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Realização de um sonho

“Meu melhor presente de Natal” declara picolezeiro que ganhou casa em vaquinha organizada por PM acreano

Aos 59 anos de idade, o picolezeiro Manoel Vieira vai passar seu primeiro Natal na casa própria

Seu Manoel recebeu a casa, no bairro Altamira, no dia 1° de maio deste ano. (Foto: Dell Pinheiro)

Em dezembro de 2020, Seu Manoel Vieira, picolezeiro de 59 anos, passou o Natal sozinho em sua casa alugada, no Alto Alegre, em Rio Branco. Neste ano, de forma inesperada, ele comemora seu primeiro Natal na casa própria, que conseguiu após um gesto de solidariedade e a criação de uma vaquinha online. Ele, que ganha, em média, R$1.300,0 mensais, comemora o final do ano com a realização de um sonho e com uma preocupação e gastos a menos.

Humilde e de poucas palavras, Seu Manoel representa muitos brasileiros que costumam ser invisibilizados pela nossa sociedade. Talvez você já o tenha visto pelas ruas sem nem sequer nota-lo, enquanto ele passa com seu carrinho de picolés entre as 8h e as 18h, pelas ruas da capital. Mas foi, exatamente, no último dia de 2020 que sua vida começou a mudar, fazendo com que ele fosse notado não apenas por um policial, mas por pessoas de todo o país.

Por meio da “Voa Vaquinha”, plataforma de financiamento coletivo do site “Razões Para Acreditar”, foram arrecadados R$113 mil para comprar uma casa para Seu Manoel. No dia primeiro de maio ele recebeu não apenas a casa, como toda a mobília, mas até um ‘banho de loja’. Neste ano, ele havia chegado a morar em três locais diferentes, sempre de aluguel. Hoje, o ‘mineiro acreano’ continua exercendo a mesma função, mas garante que o presente facilitou a vida.

“Depois que saí da (antiga) casa, melhorou muito devido eu não pagar o aluguel, já vai para oito meses que estou aqui e melhorou bastante. Eu nunca esperava um presente desse de Natal. Meu melhor presente de Natal foi esse, graças a Deus, final de ano passar tranquilo e sem pagar aluguel!”, comemora.

Localizada no bairro Altamira, a casa de Seu Manoel é simples, mas tudo é dele. Com o nome do projeto pintado no muro da frente e placas espalhadas pela residência, ele faz questão de mostrar e se lembrar do projeto que lhe ajudou a ter a casa. Dividida em sala/cozinha, banheiro e um quarto, a casa foi entregue com cama, geladeira, TV, fogão, sofá e tudo o que tem direito.

Sem filhos ou esposa, Seu Manoel não lamenta os momentos sozinho, mas se mostra realizado. “Sozinho e com Deus, e contando com vocês também! Vou passar o Natal aqui mesmo, pela primeira vez. Eu gosto da minha vida aqui (no Acre), aqui é muito bom para trabalhar”, comenta.

Aliás, ele conta ainda com a companhia de sua cadela, a Pipoca, que é quem toma conta do terreno de 12m x 45m. No quintal, o picolezeiro não perdeu tempo e já esbanja uma bela plantação de milho, quiabo e macaxeira. A casa bem cuidada e a emoção de seu Manoel, revelam a gratidão que habita naquele lugar, fruto de um encontro e gesto de generosidade o qual ele não deixar se apagar.

“Eu me lembro até hoje, às vezes estou sozinho e eu acho graça de lembrar daquele momento alí, não tem como esquecer não. Esse sonho realizado, em maio, desejo que todos realizem. Desde que seu Derineudo me procurou, e daquele dia para cá melhorou muito minha vida aqui, meu maior desejo é que muitos consigam também”, afirma Seu Manoel.

Policial Militar Derineudo dos Santos ajudou seu Manoel a vender seus picolés no dia 31 de dezembro de 2020 (Foto: Dell Pinheiro)

O dia em que tudo mudou

Seu Manoel e sua família vieram de Minas Gerais para o Acre quando ele tinha 17 anos, em busca de melhores oportunidades de vida. Assim como muitos brasileiros, ele não conseguiu terminar os estudos e largou a escola ainda no ensino fundamental para trabalhar. Hoje, os pais de seu Manoel não estão mais vivos e seus irmãos mudaram-se para Roraima. Mesmo assim, decidiu continuar sozinho em Rio Branco, onde vende picolés há mais de 20 anos.

