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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

Os bens modelares de uma pessoa diante da vida

Há certa altura da vida senti necessidade de tomar grande e difícil decisão comigo mesma. Então, naquela ocasião eu me perguntei: “Essa decisão deve vir da razão ou do coração”? Após refletir bastante, tomei a decisão mais alinhada naquilo que pedia o coração. Os resultados não foram aqueles esperados, mas não por culpa minha, muitos outros corações entraram em ação e não souberam negociar comigo. Senti-me derrotada, mas depois senti que havia agido com correção. Por isso mesmo ainda hoje estou tranquila e confiante que o coração não engana e não mente. E embora haja corações egoístas, malabaristas, o meu será, sempre, um coração puro e pleno de amor.

Então, refletindo sobre esse fato passado, as ações presentes e as perspectivas do futuro eu vejo três palavras que embora sejam semelhantes, definem 3 valores humanos que julgo de extrema importância. Delas trata o texto de hoje.

Sob o  aspecto conceitual esses valores – VERDADE, SINCERIDADE E HONESTIDADE – são muito diferentes, e cada pessoa possui um referencial e uma profundidade específica para analisá-los. Aqui, faço uma reflexão das nuances de cada uma dessas palavras (ou valores humanos). Para mim são esteios da vida.

VERDADE – Como descrevê-la? É um valor individual que está relacionado à percepção que cada pessoa tem em relação às coisas ou fatos da vida. As experiências vividas, a percepção de mundo, as características de personalidade fazem com que cada um modele a “própria verdade”, sobre um determinado assunto e olhar sobre a vida. Por isso mesmo a verdade parece ser algo individual… E um exemplo claro dessa assertiva é este texto, que traduz “a minha verdade” sobre este valor humano. Assim, o leitor poderá concordar ou discordar, afinal cada um tem a própria verdade e não há como não perceber isso. Mesmo assim ela deverá ser permeada pela boa lógica da vida.

SINCERIDADE –  A “sinceridade” é tratada pelo modelo de classificação de valores humanos como um “valor social”. Se uma pessoa é sincera não necessariamente está sendo ética ou utilizando a consciência sistêmica coletiva. A sinceridade é pessoal, porém afeta o coletivo, positivamente ou negativamente. Tudo depende do contexto e da intenção do agente.
Ser sincero requer coragem e integridade. Muitas vezes ser sincero pode ferir a imagem que as pessoas criam umas das outras. Em outras ocasiões ser sincero fere regras sociais e de convivências. E, às vezes, ser sincero pode ofender ou desapontar pessoas de um modo geral, em função das expectativas que os seres humanos são mestres em criar em relação aos outros.

E a falta de sinceridade? O que ela pode causar nas relações? Em um mundo aberto, onde nossas vidas estão expostas e escancaradas de variadas maneiras – redes sociais, Google, meios de comunicação, informações fiscais, CPF, não é mais possível manter a máscara da falsidade por muito tempo. Está tudo muito exposto, aberto. As verdades afloram. Então, ser sincero é um requisito fundamental à paz e à integridade das pessoas.  Por isso, talvez, o adágio popular: “Não faça aos outros aquilo que não quer que lhe façam”.

Ser sincero hoje não é mais uma opção. É obrigação. Neste caso eu não posso ofertar, no texto, escolhas. Não há opções a apresentar para configurar o valor de “verdade”, que poderiam ser algo como concordar parcialmente ou discordar. Sinceridade é um atributo que deve ser incorporado aos gens de todos os seres humanos. Isso porque no mundo atual não há mais espaço para sobreviver muito tempo a base de mentiras, falsidades. Isso faz da vida algo insuportável quando é preciso lidar com pessoas desonestas, mascaradas, arrogantes, falsas, que jogam com os outros como se fossem brinquedos. A alma humana é um tesouro que todos devem respeitar.

HONESTIDADE – E Honestidade, como classificá-la? Pergunto: Você, leitor é honesto?  Sim (  ) – Não (  ) – Às vezes (  ). Depois, mais uma pergunta: Alguém gosta de ser classificado como desonesto?  Eu penso que não. Honestidade é algo mais intrínseco, profundo, está ligado ao caráter, ao conjunto de valores e crenças que se adquire ao longo da vida.

Mas voltando ao valor elevado “Honestidade”, diz-se que ser honesto requer incorporar a verdade pessoal e analisar as atitudes e tomadas de decisões para ver se podem ser melhoradas/aperfeiçoadas. Requer ser sincero nas atitudes; congruente nos pensamentos, sentimentos e ações; e assumir atitudes honestas diante da vida, das pessoas. Ser honesto é estar conectado com algo maior, tais como: o senso ético; o valor de justiça; o senso de humanidade; o respeito e o amor pelas pessoas.

Por fim, eu acredito que ser honesto requer pensar e atuar de forma a gerar melhorias e igualdade no meio que nos abraça. Ser honesto é colocar-se à disposição das necessidades individuais, mas, sobretudo, à disposição das necessidades que fazem de nós seres humanos. E, nesse aspecto, deve-se, sempre, agir da melhor forma. A vida é única e ser bom, correto, honesto, leal, não requer malabarismos ou  metáforas. É a vida dentro da própria vida.

DICAS DE GRAMÁTICA

À FOLHA 22 ou ÀS FOLHAS 22, PROFESSORA?
– Juiz acreano pede informação sobre o uso correto: “O depoimento da testemunha encontra-se à folha 22, a folhas 22, as folhas 22 ou às folhas 22 do processo?” Meritíssimo, as duas primeiras formas podem ser utilizadas.

A história dessa expressão começa com a locução adverbial “a folhas tantas”, que quer dizer “a certa altura, em dado momento”. O autor do livro “Locuções adverbiais” (Curitiba: UFP, 1985) exemplifica assim: D. Maria a folhas tantas avocou o processo a si. A mulher a folhas tantas pôs-se a chorar. Daí a substituir a palavra “tantas” por um número foi um pulo. Alguém resolveu fazer assim e acabou se tornando tradição na área jurídica.

Transcrevo observação do gramático Napoleão Mendes de Almeida: “Na linguagem forense se diz a folhas vinte e duas – significa “a vinte e duas folhas do início do trabalho” como quem diz “a vinte e duas braças”. O mesmo se diga de”a páginas vinte e duas”.

O usual, nos processos,  é escrever abreviado:

–    a fls. 20 / a fls. 11 e 12 / a fls. 1 a 5 [nestes casos também se usa de fls. x]   

Mas nada impede que se adote a expressão de acordo com as normas gramaticais, distinguindo-se então o singular à [para uma só folha] do plural às [várias folhas]:

–    O depoimento se encontra à fl. 3 do processo.
–    Citado às fls. 3 a 9 ou às fls. 11 e 12 do processo.

A propósito, vale notar que é equívoco usar a expressão “a fls.” ou “de fls.” (assim sem o n°) como equivalente ou substituto para “conforme peça juntada aos autos / na petição inicial/ nos autos” ou similar. Por exemplo, em vez de dizer Condeno o réu a entregar o imóvel descrito a fls. ao reivindicante, diga Condeno o réu a entregar o imóvel descrito na petição ao reivindicante.

* Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia: Membro da Academia Acreana de Letras; Pesquisadora Sênior – CAPES