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Roberta D'Albuquerque
Roberta D'Albuquerque é psicanalista. Email: [email protected]

Glúteo médio

Você desandou nos hormônios. Tá toda estourada. O dermatologista enche a boca e sentencia: Ro-a-cu-tan. Você tem vinte e poucos anos e uma cara oqueizinha é ingrediente importante para seus planos de vinte e poucos anos. Ele te conta tudo que pode dar errado. Mas você parou no pêssego. “Vai ficar que nem um pêssego”.

Na volta do médico, passa do táxi direto para a Drogasil do lado de casa. O moço do balcão cochicha: “também estou nessa. Seis meses já”.  Ele te passa um pedaço de papel. Receitou hidratantes para cada parte do seu corpo. “Vai secar tudo. Vai secar até cortar”, diz baixinho. Ele gosta do que está dizendo. Vocês fecham a brodagem ali mesmo.

Todo mês igual. Enquanto assina a papelada para renovação da receita, você troca com o moço confissões desérticas. Dois pêssegos. Você esquece um dia de pílula e passa a noite sonhando com a papelada. Jurou juradinho não engravidar. Jurou para a própria Anvisa, com assinatura, data e cópia carbonada. “Só se a gente partir para o injetável”. É o doutor Marcos,  ginecologista, falando. Você, definitivamente, não quer ser responsável pelo destino difícil de uma criança que nem sequer estava nos seus planos. Você, definitivamente, desconfia ser irresponsável demais para uma criança.

Você é filha de homeopata, nunca tomou uma injeção na vida. Mas, topa. Na farmácia te colocam numa sala atrás do balcão. “O farmacêutico vai te atender, pode se preparar”. A sensação é a de que um procedimento seríssimo estará em curso em poucos minutos. Embora a coisa toda se trate de uma aplicação de medicamento injetável de rotina. Bem, pelo menos para eles. Você leu “aplicada via intramuscular” e visualizou o glúteo médio. Aquele glúteo médio que segue, quase que na totalidade dos dias, escondidinho de todos. Você pensou na calcinha apropriada para a ocasião. Há uma certa cerimônia nessa escolha. É discreta, composta e semi nova.

Você respira fundo, toma coragem, abaixa a calça e calcinha até o joelho. Encosta na parede e espera a agulha naquela pose que os meninos fazem no muro quando são revistados pela polícia. Seu amigo aveludado abre a porta. Era ele o farmacêutico. O moço é só espanto. “O que é isso? Pode vestir”. A injeção deveria passar pouquíssimo da linha da cintura. Uma leve afastadinha de tecido resolveria  a questão perfeitamente. Ele te explica como funciona e essa é a última conversa que vocês terão. Você agora é cliente da Drogaria São Paulo.