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Luísa Lessa
Luísa Galvão Lessa Karlberg é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); membro da Academia Brasileira de Filologia; presidente da Academia Acreana de Letras; membro perene da IWA. Email: [email protected]

O poder das palavras

Vive-se em um mundo cercado de palavras. Muita gente julga que as palavras não têm poder, mas, em verdade, elas dire-cionam a vida de toda gente. Isso porque tudo quanto existe no mundo é nomeado pela força das palavras. É pelas palavras que fazemos as pessoas felizes, fazemos sofrer, trazemos satisfação, magoamos, acari-ciamos, alegramos, damos prazer, consolamos, geramos raiva, incutimos o medo, produzimos pensadores e pensamentos, inibimos o sur-gimento de novas idéias, tolhemos a criação de um momento, tornamos sensíveis os olhares, e uma infinidade de outras coisas.

Vê-se, então, que as palavras sempre são poderosas, não resta dúvida quanto a isso. Elas são a íntima conexão com o viver e a vida. De uma forma geral, as pessoas são descuidadas com o uso das palavras. Entretanto, a maioria das coisas que se consegue nessa vida – uma amizade, um desafeto, uma demissão, uma promoção, um emprego, uma simpatia, uma antipatia, etc – resulta de palavras pronunciadas. Uma palavra otimista, positiva, confiante, generosa, compreensiva, amorosa pode mudar completamente a tendência de um ambiente tenso, depressivo. Também é possível mudar um quadro pessimista em um otimista, tudo por meio das palavras.

Há pessoas que se orgulham por não terem “papas na língua”. 

Confundem sinceridade com grosseria. Vivem ferindo as pessoas e não estão nem aí com o que provocam. Contudo, não conseguem compreender porque encontram tantas resistências, tantas provocações e tantos dissabores. Embora o ditado popular que diz “quem semeia vento, colhe tempestade” sirva para mostrar a ligação que há entre causa e efeito, muitos, através de suas próprias bocas, continuam semeando discórdia, mas teimam em não perceber a origem daquilo que colhem. Também a sabedoria popular ilustra bem este comportamento inconseqüente no ditado: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”.

Uma palavra pode marcar alguém para o resto da vida. A criança, por conta de sua sensibilidade, é mais suscetível às palavras. Uma palavra dita para uma criança pode determinar o seu futuro. É muito comum, por ignorância, os pais dizerem: “esta menina é um desastre; este menino é muito burro”. Dessa forma, o subconsciente, ao determinar algo como verdadeiro, cria leis mentais que tentarão se cumprir. Ou seja, a responsabilidade que cada pessoa tem com o uso das palavras é imensa, colossal. Tanto, através delas, se constroem vida, como se afetam vidas alheias.

Sabe-se que as guerras são deflagradas por conta de palavras, porém, a humanidade teima em não perceber o poder (de destruição e união) que existe no seu uso. Com palavras de amor e compreensão um ser humano excepcional foi capaz de revolucionar o mundo. Jesus não utilizou outra coisa para transformar a humanidade senão palavras que, até hoje, continuam vivas e atuais.

Afinal, é bom pensar e nunca esquecer a força das palavras. Na força negativa e positiva. Sim, as palavras podem libertar e oprimir, alegrar e entristecer, fazer viver e fazer morrer, aliviar e angustiar, rir e chorar, incentivar e esmorecer, amar e odiar e assim tantas coisas mais. Além do conteúdo das palavras, existe a forma de como elas são ditas.
Uma palavra confere o nome ao filho que nasce e ao navio ou avião que transportará vidas ou armas. “Vá”, “Venha”, “Fique”, “Eu vou”, “Eu não sei”, “Eu quero, mas não posso”, “Eu não sou capaz”, “Sim, eu mereço”. As palavras têm o poder de dizer a vida. Elas são porta-vozes do mundo. Por isso merecem ser cuidadas, zeladas.
Termino o texto convidando-os, aqueles que lêm Letras & Letras, a utilizarem as palavras, elas pertencem a cada pessoa enquanto quiserem usá-las. Não deixem para depois o que podem fazer agora. Peçam desculpas, amem, jurem, confiem, falem com doçura, digam verdades, sejam gentis, abençoados, sejam felizes. Ini-ciem o 2010 falando com o coração de Amor.

DICAS DE GRAMÁTICA

POSSO DIZER “BOA NOITE A TODOS E A TODAS”?
– NUNCA! Por favor, não faça isso. Todos e todas são pronomes indefinidos. Utilize o pronome de tratamento mais usual, como recomenda a norma gramatical: “BOA NOITE SENHORAS E SENHORES”!

QUAL A DIFERENÇA ENTRE AS PALAVRAS DARMOS E DAR-NOS?

– DARMOS se escreve junto e se refere ao verbo “dar” na 1ª pessoa do plural do infinitivo (flexionado), com a desinência “mos”:
Disse para (nós) darmos nossa opinião.

Convém falarmos baixo.

Para acertarmos as contas, precisamos nos reunir.

A outra palavra é DAR-NOS – com N, pois se refere ao pronome oblíquo NOS, que quando vem depois do verbo (ênclise) se separa com hífen. Exemplos:

Ela já comprou o presente que quer dar-nos no Natal. [dar-nos = nos dar]

Ele vem falar-nos sobre deveres e direitos. [ou: vem nos falar]

Pelo jogo, nossos adversários devem acertar-nos somente nas pernas.

 

Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras.