Os bens modelares de uma pessoa diante da vida

Há certa altura da vida cada pessoa sente necessidade de tomar decisões difíceis. E essas decisões devem nascer da razão ou do coração? Após uma reflexão é possível observar que, comumente, as decisões estão alinhadas ao coração. As pessoas desejam ser felizes e afastar de si aquilo que incomoda, faz  mal.

Os resultados dessas decisões difíceis nem sempre são aqueles esperados, não por culpa de A ou B, mas porque na vida as pessoas lidam com muitas emoções e muitos corações. Cada um ser é um mundo particular. E embora haja corações egoístas, malabaristas, enganadores, as pessoas devem tomar por modelo o que há de melhor e agir, sempre, com a verdade, a sinceridade e a honestidade.

Sob o  aspecto conceitual esses valores – VERDADE, SINCERIDADE E HONESTIDADE – são muito diferentes, e cada pessoa possui um referencial e uma profundidade específica para analisá-los. Aqui, faço uma reflexão das nuances de cada uma dessas palavras (ou valores humanos). Considero-os esteios da vida.

VERDADE – Como descrevê-la? É um valor individual que está relacionado à percepção que cada pessoa tem em relação às coisas ou fatos da vida. As experiências vividas, a percepção de mundo, as características de personalidade fazem com que cada um modele a “própria verdade”, sobre um determinado assunto e olhar sobre a vida. Por isso mesmo a verdade parece ser algo individual… E um exemplo claro dessa assertiva é este texto, que traduz “ a minha verdade” sobre este valor humano. Assim, o leitor poderá concordar ou discordar, afinal cada um tem a própria verdade e não há como não perceber isso. Mesmo assim ela deverá ser permeada pela boa lógica da vida.

SINCERIDADE –  A sinceridade é tratada pelo modelo de classificação de valores humanos como um “valor social”. Se uma pessoa é sincera não necessariamente está sendo ética ou utilizando a consciência sistêmica coletiva. A sinceridade é pessoal, porém afeta o coletivo, positivamente ou negativamente. Tudo depende do contexto e da intenção do agente.

Ser sincero requer coragem e integridade. Muitas vezes ser sincero pode ferir a imagem que as pessoas criam umas das outras. Em outras ocasiões ser sincero fere regras so-ciais e de convivências. E, às vezes, ser sincero pode ofender ou desapontar pessoas de um modo geral, em função das expectativas que os seres humanos são mestres em criar em relação aos outros.

E a falta de sinceridade? O que ela pode causar nas relações? Em um mundo aberto, onde nossas vidas estão expostas e escancaradas de variadas maneiras – redes sociais, Google, meios de comunicação, informações fiscais, CPF, não é mais possível manter a máscara da falsidade por muito tempo. Está tudo muito exposto, aberto. As verdades afloram. Então, ser sincero é um requisito fundamental à paz e à integridade das pessoas.  Por isso, talvez, o adágio popular: “Não faça aos outros aquilo que não quer que te façam”.

Ser sincero hoje não é mais uma opção. É obrigação. Neste caso eu não posso ofertar, no texto, escolhas. Não há opções a apresentar para configurar o valor de “verdade”, que poderiam ser algo como concordar parcialmente ou discordar. Sinceridade é um atributo que deve ser incorporado aos genes de todos os seres humanos. Isso porque no mundo atual não há mais espaço para sobreviver muito tempo a base de mentiras, falsidades. Isso faz da vida algo insuportável quando é preciso lidar com pessoas desonestas, mascaradas, arrogantes, falsas, que jogam com os outros como se fossem brinquedos. A alma humana é um tesouro que todos devem respeitar.

HONESTIDADE – E Honestidade, como classificá-la? Pergunto: Você, leitor é honesto?  Sim (   ) – Não (   ) – Às vezes (   ). Depois, mais uma pergunta: Alguém gosta de ser classificado como desonesto?  Eu penso que não. Honestidade é algo mais intrínseco, profundo, está ligado ao caráter, ao conjunto de valores e crenças que se adquire ao longo da vida.

Mas voltando ao valor elevado “Honestidade”, diz-se que ser honesto requer incorporar a verdade pessoal e analisar as atitudes e tomadas de decisões para ver se podem ser melhoradas/aperfeiçoadas. Requer ser sincero nas atitudes; congruente nos pensamentos, sentimentos e ações; e assumir atitudes honestas diante da vida, das pessoas. Ser honesto é estar conectado com algo maior, tais como: o senso ético; o valor de justiça; o senso de humanidade; o respeito e o amor pelas pessoas.

Por fim, acredita-se que ser honesto requer pensar e atuar de forma a gerar melhorias e igualdade no meio que nos abraça. Ser honesto é colocar-se à disposição das necessidades individuais, mas, sobretudo, à disposição das necessidades que fazem de nós seres humanos. E, nesse aspecto, deve-se, sempre, agir da melhor forma. A vida é única e ser bom, correto, honesto, leal, não requer malabarismos ou  metáforas. É a vida dentro da própria vida.

DICAS DE GRAMÁTICA
À FOLHA 22 ou ÀS FOLHAS 22, PROFESSORA?
– Juiz acreano pede informação sobre o uso correto: “O depoimento da testemunha encontra-se à folha 22, a folhas 22, as folhas 22 ou às folhas 22 do processo?” Meritíssimo, as duas primeiras formas podem ser utilizadas.

A história dessa expressão começa com a locução adverbial “a folhas tantas”, que quer dizer “a certa altura, em dado momento”. O autor do livro “Locuções adverbiais” (Curitiba: UFP, 1985) exemplifica assim: D. Maria a folhas tantas avocou o processo a si. A mulher a folhas tantas pôs-se a chorar. Daí a substituir a palavra “tantas” por um número foi um pulo. Alguém resolveu fazer assim e acabou se tornando tradição na área jurídica.

O usual, nos processos,  é escrever abreviado:
–    a fls. 20 / a fls. 11 e 12 / a fls. 1 a 5 [nestes casos também se usa de fls. x]

Mas nada impede que se adote a expressão de acordo com as normas gramaticais, distinguindo-se então o singular à [para uma só folha] do plural às [várias folhas]:

–    O depoimento se encontra à fl. 3 do processo.

–    Citado às fls. 3 a 9 ou às fls. 11 e 12 do processo.

* Luísa Galvão Lessa Karlberg IWA– É  Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Mestra em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense – UFF; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Membro perene da International Writers end Artists Association – IWA; Coordenadora da Pós-Graduação em Língua Portuguesa – Campus Floresta; Pesquisadora DCR do CNPq.

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