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Águas de sempre

O Rio Madeira protagoniza uma das maiores tragédias ambientais da Amazônia. Mas não é a primeira vez. Taí o YouTube que não deixa a história mentir, revelando edição do Globo Repórter de abril de 1982 sobre “a maior enchente da região nos últimos 30 anos”, onde um jovial Sérgio Chapelin anuncia “os estragos e dramas provocados pelas inundações no novo Estado de Rondônia. As águas ocuparam as partes mais baixas da capital, Porto Velho, e a estrada que liga essa cidade a Rio Branco, no Acre”. O texto de trinta e dois anos atrás soa tão atual que poderia ter sido lido semana passada pela bela Patrícia Poeta, apresentadora do Jornal Nacional, da TV Globo.

A similaridade da velha reportagem da Globo com a presente alagação do Madeira e suas graves consequências, cai como uma dura cobrança sobre analistas e políticos que se apressaram em buscar culpa até nas barragens das usinas de Jirau e Santo Antônio, tentando colocar a catástrofe natural na conta do governo.

Na grande imprensa também não faltou a crítica fácil, senão interessada. Festejado colunista da revista Veja, Lauro Jardim traduziu a sigla FAB como “Farra Aérea Nacional”, pelo fato da Força Aérea Brasileira, junto com o Exército e o próprio Governo Federal, se incorporar ao esforço do Governo do Estado para garantir o abastecimento da população.

Não bastasse o sítio do Madeira na BR-364, as chuvas espalhadas na Amazônia também caem nas cabeceiras do Rio Acre, que se eleva e já desabriga milhares em Rio Branco. Mas quem se der ao sentido cuidado de comparar a forma do poder público tratar famílias desabri-gadas em Porto Velho e em Rio Branco, sinceramente constata que, apesar de mais pobre e mais isolado, o Acre mostra compromisso com  quem mais precisa.

Temos governo, prefeitura e sociedade mobilizados. Já mostramos iniciativa, mas o tempo ainda sugere longos dias de alagação à exigir da nossa solidariedade. Estejamos prontos. A lamentar, apenas, que, além do levante de gigante dos nossos rios, o Acre ainda tenha que enfrentar a miudeza daqueles que tentam politizar a calamidade.

* Gilberto Braga de Mello
é jornalista e publicitário.
E-mail: [email protected]