Jardins de ossos em noites de rocambole

Todo dia ela passava pela calçada da mesma rua, o corpo vinha vestido e a alma andava nua. Ele não lhe dava o alimento e muito menos o sustento que à moda do fermento faz o ventre liso crescer. E a paixão era tanta, crescendo como se fosse planta da tarde ao alvorecer. À porta ela um dia bateu e de lá viu sair o seu Romeu em pijama de cetim. Desconfiada com a doida novidade, jamais pensou qualquer maldade, mas pediu explicação.

O Romeu ficou surpreso diante do farto peso daquela interpelação. Não era ela tão inteligente, mas no meio da sua gente bem transmitia razão. Por mais que o gajo explicasse, ninguém ia entender o disfarce nessa má situação. Foi aí que uma Ametista com jeito de jornalista desfez a tal confusão. O janota era moderno desses que usam terno da cor do pimentão. O sujeito era educado, mas naquele lugar acanhado não valia um tostão.

E por aí vai…

Senhora dona Francisca, peço até desculpas pela firula e também pela brincadeira sem graça que faço com o cordel. Não me leve a mal…

E foi por um desses dias claros que, de repente, não mais que de repente, bem ao meio-dia, se fez noite escura e a fúria da natureza redesenhou jardins de ossos em noites enluaradas. Misturaram as bolas e o rocambole. Nasceram meninos quase homens de todos os naipes e estilos, como sequer Deus tenha um dia imaginado. Coisa de louco.

Ocorreu, sim, daí em diante, que umas e outras houveram por bem enfiar os machos da modernidade em gavetinhas diversas, como se todos não houvéssemos sido criados à imagem e semelhança do espírito absoluto. Não entendo porque temos sido classificados em tipos ou espécies. Já tentei me enquadrar em um dos arquétipos e não coube em nenhum, mas em todos, visto ser este poeta, enquanto humano e insano, cheio das melhores e das mais vis qualidades, com certeza.

Daí então, encontrei uma amiga da alta roda, de nome Harriet. Formada em psicologia numa dessas escolas francesas onde se aprende, principalmente, o gozo da vida, a moça conversava pelos calcanhares trepados em saltos da dinastia do rei sol. Cheia das informações, posto residir na França, depois de três ou quatro dedos de prosa, houve por bem pespegar-me mais um dentre tantos rótulos:

– Você é exatamente o que as mulheres modernas chamam homem alfa, sem tirar nem pôr. Já notaste?

Então ela enveredou por uma explicação de onde só consegui tirar uma síntese segundo a qual o macho alfa é o indivíduo dominante e confiante. Tem elevada capacidade de sedução e conquista, e algumas outras características mais.

Mais tarde, em casa, considerei a possibilidade de outros homens terem outros rótulos, como seria normal, porque foram as fêmeas mais seletivas que inventaram o disparate da catalogação dos machos.

Depois, bem depois, em festa quase paroquiana, não fosse o boteco de baixíssimo nível, uma moça de outras viagens, Hollie, amiga colorida em batons vermelhos, ruges carmins e papel de seda, houve  por bem catalogar-me entre os machos da plaquetinha beta no meio da testa.

Ela, também muito viajada, rodada mesmo, queria a minha pele para tamborim, a companhia e o meu algo mais. Assegurou-me que este tipo beta é charmoso, carinhoso, atencioso e manda uma mensagem de bom dia, na manhã seguinte àquele jantar incrível. Além disso, sabe cozinhar, tem ótima sintonia com as crianças, não é ciumento e não reclama se a esposa chega tarde da happy hour com as amigas. Para completar, depois do filme acompanhado de brigadeiro de panela, é ele quem enfrenta a esponja e o detergente.

Para fazer um arremate à confusão instalada na minha ideia, uma ex-namorada, Jodie  –  aquela dos anos noventa  –  afirmou pelo facebook que eu merecia ser classificado entre a espécie dos metrossexuais, uma vez que, segundo ela , gosto de me vestir bem e de estar na moda. Invisto em roupas caras e em acessórios sofisticados. Frequento cabeleireiros, institutos de beleza e academias de ginástica. Cuido da pele, uso cosméticos, bons perfumes, e assim por diante… Quase acreditei.

Fiquei estupefato. Perplexo. Passei horas um tanto meditabundo, até descobrir que, depois de ser colocado em tantas caixinhas e taxado com esses adjetivos pós-modernos, há ainda um departamento densamente povoado. Lembrei, então, a existência de um sujeito à frente da nossa era. Um bon voyeur por excelência. Trata-se de Tyler Dreyffus, primo meu querido residente no condado de Climerious.

Depois de uns meses, de tanto ouvir dele falar mal a família, passei a catalogá-lo e enfiá-lo dentro de uma gaveta maior onde se arquivam  –  pelo menos virtualmente, porque cafajeste não se pode guardar  –  os espíritos de porco da novíssima geração cê-vê-éle.

Tyler não é ordinário, é extraordinário, como todos da espécie. Diria ser um cachorro vira lata, ou cê-vê-éle. Acredite se quiser! O tal não liga para as traições de uma ruiva dama de companhia, com ele casada em cartório, de talentos mui especiais, que teve um filho louro e um negrinho, sendo que ele é cafuzo descendente de moicano. Depois de feito o dê-ene-á, então, o Tyler disse que pai é aquele que cria, e ficou por isso. Meses mais tarde, enfim, o mal afamado enfiou dois guris na irmã loura da esposa sacana. Os meninos gêmeos saíram com cara de índio e ele se meteu, agora, com uma rica prostituta de meia idade que lhe sustenta e dá de um tudo.

Pensando nessa merreca toda, lembrei que o Mark Twain escreveu alguma coisa parecida com o aforismo segundo o qual se o homem tivesse criado o homem, teria vergonha da sua própria obra.

* Cronista nascido sob o sol morno de um abril qualquer do século anterior, no Principado de Xapuri.

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