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Cláudio Porfiro
Cláudio Motta-Porfiro é romancista, cronista, poeta e palestrante. Membro da Academia Acreana de Letras. Email: [email protected]

Névoa densa em campos de algodão seco

Uma tarde, ela finalmente se foi, depois de dizer que apenas compraria um cigarro na esquina. Mas não demorou nem uma lua e já havia voltado, exatamente quando ele também já se houvera ido. E, quando ela mais uma vez partiu, ele estava de volta com saudades da amante. Ocorreu o desencontro num dia que se repetiu por muitos, e por meses a fio, até que um desistiu do outro. Alguém disse que, felizmente, não havia crianças no meio do idílio rocambolesco. Naqueles campos tórridos, fertilidade não existia nenhuma. Viço também não. Presente ali apenas uma névoa seca devastadora de corações e sonhos.

Lágrimas e entulhos do destino parco rolaram aos borbotões, ladeira abaixo, de parte a parte, cada um no seu quadrado, por densos dias que foram também muitos. Ele passou a viver das saudades em um cubículo escuro do cortiço da rua dos javalis. Ela se tornou apenas uma sobrevivente nos fundos da casa de uma espécie de senhorios maltrapilhos que lhe davam apenas o de comer, posto que o dinheiro tornara-se ralo para todos super viventes do mundo dos desvalidos daquela província estanque.

O amor existiu em uma época anterior, de qualquer maneira, pelo bem ou pelo mal, uma vez que a tônica era tão somente o acasalamento.

Vieram dias de sufocante trabalho –  e quase nenhum dinheiro – que levaram o homem a fugir dos parcos princípios morais nunca adquiridos e enterrar-se em um antro de jogatina e bebedeira. Em fins de semana, numa aventura sem fim, ganhava e perdia o que não tinha. Apenas uns trocados ele levava para casa, depois de haver, mais uma vez, ido à lona. Uns pães, algum feijão, rala farinha, tripa, bucho e mocotó de boi. E só.

Não se maldizia, nem falava nada que significasse perseverança. Olhava para ela, ainda uma morena enxuta, e abaixava a cabeça já no rumo do banheiro. Para espantar o marasmo, ela cantarolava uma modinha qualquer, bem triste, bem singela, bem agourenta, que muito dizia do seu estado de espírito, da sua desolação. Nada houvera dado certo. Por isto, nenhuma palavra de ambas as partes. Nem juras de amor, nem discussões acerca do que ambos tinham certeza.

Um dia, a fonte secou e ele, paulatinamente, foi deixando de arranjar os biscates com o que ganhava ralos caraminguás. Depois, adoeceu gravemente vindo a ficar hospitalizado por meses a fio. Contraíra o mal dos derrotados. Sofria de tristeza degenerativa. Já não acreditava em si próprio e por ali não havia quem lhe desse a mão, ou o ombro. Muito menos ela. Disseram a esta época que o dinheiro havia sumido pela porta e o amor pulara a janela, e ninguém dele nunca mais deu conta. Uma lástima.

Ela, no início, nada fazia. Cantarolava sempre. Jamais demonstrara afeto algum. À noite, ficava à janela olhando para as estrelas como se a perguntar sobre quais os motivos da sua desdita ao lado daquele palerma. Mais tarde, deitava-se ao lado dele na caminha sem conforto. Lá mal cabiam os dois que se encostavam meio sem querer e, depois, acasalavam porque, parece-nos, nada mais havia para fazer. Nem sonhar com dias melhores ou piores.

Depois, a preta passou a arranjar serviço enquanto faxineira. Comprou chita e renda e fez o seu próprio vestidinho. Passou a usar perfumes bem baratos, o que demonstrava algum pensamento positivo. O batom era de um vermelho vivo aliado ao ruge carmim. Alguma jóia de pobre estilo miçanga lhe enfeitava as orelhas e o pescoço. Uma vizinha arranjou um sapato à Luiz quinze sobre o qual só depois aprendeu a andar.

Ancas largas, rebolava facilmente como toda mulata da sua estampa. Chegava a impressionar alguns amigos fura olhos frequentadores do boteco da esquina. Foi quando ele deixou de jogar baralho e sinuca.

