Cá com os seus botões já desabotoados

Conversar com a  minha Penélope Despudorada é sempre uma forma de rir da vida que é, ao mesmo tempo, tão transitória e tão cheia de surpresas e esquisitices provocadas exatamente pelos humanos que, como a minha heroína, chutam o balde, botam o pai na forca, escorregam na maionese, comem o diabo que o pão amassou e dizem apenas o que lhes dá na telha, principalmente, até a respeito daquilo sobre o que não entendem ou nunca ouviram falar.

Então, para dar alguma legitimidade a este texto amarfanhado, recorro às Escrituras Sagradas e vos afirmo que o que caracteriza um mau caráter é o hábito da mentira, da falta de respeito para com o próximo, da falta de amor, enfim, do trambique e da armação. Podemos dizer que o caráter mau está relacionado à prática das obras da carne. (Gálatas 5. 16 a 21) E tudo isto é a cara da Penélope, sem querer julgá-la, e já julgando, é claro.

Para a Penélope, meter-se na vida alheia ainda é esporte nacional, principalmente, depois que, ainda nos anos sessenta, uns radialistas inspiradíssimos  –  para não ser muito corrosivo  –  criaram aqueles programas nos quais as pessoas eram chamadas a dar opiniões sobre um casal que se separou em vista dos deslizes de um dos pares, ou sobre a normalista linda de dezesseis primaveras que arranjou uma barriga e nem desconfia de quem é o pai fujão… Ou sobre aquela matrona viúva e rica que pega e paga um rapazola pobre dos nossos subúrbios sociais.

A partir desse momento da tragicomédia nacional, todos perceberam que, definitivamente, têm tudo a ver com a vida daquela filha do vizinho que se acachapou com uma morena trigueira machuda e agora quer casar e adotar um bebê… E dará certo, sim, porque as duas são pessoas de ótima índole e têm objetivos bem definidos… Ora! O que é que tem? Cada qual no seu quadrado, ou até no seu redondo, sem duplo sentido.

Em verdade vos digo que a Penélope saiu da minha vida ainda nos anos oitenta, mesmo sem nunca ter sido exatamente minha amante. Tínhamos uma amizade colorida e dividíamos alcovas a cada período em motéis fétidos da periferia de Belém, onde eu tinha alguns parentes, a vida era folgada e a Vasp dava descontos fantásticos, tanto que faliu.

Aí, ela viajou para o Rio e lá encontrou um carinha,  surfistinha, dragão tatuado no braço, calção corpo aberto no espaço, coração de eterno flerte, e por aí vai…

Como não poderia ser ao contrário, foi para a cama com o Mauricinho no primeiro encontro, fez barba, cabelo e bigode, deu-lhe uma tesoura de pernas e, dois meses depois, grávida de um paraense baixinho, já se instalara em Ipanema num apê de classe média alta que era dividido, antes, pela mãe viúva de um militar do AI5 e pelo rapazola traído e jamais sabido.

Um dia, então, recebi ligação telefônica do Rio. Alguém dissera que eu havia ficado bem de vida como proprietário de um desses estabelecimentos que vendem sexo a preço módico e fiado a não perder de vista, no cartão, é lógico.

Tudo mentira. Golpe sujo. Eu sempre fui barnabé federal e nunca dono de motel ou puteiro. Ela foi quem inventou a papagaiada querendo viver alguma emoção tardia nos meus braços de Aquiles, enquanto o Mauricinho ficaria surfando no Arpoador.

Mesmo assim, veio bater em Rio Branco do Acre, dizendo ter dado recesso de um mês ao casamento desgastado, segundo a própria. Doida, doida. Deixou o filho de três anos com a sogra, coitado. Arranjara ares de rica. Descolara em meio ao jet set carioca o seu próprio espelho no qual se mirava da forma como bem entendia, nua ou seminua, na cama ou na rua, com umas bermudinhas que davam tesão em cego, umas camisetas mínimas prontas para serem furadas por mamilos quase pontiagudos. À noite, então, na seresta do Vasco, estes mesmos seios túrgidos que me embebedaram chamavam ainda mais a atenção da raça miúda, por estarem embalados ou apertados em sutiã meia taça quase se derramando… Uma loucura!

– Minha caríssima, dispendiosíssima, gastosíssima Penélope Despudorada, o que dirá a tua sogra no dia em que souber que o netinho tão amado e tão paparicado não é filho do Mauricinho, mas do paraense capa de chupeta? Ela quererá ainda a criança ou expulsará mãe e filho dos domínios ainda custeados pelo soldo do general morto?  –  Foi a minha pergunta ardilosa feita para uma mulher mais capciosa ainda.

Ao que ela respondeu:

– Em bom paraenssês, meu querido, o risco que corre o pau corre o machado. O Acre inteiro sabe disso. Você espalhou. Mas a velha lá no Rio não sabe, a fofoca não terá fundo de verdade, porque não há como provar nada e, se ela me expulsar, a justiça me assegurará todos os direitos posto que direi que ela amalucou e que há uma certidão de casamento e um registro de nascimento… Morou morais, se não morou não mora mais!

Foi aí que entendi, enquanto quase filósofo imaturo e meio maluco, que os princípios que regem o nosso caráter são trazidos de casa, da criação, dos pais. Por um lado, usando o jargão já apodrecido pelo uso, a sociedade corrompe mesmo. Depois, é como na canção antiga, segundo a qual pau que nasce torto não tem jeito morre torto, e pronto.

Já bem moderna, depois de ter sido moderninha, nos anos setenta, e modernosa nos oitenta, gravou uma fita cassete e me enviou um palavreado meio subtil, gravado, talvez, em meio à baforadas de basilares à base de marijuana.

– Soube que você agora é professor de Filosofia… Legal, né? Sucesso! Mas preste bem atenção a uma assertiva para a sua análise: o que você faria hoje se soubesse que morreria daqui a seis meses?… Pois bem. Fiz essa pergunta ontem a mim mesmo… É como aquela: e se o mundo acabasse amanhã?…

O que se seguiu foi um ato de contrição do tipo eu não presto nem nunca prestei. Sempre te vi e nunca te amei. Eu ouviria as piores notícias da tua boca metálica sorridente.

– Ora, Cláudio. Em seis meses, talvez eu desapareça. Estou me destruindo e não é com o álcool. Daqui pra lá, eu tenho ainda o que fazer. São muitos os planos. Devo arrancar o dinheiro da velha, dona Dirce, de oitenta e quatro anos. Estou encorajando o Mauricinho. Flavinho, o nosso filho e amuleto, está para se casar com a filha de um magnata residente na Delfim Moreira, Leblon, depois de colocado em prática plano bem elaborado por mim, é claro. Depois, vou dar uma volta no marido e voarei para Cancún, a fim de cumprir o resto da sina à base de champanhe, caviar e substâncias cruéis…

Senhora dona do baile, minha pequena Eva. É certo que tantos sinos já não dobram, assim como a minha poesia já não escorre com tanta fluidez. Todavia, se perguntarem o que você fará se souber que deve morrer em seis meses, as suas respostas a esta pergunta delinearão exatamente o seu caráter enquanto ser humano e participativo, ou não.

Com muito amor, do eternamente poeta ensandecido seu.

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas, de 2008; e O inverno dos anjos do sol poente, romance, de 2014, à venda na Livraria Nobel do Via Verde Shopping.

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