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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Sangue-frio!

Sangue-frio, fleuma, calma, ou  resignação, são vocábulos sinônimos de paciência, e relacionam-se com o tempo. Implicam em esperar. Esperar é uma tarefa difícil e, também, uma virtude esquecida pela atual geração;  O mundo de hoje é o da gente  dominada pelo consumismo exagerado, em que tudo tem que acontecer agora, já! Afinal, estamos na mesma categoria das bestas; pois toda ação da vida animal diz respeito a buscar o prazer e evitar a dor.

 Num  mundo assim,  em que a ansiedade é o grande algoz do homem, o ansiar por melhores dias, ou inquietar-se por eles, não assegura aos nossos corações que dias melhores irão surgir antes do tempo próprio. Nesse caso, sangue-frio é a capacidade de esperar por mudanças, sem demonstrar ansiedade exagerada, pois etimologicamente, o termo paciência, usualmente envolve noções de longanimidade.

O problema é como ter calma num país em que, no caso deste ano velho, o governo permite medidas cerceadoras contra a economia nacional, p.ex. energia elétrica e gasolina, transmitindo  impaciência e inquietação.

Como controlar as ansiedades, por exemplo: das classes representativas da educação, do judiciário, das polícias federais, do servidor público em geral. Do pai de família, profissio-nal honesto, que não encontra condições de sustentar sua família com seu pequeno salário e ainda vê seus filhos sendo empurrados na direção das praças e ruas em busca de sobrevivência.
Posto que a realidade do trabalho infantil, pior ainda, da exploração de crianças, explica muitas vezes o número elevado de evasão escolar na faixa etária de 7 a 14 anos, aumentando mais ainda o índice de analfabetismo no Brasil?

Como pedir calma a esse mesmo pai, cuja familiar vai sofrendo toda a deterioração que o contexto maior vai lhe impondo. A família que era vista como uma unidade, agora é esfacelada. Os vínculos afetivos entre marido e mulher e entre pais e filhos se rompem em definitivo. Afinal, o filho ou a filha está nas ruas, entre outros milhares de crianças, se ini-ciando no cigarro, na bebida, nas drogas ilícitas e na prática sexual precoce (não podemos deixar de bater nesta tecla, aguçando os ouvidos moucos das autoridades competentes) que conta com o incentivo da mídia televisiva, que ensina crianças e adolescentes a usar camisinhas, sob a desculpa de que a vida sexual no Brasil se inicia aos 12 anos?

Dos idosos que, ilusoriamente, vão se retirando da atividade econômica porque se aposentam e deixam de trabalhar. A grande maioria não consegue acumular economias necessárias para a velhice. Não produzem, não consomem de acordo com as expectativas, não interessam ao sistema econômico vigente, salvo as agências de empréstimos consignados. Com magra aposentadoria, sozinhos vão morar com os filhos e noras ou genros, muitas vezes criando sérios conflitos, sendo então encaminhados para os asilos onde quase sempre caem em profundas crises de depressão.

Precisamos ter sangue-frio diante da  falta de segurança em todos os níveis da vida privada e pública, da violência alarmante e de outros males que assolam os quadrantes da Nação brasileira, deixando a todos, até mesmo nós que vivemos aqui no Acre onde não deveria haver tanta violência, sobressaltados. 

Sei, entretanto, que a situação atual, independente das utopias do futuro, exige da gente a capacidade de perseverar face às dificuldades, ou até mesmo sofrer tudo sem perder o ânimo.  Exercitar com tenacidade, própria de cidadão sofrido, muitíssimo provado por meios de perdas, sofrimentos e outros males existenciais, a fé nos poderes constituídos e caminhar com coragem e calma até o fim do ano. E, a seguir. Bem, depois, só Deus sabe o que virá!

Sei  que para suporta tudo isso é preciso mais do que sangue-frio.  Será necessário, portanto coragem, já que de todos os valores, essa virtude é sem dúvida a mais universalmente admirada. Não atos de bravura isolados. Mas, a intrepidez da paciente gente brasileira. Aquela que não recua diante de consequências adversas, na realização de seu dever. A propósito, se me fosse permitido pedir algo a Deus, pediria o dom da bravura; não a coragem dos patifes ou dos celerados, facínoras e malfeitores, notadamente do erário público. Mas, aquela coragem  inserida, segundo os filósofos gregos, nas quatro virtudes cardeais do homem: à  sabedoria, à moderação e à justiça.

* Francisco Assis é pesquisador Biliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]