Com seu trabalho, ele recebe cerca de R$40 a R$50 por dia, dependendo do dia. “A gente já se acostumou vendendo no ramo. A gente precisa ganhar nosso pão de cada dia. É um pouco difícil, porque não é todo dia que a gente vende bem, muito difícil mesmo”, confessa o mineiro que, mesmo com muita experiência nas ruas, não esperava pela abordagem policial que recebeu no dia 31 de dezembro de 2020.

Ele recorda que ficou desconfiado e até assustado quando o policial militar Derineudo dos Santos o abordou dizendo que o ajudaria a vender todos seus picolés naquele dia. “Nunca tinha recebido pessoas assim né, principalmente da polícia. Quando ele me abordou, pensava que eles viam comprar. ‘Meu Deus do céu’, pensei comigo, ‘agora complicou’. Mas aceitei o desafio”, recorda.

“Meu melhor presente de Natal foi esse, graças a Deus, final de ano passar tranquilo e sem pagar aluguel!”, comemora seu Manoel. (Foto: Dell Pinheiro)

Derineudo, que coordena o programa “Amigos Solidários” desde 2015, relata que por conta da pandemia ele não pode realizar a ação de Natal daquele ano, em que reunia várias crianças e famílias para entregar doações.  “Então eu pensei ‘quero fazer alguma coisa’ e na hora veio no coração ‘vai vender picolé, vai ajudar um picolezeiro!”, conta.

O que parecia simples para ele, soou estranho não apenas para seu Manoel, mas para a esposa de Derineudo, seu comandante da PM e várias outras pessoas que viram a cena na rua. Mesmo assim, recebeu o apoio e foi atrás de um picolezeiro.  Antes do mineiro, o policial encontrou um vendedor que disse vender apenas para passar o tempo, que não precisava do dinheiro. Até que ele viu seu Manoel passando em frente ao Horto Florestal.

“Lembro que ele ficou muito assustado. Saímos andando e as pessoas ficaram naquela dúvida: ‘o que que está acontecendo?’, ‘Ele está sendo conduzido?’ Não era isso. Foi um momento de impactar as pessoas com o amor ao próximo. Até ali não tinha nada sobre casa, vendemos tudo! Em casa, publiquei o vídeo no Facebook e, de repente, tivemos mais de 8 milhões de acessos”, afirma Derineudo.

Em pouco tempo o vídeo viralizou também no Instagram e o policial conseguiu contato com o “Razões para Acreditar”, que pediram para que ele soubesse sobre as condições de vida do seu Manoel. Ao constatar que ele não tinha casa própria, o programa criou a campanha de arrecadação virtual, pelo “Voa Vaquinha” e em três horas já haviam arrecadado R$60 mil.

Foi apenas nesse dia que seu Manoel soube sobre a vaquinha e chegou a ser abordado nas ruas por pessoas que diziam que a situação não era real e que ele não ganharia nada. Foram necessários dois meses após a vaquinha para realizar toda a parte burocrática da compra da casa.

Com o sucesso da ação, Derineudo acabou se tornando “anjo” do programa e sua missão é encontrar outras pessoas como seu Manoel. Missão esta que ele já realizou este ano com a arrecadação e entrega de mais duas casa, em Rio Branco. O policial, acabou ganhando seu presente de Natal um ano após o encontro com o picolezeiro. Ele, que também não possui casa própria, foi beneficiado com a criação de uma vaquinha pelo “Razões para Acreditar”. Uma história que está apenas começando, mas que reforça como a generosidade pode mover pessoas e transformar vidas.

“Posso dizer que aquele momento lá já tinha sido um final feliz para mim e seu Manoel. Mas hoje eu posso dizer mais, que a porta que abriu através do seu Manoel  está fazendo muita gente abençoada pelo ‘Razões para Acreditar’.  Então, aquele vídeo não só ajudou seu Manoel, como está ajudando outras famílias e vai ajudar mais outras famílias que às vezes nem esperam”, afirma o policial.

“Aquele vídeo não só ajudou seu Manoel, como está ajudando outras famílias e vai ajudar mais outras famílias que às vezes nem esperam”, comenta Derineudo. (Foto: Dell Pinheiro)

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