. Olha, Rick! Amo de paixão. Meus pais vieram do Sul há muitos anos, quando eu ainda não era nascido. São catarinenses e o meu velho era militar de primeira ordem, tendo deixado uma pensão gordíssima de forma a sustentar todos os meus luxos e vícios. Só tenho uma ressalva: odeio estudar! Não me entendo com os números e muito menos com a redação. Detesto escolas, professores, obrigações, uniformes, pontualidade e essas coisas que me prejudicam o sono da manhã… Basta o segundo grau que fiz por encomenda, pelos correios.

– Levs! As nossas historinhas parecem muito uma com a outra. Por isso nós nos aproximamos. Minha mãe ficou mental depois de um acidente de carro, em 98. Meu pai era alto funcionário do banco central e hoje está aposentado. A mania dele é comprar livros para que eu os leia. Odeio isso. Detesto ler. Outro dia ele comprou o de um escritor chamado  Robinson Crusoe e, agora, quer a todo custo que eu o leia. Pode?

Minha alma saltou da cadeira e corcoveava na areia rindo sem parar. Batia na barriga. Saltitava feito macaco de butuca cheia. Quiospariu!  Quanta burrice. Crusoe era o navegador personagem fictícia do livro do mesmo nome escrito por Daniel Defoe… Vá-se!

É desse jeito, minha senhora. Assim caminha parte humanidade considerável nascida no Brasil varonil. Um não quer estudar e o outro tem ódio dos amados livros com os quais o Lobato construiria uma nação. Quo vadis? Pra onde estamos indo?

Se morassem no interior de Minas ou de São Paulo, teriam como brinde uma enxada ou um facão para suar debaixo dos cafezais e canaviais da vida doída de quem não nasceu para a vadiagem.

– Tuti, minha linda! A segunda-feira é um porre. – Palavras do sutilíssimo Levs. – Acordar antes de meio dia é crime hediondo que mamãe jamais cometeria justamente porque me ama.
E todo o grupo houve por bem concordar com o desânimo que brinda os preguiçosos na melhor manhã da semana, a do planejamento às vezes não tão estratégico.

Ao que a Tuti fez complemento bem compreensível, tendo em vista as ancas largas e bronzeadas que precisam descansar de dia, porque a balada noturna pode revelar surpresas muito agradáveis, talvez, na Barbarela, o rendez vous da Viveiros de Castro:

– Baby! Concordo de unha e cutícula. Trabalhar não é o meu forte. Não nasci para isso. Vim ao mundo de férias e não a serviço. Não sou mulher de ver o dia raiar a partir da feira ou do açougue. Poupe-me de tanto esforço. Dá licença!

Aí foi a vez de Samantha, uma morenaça rabuda:

– Apesar de eu não ter emprego porque dele também não preciso, bom mesmo é no dia anterior ficar planejando toda a flanação daqueles longos feriados a perder de vista. Que beleza! Acho que toda semana deveria ter um desses que começa na quinta e só para na segunda, posto que este é o dia nacional da preguiça.

– Da forma que vier está tudo perfeito, do tipo praia e sol, maracanã futebol, como na música do Bebeto. É claro que aí eu acrescentaria uma boa balada na Lapa ou no Baixo Gávea, justo porque ninguém é de ferro. – Foi o que disse uma terceira guria ruiva e sinuosa, recém chegada, cujos olhos se encontraram várias vezes com estes  –  que a terra há de comer  –  durante o meu turno no posto de observação na Praia do Leme. Parece ser chamada Melany.

Havia uma com os lábios tingidos de um certo batom estilo vermelho puta. Do depoimento um tanto caótico da moça  –  falado em péssimo português, posto que entremeado por gírias paupérrimas  –  observei apenas que ela gostava de umas músicas tidas por mim enquanto imorais; destas cujas rimas são fracas, as obscenidades reverberam, as melodias medíocres e as palavras, toscas, chulas. Já na décima Skol, pensei mais um menos assim: se ela ouve o bolero de Ravel, agora, tiraria calcinha e sutiã, aqui, na praia, para o deleite da vagabundagem que a espreita, inclusive este que vos escreve estas tão mal traçadas linhas.  

Foi essa micro quenga quem arrematou do alto do seu pedestal prostibular:

– Na verdade, eu queria era ser sustentada pelo programa bolsa família. Pena que eu não tenho filhos e, por isto, fico encostada nos favores da minha avó pensionista da marinha, que me dá de um tudo.

E ela continuou:

– Pena que a vovó tem mania de querer me acordar cedo, porque ela não sabe que eu sou do vai-e-vem da Prado Júnior, na maioria das vezes até quatro da matina… Mas não ligo. Apenas não acordo até chegada a hora do rosbife e, depois, do rolé aqui na praia.

Supimpa foi o arremate do Rick, já todo derretido, desmunhecado, indócil, frívolo, frufru, flor de lis e maçã na bunda do maiô:

– Minha vida só não é mais perfeita porque os políticos brasileiros são uma grande porcaria, uns imbecis e incompetentes. Se assim não fosse, seria muito melhor para nós que saboreamos a vida enquanto parte inativa da classe média baixa abundante no Leme. Prestem atenção! Votarei na Regininha Poltergeist, ou na Bruna Surfistinha. Basta que elas se candidatem a qualquer merda.

Pirei na maionese. Urinei no mar, outra vez. Mamei mais uma latinha. Não ri, nem chorei, mas me senti o típico basbaque brasileiro que trabalha e carrega o piano enquanto a nata da malandragem vai em cima sem sequer saber tocar, sambando e dançando no maior astral… Estes são os filhos originais do meu Brasil varonil. Puta que o pariu!

É em vista de uma realidade malandra como esta que alguns estudiosos da pós-modernidade terceiro-mundista criaram uma nova categoria de análise. Trata-se da geração NEM-NEM formada pelos que nem estudam, nem trabalham, mas dão uma despesa enorme para a nação quando compram droga morro acima, alimentam a violência do tráfico e, depois, quando doentes, se locupletam nos hospitais públicos à custa de quem paga os impostos mais escorchantes do mundo, como é o meu, o seu e o nosso caso.

– Que poooorra é essa! – Grito em bom carioquês.

É revoltante, sim, dona Francisca. Peço até desculpas pelo palavreado.

* Cronista e articulista jornalístico nascido sob o sol morno de um abril qualquer do século anterior, no Principado de Xapuri.
www.claudioxapuri.blog.uol.com.br
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