Não. Ela não arranjou nenhum novo amor. Mas também deixou de prestar atenção ao seu ex-apaixonado que pouco ou nada passou a significar. Fazia-lhe visita a cada primeiro domingo de cada mês, no hospital. Lá chegando, imperava o velho mutismo de parte a parte. Não havia mágoa. Apenas alguma decepção rasa lhes embotava a alma e a língua. Coitados. Não mais se aceitavam. Também não rompiam o relacionamento. Olhavam-se apenas, de longe. Ela, sentada a uma cadeira próxima ao leito da enfermaria. Ele, de pijamas desbotados, deitado no catre de ferro muito próprio das casas de misericórdia que abrigam pobres sem esperança. Sequer despedida havia. Nem um meneio de cabeça.

– Santa ignorância! – Eram as palavras da funcionária que tinha a cara daquela enfermeira alemã que matava judeus enforcados sob as suas garras de onça.

Sim, a ignorância aflorou à pele de ambos. Talvez um analista conseguisse dizer alguma coisa. Mas eles eram pobres e sequer sabiam da existência desse tipo de profissional tratador de almas refratárias. O doce do algodão houvera sumido mal completaram um ano do relacionamento. Alguma parca tenra mínima consideração apenas passou a existir. Nada mais que isso. E já era muito, posto tratar-se de duas almas secas como a névoa que povoa a madrugada do deserto.

Vi tudo à distância. Não ri. Não chorei. Não fiquei alegre ou triste, uma vez que já não tenho papas na língua para tal. Sequer possuo tutano suficiente para emoções tardias ou mais ou menos baratas. Apenas analisei a situação com os meus olhos de lince estrábicos e cansados. Precisei chegar à conclusão segundo a qual o diálogo sustenta o amor. Comunicar-se é a habilidade social que conecta as pessoas.

Não. Eu não tenho a solução para os males que afligem a alma. Não trago na algibeira o cálice dos remédios que cicatrizem as feridas do coração. Todavia, é inegável que mulher não vem com manual de instruções ou certificado de garantia. Assim como, todo homem sai da fábrica com defeitos em peças e até em sistemas. Como parte considerável delas, também a maioria deles deveria ser denunciada aos órgãos de proteção ao consumidor enquanto produtos avariados pela insensibilidade, insegurança, inabilidade, falta de diplomacia, deseducação doméstica, incompreensão, libido de mais e sinceridade de menos.

Vejamos, então. Não é exatamente necessário que as mulheres sejam tolerantes com o desmando de quem quer que seja, principalmente, vindo do calhorda com quem houve por mal casar ou se amasiar, o que dá no mesmo. Mas é preciso que sejam mais dialógicos e mais diplomáticos. É conveniente, sim, que ambos se façam compreensivos, mas apenas até onde todos os argumentos se esgotarem.

Há um aforismo brasileiro segundo o qual, ser diplomático é discordar sem ser discordante… Não é necessário ir às vias de fato. Não tem aí o porquê para a briga, nem para o desembainhar das armas. Como na letra do samba, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Da mesma forma, considero que ser espirituoso é a metade de ser diplomático. Antes da briga, alguém pode tentar contornar a situação pela força do riso. Rir é sempre o melhor remédio. Mas também, não é preciso entrar naquela de que compreender é perdoar. Isso vicia a eles e elas.

Eu, por exemplo, poeta medíocre e diplomata vão, sou filho de uma casta de nobres sem arrimo. Busco compreender os desalinhos de ambas as partes. Casei e batizei pelo menos umas oito vezes. Tolerei mulheres chatas por um dia. Já tive donzelas algumas e meretrizes muitas, em paráfrase a um poeta de Vila Isabel.

Certo é que os caminhos são muitos e os atalhos existem em profusão. Por isto, em verdade vos digo que, se o lobo compreendesse os cordeiros, ali mesmo morreria de fome.

*Cronista nascido sob o sol morno de um abril qualquer do século anterior, no Principado de Xapuri:
www.claudioxapuri.blog. uol.com.br.